terça-feira, 24 de julho de 2012

Incluir socialmente X pactuar com a morte

De que é feita essa vida que tens na mão?
Te provoco sim. Por ousadia?


Não. Puro companheirismo. Sincero como o “não” de uma criança.


Vivemos a vida sem pensar, sem construir dela um conceito; sequer um pequeno “plano de vôo”. Planamos acima da vida e dos viventes com a mais perfeita serenidade.


Fora da nossa vida existem milhares de outras vidas. Zygmunt Bauman estabelece uma classificação/distinção entre essas vidas todas, inclusive a que vivemos.


De um lado estão os “de dentro”, cujo acesso aos bens da cultura e do consumo lhes é natural desde o nascimento, jamais chegando a pensar na possibilidade da existência de outras formas de viver. Temem o assalto; o seqüestro; essas coisas que rondam nosso ir e vir através das cidades de nosso mundo globalizado.


Do outro lado encontramos os “de fora”. A contraposição/oposição total do padrão de vida dos “de dentro”. Nada de cultura. Nada de consumo. Nada de aconchego de um lar. Apenas a frieza do mundo lhes doendo na alma sensível muitas vezes.


Esse contingente de vidas dos que estão do lado “de fora” é o consumidor das armas ilegais que transitam nos “não lugares” da nossa sociedade. “Não lugares” que são seu território, a polícia não se atreve.


Esse mesmo contingente de criaturas, seres humanos, espíritos ocupando um corpo, tal qual você e eu; são esses mesmos que apavoram nossas vidas. Colocando o medo como nosso maior acompanhante de todas as horas.


Os “de dentro” consomem mais e mais equipamentos de segurança; carros blindados; empresas de segurança cujos homens ou cães funcionam 24 horas no resguardo patrimonial. Mais das vezes sem sucesso.


É um problema similar em todo o mundo. Aqui ou acolá mudam os equipamentos, as formas, mas a insegurança se faz presente também de forma globalizada, da mesma forma que a avalanche do consumo.


Nas esferas de poder não há vontade política e nem competência em tornar o mundo mais seguro, isto porque o medo geral é o novo grande aliado do mercado global de consumo. Sendo as empresas de equipamentos de segurança um dos segmentos de mercado de crescentes e consolidados lucros.


Nesse conjunto todo, os Meios de Comunicação de Massa (MCM) sãs um fator importante na manutenção desse clima de insegurança, noticiando cada vez mais grotescamente os fatos criminosos que ocorrem. São fatos na verdade, mas recebem todo um tratamento, todo um clima é formado para não permitir, principalmente aos telespectadores a possibilidade de raciocinar. Acabam se tornando presas fáceis do terror urbano.


Na Zona Sul de São Paulo, mais exatamente na Chácara Santo Antonio, num retorno do horário de almoço, uma rua chamou minha atenção, bem como de minha companheira de trabalho. Uma quadra inteira era feita de casas fortemente gradeadas. Isto suscitou uma pergunta:


_ Quem são os verdadeiros presidiários? Nós em nossas casas ou os que nos assaltam?


Os MCM noticiam. As empresas que vendem seguranças enriquecem. Aumentam patrimônio; ampliam carteira de clientes; se consolidam no mercado.


E nós diante disso?


Deixar de viver está fora dos planos.


Seguir fazendo nossa parte com ética e integridade. Educar os nossos filhos e sobrinhos alertando das armadilhas do mundo e da vida atual.


Mas deixar que vivam livremente o seu momento. Vivam alegremente sua juventude, fazendo bom uso de suas energias. O tempo é muito fugaz e se esvai de forma instantânea.


E mais que tudo não temos crenças. Temos certezas como a imortalidade do espírito; do inevitável processo de evolução desse mesmo espírito. Uma evolução que abarcará inevitavelmente os “de dentro” e os “de fora”; aqueles que planam sobre a vida aos quais me referi anteriormente, e aqueles outros capazes de refletir seriamente a cada etapa da sua jornada existencial.


Estamos num mundo conturbado e imenso.


Não dá para fugir dessa realidade. A nossa existência e nossa ação é aqui e agora, cabendo a nós, a cada um de nós, fazer vingar os valores perenes, dentre os quais destaco a Esperança em primeiro lugar; e, não menos importante a Solidariedade Humana.


Pelo amor e pela vida!


Paulo Cesar Fernandes


24/07/2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Corporeidade e Vida

Como pode caber o Bem, onde habitam soberanos: o orgulho e a vaidade?

Como pode o altruismo ter espaço numa sociedade que tem no egoismo, na soberania do individualismo seu ponto basilar?
Como pode florescer a Espiritualidade numa mente totalmente voltada para a corporeidade?
Como pode por os pés no chão um ser humano capaz de buscar os valores do espirito, a ponto de esquecer de bem cuidar do corpo que o acolhe, permitindo sua práxis neste mundo?

Em tudo o equilibrio é necessário.
As mais belas edificações não o seriam se o arquiteto não tivesse em si a preocupação do equilíbrio estético.
Estamos todos vivendo num mundo multifacetado, onde os conflitos de toda espécie são tidos como naturais na existência das pessoas e das nações. Onde a felicidade é objeto de desejo de todas as pessoas, mas essa felicidade sempre é vista pelas pessoas como algo fora de si mesmo, e nunca como um elemento a ser conquistado partindo de valores internos, a serem calmamente cultivados como a temporança, a simplicidade, o altruismo e tantos outros capazes de, se unidos, construir a paz interior, necessária à Felicidade, bem como a Liberdade, condição inicial de tudo.


Viver é muito mais que sobreviver!
Poucos vivem!
Poucos colocam seu coração a cada pequeno ato seu. Ao conversar com alguém, ao lidar com os animais e com as plantas; na hora do banho, o prestar atenção ao próprio corpo.
Poucos desejam "Bom dia" na profundidade de seus coração.
Impera o reino das aparências!
Não é de estranhar que impere a dor, filha dileta da falsidade! Da incompreensão.
Tudo que é verdadeiro e sincero nos eleva e nos alivia. Não agrega peso a nossa existência; sendo ao contrário é situação de tormenta certeira.
Que nosso corpo e nosso tempo nos sirvam de valiosos instrumentos.


E nossos pensamentos estejam impregnados dos valores imorredouros do coração.
Se um outro mundo é possível na Terra. E é sem duvidas!
Uma outra forma de conduzir nossa existência também o é.
Valores reais são os perenes no tempo: amor; sinceridade; fidelidade; racionalidade, e tantos outros que nos garantem o sono mais sereno e restaurador.

Assim teremos vida, e vida em abundância.

Paulo Cesar Fernandes
23/07/2012

domingo, 22 de julho de 2012

Voar (Crônicas dos tempos do Quanta

Crônicas dos tempos do Quanta


Voar *

Quando um homem comum morre, perde a família consangüínea.
Ao morrer um idealista, ou seu ideal; perde muito de força o crescimento da família humana.
O ideal é o lubrificante que viabiliza a engrenagem do novo, do criativo, da verdadeira máquina de progresso que impulsiona a humanidade.
Olhemos fundo no passado da humanidade. Nomes não faltarão nas mais diversas áreas.
Nesses nomes se basearam os saltos qualitativos na caminhada do conhecimento.
O saber acadêmico é estático.
O do idealista é dinâmico; segue a própria dinâmica do inconformismo com o velho, com a mesmice, com a falta de visão histórica espraiada na sociedade de todos os tempos.
Só ele, só o idealista sai do quotidiano perscrutando a vida, com seu binóculo de ver o futuro. Como a gaivota de Richard Bach, deixa os outros e segue solitário seu rumo.
Incompreendido, criticado, isolado até por seus pares, tem na luz do seu norte a segurança da jornada.


Caminha.
Empreende.
Realiza.


Do centro de sua solidão; pouco a pouco compreende seus pares, vê seus pés, atados ao chão do imediatismo, sem poder ajudá-los a voar.
Pássaro nenhum voou sem tentar; partindo sempre de uma própria dinâmica interior.
Tal qual a ave mãe, se alegra o coração do idealista. Pois sabe, de experiência própria: uma vez alçados grandes vôos; pouca chance terá o aprendiz, de desprezar o prazer de ver o mundo, sempre a partir de perspectivas mais altas.



Paulo Cesar Fernandes.

14/06/98



* Texto dedicado a Jací Régis.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Viver pensando em qualquer coisa

Vivemos! E atribuladamente na maioria dos casos.
Nos deixamos carcomer pelos afazeres diários. Eles nos sufocam. Eles nos agridem com todas as forças...
Mas vivemos de roldão, na "Roda Viva" tão bem posta por Chico Buarque em sua obra.
E não pensamos.
No mal que fazemos. Ou no bem a escapar de nossas mãos.
Ganhar mais dinheiro; uma posição de maior destaque social; um tantoa mais de poder; tudo isso compondo uma série de não-pensamentos, um não pensar. Pela morbidez de tais preocupações.
É um viver atabalhoado, irracional até.
Principalmente se carregamos em nós a concepção imortalista da existência, onde o tempo se desdobra a nosso favor, sempre nos fornecendo oportunidades maiores, oportunidades novas; seja isto no âmbito mais amplo das diversas encarnações; seja isto dentro dos limites de uma encarnação apenas.
O tempo é sempre nosso aliado. Amigo. Nos ajuda a vencer os momentos de ira para convertê-los em afetividade.
O uso do tempo é uma arte. Emmanuel em "Instrumentos do Tempo" traz idéias importantes. Vamos a elas para depois adicionar algumas considerações;


Descrucifica o Cristo que ainda jaz crucificado em nossa semicaridade e obscurecido em nossa semiconfiança.
Dá vigor e existência ao Mestre que recebeste no templo da alma!
Crê e vive!  Crê e aperfeiçoa-te!  Crê e eleva-te, elevando os que te rodeiam!
Conduze a esperança onde a fé esmoreceu, faze brilhar a alegria onde a penúria abriu o manto imenso de sofrimento e escuridão...
Jesus é vida, amor, atividade redentora, bênção de todos os dias.

É muito isso! Ainda achamos que Jesus é cristo, cristo coisa nenhuma, homem como eu e tu, infelizmente mitificado pela ignorância reinante, permitindo assim um dominio mais fácil das religiões sobre os homens, fazendo-os servos fiéis e não pensantes. "Fareis tudo que o Senhor mandar..." tal qual no folguedo infantil.
A história da humanidade é a historia do homem desejante de domínio sobre outros homens.
Hegel está certissimo em seu pensamento. E os dominadores sempre conseguem espiritos preguicosos, louquinhos para encontrar alguém capaz de os comandar, livrando-os assim da responsabilidade de ter em suas mãos as rédeas do próprio destino. Néscios! Vagabundos existenciais é o que são.
Entregam de mão beijada o seu destino a outrem, sem cuidar da condição ético-espiritual desse outrem. Saem repetindo discursos como inconscientes aves parlantes. Repetem o discurso do pastor, do cura, do espirito da casa, vale tudo, desde que não se vejam diante da responsabilidade de si mesmo. Temem andar pelos próprios pés. Falam muito no Cristo e agem pouco em seu favor.


Vamos tirar esse camarada da cruz? Deixar ele caminhar entre os povos da terra. Tomar para nós a sua mensagem em nosso viver. Simples como um copo de água dessedentando aos que tem sede.
E o mundo tem sede sim; tem sede de homens vivendo a mensagem do nazareno no seu agir natural.
Pois claro! Sempre isso foi tido como o inatingível. Destinado a santos apenas, a grandes almas, "eu ainda não posso..."...
Pura baboseira!
É coisa para o nosso dia a dia.
O remédio é fabricado para os que apresentam alguma doença. Não para quem esta livre de todas as potologias.
Temos, muitos de nós, patologias da alma a ser trabalhadas, cuidadas carinhosamente para não agravar o quadro. E o remédio está no mundo desde seus primórdios. Pois em todas as eras da humanidade homens de bom senso e elevada moral deixaram seus recados.
Esta terra e seus viventes nunca estiveram ao desamparo!
Lembro de Silvio Brito se referindo a ele como o Homem de Nazaré. E suas mensagens, ensinamentos vieram para se somar a toda uma tradição de pensadores, condutores desta humanidade terrena. Resta ao surdo homem da PósModernidade agregar todos os ensinamentos ao carrinho de aquisições de sua existência. Um linguajar de supermercado é bem cabível numa "Sociedade de Consumidores".


Se assim o fizer. Se agregar a mensagem de Jesus a suas aquisições diárias, estará seguro de ter vida e vida em abundância; amor; uma atividade redentora, e finalizando terá a bênção de todos os dias.
Pois cada dia já é uma benção da vida a nos chamar para a senda do bem.
Resta apenas agradecer a Emmanuel pelo tanto feito em beneficio da humanidade, sempre a nos relembrar das mensagens do modelo a ser seguido, apontado pelos espiritos a Allan Kardec: Jesus de Nazaré.
Agora é conosco!


Paulo Cesar Fernandes


20/07/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

Minuto

O livro "Instrumentos do tempo" de Emmanuel tem um item chamado O minuto.
Vejamos seu inicio:

Dádiva divina, repete-se infinitamente em nossa estrada.

Usando-a, é possível a realização de surpreendentes milagres em nossa vida.
Pede-nos tão-somente trabalho, boa vontade e diligência no bem, para trazer-nos sublimes edificações...
A sementeira do êxito.
O reajuste da própria alma.
O regresso ao caminho de luz.
O tesouro do entendimento.
A fortuna da sabedoria.
A plantação da amizade.
O progresso nas boas obras.
A conquista da simpatia.
A aquisição do concurso fraterno.
A bênção do dever bem cumprido.
Todo o engrandecimento de nossa vida começa na insignificância aparente de um minuto.

«««««

De forma geral somos escravos do tempo. No âmbito profissional nem se fala. A tecnologia, com seus brinquedinhos móveis, nos fez voluntariamente escravizados. Somos encontrados nos momentos mais diversos, e nas situações mais dispares. E isso não nos aborrece.
Sou contra a tecnologia?
Totalmente a favor.
Sou contra a pessoa abrir mão da propria liberdade, com o intuito único de se fazer notada como alguém importante e necessária, uma vez que o celular toca regularmente e com frequencia.
Mas cada qual tem a liberdade inclusive de se escravizar ao ambiente de trabalho ao qual se vinculam, como vi no Banco Safra em sua área de Tecnologia da Informação.
Ficar horas a mais no ambiente da empresa, visando se fazer notar pelo grupo de coordenação, que nunca checava a produtividade dessas horas adicionais não remuneradas é certo.
Esse é um tipo de uso do tempo. Um fato observado.


Mas o interessante a nós espiritos encarnados na terra, em processo de aquisição de experiências, de ajustamento à Lei Natural, regente de tudo presente no universo, ou nos universos uma vez que alguns cientistas aventam a hipótese de haver vários universos.
Como se dará nosso reajuste se não for através do uso do tempo.
O bom uso do nosso tempo, do tempo a nós concedido para essa finalidade: nosso encontro e ajuste à Lei Maior.

Não há a menor religiosidade nisto.
Fatos não carregam religiosidade em si. Eles são. Tal qual nosso tempo é.

O que eu faço do meu minuto, depende de mim, e de mim tão somente. De minhas inclinações interiores, pendores, tendências.
No mesmo momento em que assisto na TV, um programa capaz de trazer a publico as mazelas da vida de uma familia, posso assistir a outro a nos trazer conhecimentos acerca das diferenciadas caracteristicas da fauna de determinada região do mundo.
Tudo não passando de uma questão de escolha tão somente.

Intencionalmente deixo as atividades benevolentes fora do escopo de minha reflexão. Muitos jáo fazem e seguramente bem melhor que eu o faria.

Andar pela cidade, observando as pessoas, e as diferentes expressões faciais, muitas delas sendo uma foto clara da confusão mental ali presente.
Atentar aos outros, nunca para desmerecer a ninguém, mas para melhor mirar o nosso interior, essa é uma forma eficaz de aprendizado. E, por certo, um bom uso de cada minuto.

Caminhamos todos para o melhor uso do tempo e de nossas potencialidades em cada etapa da jornada terrestre. Essa certeza habita minha Razão.  

Paulo Cesar Fernandes

17/07/2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Queixas ? ? ?

Ele é o desmancha rodinhas.
Presença desagradável.
Ninguém gosta de coisas negativas, de más noticias, de baixo astral.
_ Como vai voce rapaz? Faz tempo que não te vejo.
_ Eu vou bem. Mas a vida não é facil não. Voce pensa que é facil? Uma tia minha mora ali perto e Ilhéus ...
E desfia um rosario de queixas e mais queixas.
Lembra o Hardy Har Har, a hiena dos desenhos animados? É isso!
_ Oh céus, oh dias, oh azar... - era seu bordão.


Tenho uma amiga Quitéria, eu a chamo de Qui, um pouco para diminuir um nome que não é lá uma beleza, e outro aspecto é meu pensamento quando a encontro:
_ Qui virá por aí hoje? - já esperando alguma queixa.

Vez por outra dá uma passada em casa para tomar um café, e me contar uma queixa nova. Tem gente que conta descobertas interessantes. A Qui, queixas...
Gosto muito dela, é um coração bondoso, se anula pelas filhas e neta, deixando de viver, se divertir, ter momentos de prazer mesmo. Tenho percebido isso.


Um dia, toca o telefone e era a Qui. Voz lenta, a expressão do desânimo, arrepiei no ato:
_ Paulo? Voce está aí? - como se pudesse não estar ao atender o telefone.
_ Sim, botando umas coisas em em ordem na casa, mas diga lá!
_ Então,.... voce aguenta esse calor? Eu não aguento, está muito quente... - falou uma série de coisas relativas ao calor e quanto este a atrapalhava - Finalizou a fala com um sonoro: Aaaaaiii!


Eu estava me movimentando, ouvindo música, cantando junto, em alto astral...um dia alfa. Sorri muito e, admito, um sabor de molecagem me veio à boca...
_ Qui. Voce não se preocupe, vou te ajudar. - disse eu sorrindo muito do lado de cá da linha.
_ É? E como?
_ É fácil! Fácil, facil, veja bem: marco uma entrevista com o Prefeito. Compareço barbeado, bem vestido, como se fosse um milionário. Causo boa impressão é claro. Daí, eu intimo ele a instalar um novo equipamento na cidade: o Ar Condicionado Municipal. Nenhum bairro desta cidade vai mais passar por esse incômodo do calor.
_ Não se pode falar sério com voce mesmo. - e bateu o telefone na minha cara, falando forte e iradamente.
Senti muito carinho e gargalhei a grande.
Pelo menos falou com energia e não mais com boca mole. Pensei.


Mas algo de seriedade nas palavras de Emmanuel em "Instrumentos do tempo" (Queixas, não):


"Cada dia é uma fração de recursos que podemos empregar em aprendizado e melhoria por fora, para enriquecimento e sublimação por dentro de nós.
Ante aqueles que já despertaram nas responsabilidades próprias, não existe ocasião para queixas.
Todas as horas são instrumentos que favorecem a execução das tarefas que fomos induzidos ou claramente requisitados a realizar no campo do bem. Empenhemo-nos em lutar pela própria elevação.

Ninguém está excluído."


É muito isso. Quem tá com a cabeça bem ocupada, ou ocupada no bem, esqueçe o mundo ao redor.
Até mais!!!

Paulo Cesar Fernandes
13/07/2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Ter para si um senso de utilidade

Ter para si um senso de utilidade



Nos dias nublados de mudança e desencanto, recorda que o auxílio da Vida Superior está chegando às tuas áreas de atividade e expectativa.

Não respondas ao Céu com o barulho da aflição.

Ruído e desequilíbrio impedem o amparo do amor e a mensagem da paz.

Espera servindo.

Na luz da esperança e pelas bênçãos do teu próprio serviço, Deus te socorrerá.

(Trecho de Instrumentos do Tempo - Emmanuel - Chico Xavier)



Buuu! Parar para pensar: e se Deus não existe? Muda alguma coisa?
Vejamos.
Mudança e desencanto não devem nos abalar, primeiro pois mudança é o vetor da vida. Não tem por onde. Enquanto voce le esta palavra, a Terra lá por dentro está se movimentando. Para saber mais desse tema fascinante, vai dar uma olhada nos livros de Geologia. Estou convicto de tua admiração, ante tantos fenômenos que não tomamos conhecimento no âmbito das primeiras letras. Ao menos noções deveriam ser fornecidas, mas essa é outra temática.


Desencanto só ocorre pois colocamos em alguma pessoa ou em alguma instituição uma fé cega. Larga mão! "Fé cega, faca amolada" segundo Milton Nascimento. Daí fé em nada e ninguém além de ti. Tu és o Senhor da tua vida e o único capaz de mudá-la e, por esse motivo o único responsável pela trajetória que venhas a escolher. Pode ser uma realidade dura, mas assim é! Confia em ti mesmo, tu és grande e tu podes e poderás coisas inimaginadas por ti nos momentos de aflição. Pois tudo passa, a chuva de verão é aterradora, mas limpa a atmosfera. Assim será a tormenta na tua vida, e depois dela verás mais claramente. "Eu posso ver claramente agora que a chuva se foi." dizia uma musica norte-americana da minha juventude, e é real, sempre bate limpeza depois das tormentas: na atmosfera ou na existência do espirito.

Assim sendo: bola prá frente que jogar na retranca é perigo certo.

Nesse contexto de dominio teu sobre a vida; a aflição, o tumulto mental, o desequilibrio passarão bem longe de ti.
Acredite em mim, apesar de ser um "adolescente de 60 anos". Tenho muito a aprender também.
Quem se acha sábio desconhece a extensão do conhecimento.
Paulo Freire o maior educador do Brasil para muitas pessoas, entre as quais me incluo, era o primeiro a afirmar que aprendia com os alunos. E assim é.

Diante dos desafios que a vida te apresenta.
Para! Pensa! E de forma autônoma define tua meta, teu roteiro, tendo sempre a certeza que amigos muitos, encarnados e desencarnados poderão te ajudar na execução da trajetória, mas o mérito da escolha é totalmente teu. Terás sido o Senhor de tua vida.
Poucos neste mundo o são ! ! !
Estarás entre os grandes desta terra.


Paulo Cesar Fernandes
12/07/2012

Nota: Em minha opinião os artistas, por sua sensibilidade mais acurada, tem uma capacidade maior de delinear os caminhos acertados da existência. É necessário estar atento, pois nem todos que ganham dinheiro com arte são artistas de verdade. Temos enganadores em todas as áreas de atividade humana.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Profecia como práxis.

Profecia


»»» Emmanuel - Seara dos Médiuns - Chico Xavier


Quando a espiritualidade sublime te clareou por dentro, passaste a mentalizar perfeição nas atitudes alheias.
Entretanto, buscando, aqui e ali, padrões ideais de comportamento, nada mais recolheste que necessidades e negações:
. irmãos que te pareciam sustentáculos da coragem tombaram no desânimo, em dificuldades nascentes;
. criaturas que supunhas destinadas à missão da bênção, pela música de carinho que lhes vibrava na boca, amaldiçoaram leves espinhos que lhes roçaram a vestimenta;
. companheiros que se afiguravam troncos na fé resvalaram facilmente nos atoleiros da dúvida, e almas que julgavas modelos de fidelidade e ternura abandonaram-te o clima de esperança, nas primeiras horas da luta incerta.

Sofres, exiges, indagas, desarvoras-te...

Trilhando o caminho da renovação que te eleva, solicitas circunstâncias e companhias em que te escores para seguir adiante; contudo, se estivesses no plano dos amigos perfeitos, não respirarias na escola do burilamento moral.
O Universo é governado por leis infalíveis.
“Dai e dar-se-vos-á” – ensinou Jesus.
Possuímos, desse modo, tão-somente aquilo que damos.

O entendimento na Doutrina Espírita esclarece-nos a cada um que é loucura reclamar a santificação compulsória e, sim, que é dever simples de nossa parte operar a própria transformação para o bem, a fim de que sejamos para os outros, ainda hoje, o que desejamos sejam eles para nós amanhã.
É possível estejas atravessando a estrada longa da incompreensão, pedregosa e obscura.

Façamos, porém, suficiente luz no próprio íntimo, e a noite, por mais espessa, será sempre sombra a fugir de nós.

»»» Emmanuel - Seara dos Médiuns - Chico Xavier

Sábias palavras desse amigo de todos nós, e poucas vezes ouvimos.

Pode parecer que este, no transcurso de seu discurso, faz a apologia do isolamento e do egoismo tão presente em nosso mundo.
Nada disso!

Nos exorta a investir pesadamente em nosso arcabouço de pensamentos renovadores, fazendo em nós, dentro do periodo mais curto possível, o que poderiamos chamar a virada do jogo. A tranformação. Transsubstanciação. Palavras a chamar uma mudança.

Isto significa colocar o coração nos eventos ao nosso redor, mas sempre com uma mirada positiva, e tendo dentro de si a preocupação em saber:
"Como é que eu posso ajudar?". (Senso de utilidade de Kant. Sempre com a filosofia em punho.)

Essa é uma ação militante no Bem, que eivada de sinceridade pode estruturar aquilo denominável de "Amor e Profecia".

A sinceridade e o desejo do bem levam a isso naturalmente, é o riacho se conformando com a geografia do terreno, para ordeiramente se somar a um rio, por sua vez ajudará um rio mais caldaloso, até chegar ao mar de bondade que o nosso mundo tanto deseja, tanto precisa; mas incapazes são as pessoas de sair de suas "zonas de conforto" para se tornar um humilde filete de água que virá a dar num pequeno riacho. Sendo um inicio de processo.

Quando jogo minha vida em "Amor e Profecia" quero ser uma gota desse filete inicial. E ir pouco a pouco cumprindo as tarefinhas no seio da familia. Pois aprendi como meu maior amigo, o Milton meu cunhado, que "Caridade bem ordenada começa dentro de casa". E eu sigo nessa trilha, pois estou cada dia mais convencido da necessidade de caminhar nas pegadas dos homens bons e dignos. E que quando estamos atrás desses passos, nenhum mal pode se abater sobre nós. E a felicidade nos chega de mão beijada, por bondade e beleza da vida.

A Profecia que preconizo nada tem a ver com a fala dos profetas, mas sim com a práxis de Karl Marx. Intencionalmente me apropriei de um termo católico para poder resignificá-lo no projeto de união e irmandade de todos os povos de nossa América de origem Espanhola: a HispanoAmerica. Evidentemente o Brasil está incluso nessa América por ter sofrido em sua história as mesmas vis mazelas politicas e economicas dos demais povos.

Uso ainda a palavra Profecia em humilde homenagem a D. Pedro Casaldaliga, homem de fé, homem de Deus e homem de Profecia. Meu ateismo não me impede de admirar o belo do coração humano e muito menos a dignidade expressa em atos. Sempre digo da necessidade de julgar um homem por seus atos, e nunca por suas palavras. Palavras levam os ventos. Vide politicos do mundo. Mas a Profecia...

Sei do custo disso: a vigilância constante dos atos e dos pensamentos. Pois pensamento é energia, na medida que permite a movimentação de mãos mecânicas, como temos visto nos documentários cientificos de nosso tempo.

Pensar energéticamente no sentido do bem, em todos instantes de nosso dia. Não é para gigantes essa tarefa, embora dificil, é exatamente para nós, para mim por exemplo, se quero manter o meu Lar num clima de harmonia em alta. E dessa harmonia em alta ter as palavras certas, para usar nos momentos incertos da vida de alguém, da minha família inicialmente, e de qualquer companheiro/companheira de jornada cujo olhar veja embassado pela dor. Quando a dor maltrata os olhos a retratam.

Profecia, práxis, sentimento, amor, amar, servir, busco apenas ser uma gota, mas uma gota cristalina a cumprir ordeiramente a sua função. Que tenhamos paz em nossa jornada!

Paulo Cesar Fernandes

11/07/2012

terça-feira, 10 de julho de 2012

Nada Será Como Antes

Fui ao CEAK. Entidade que participei por 50 anos. Fui tomar um livro por empréstimo e lá dentro, e no caminho de volta, essa musica de Milton Nascimento me habitou a mente:


Nada Será Como Antes
(Clique e veja o video em nova janela)
Milton Nascimento

Eu já estou com o pé nessa estrada
Qualquer dia a gente se vê
Sei que nada será como antes, amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Alvoroço em meu coração
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Num domingo qualquer, qualquer hora
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

«««««

Tudo muda na face da Terra, e a meu ver para melhor.
Mudam as instituições e mudamos nós.
Por vezes somos obrigados, mesmo a contragosto, para não sofrer mais, a pegar o leme de nossa vida e marcar um outro rumo nesta vida. De inicio nos vem uma sensação de insegurança e medo, que apenas cessa quando nos chega a felicidade. É nesse momento a descoberta do caminho ser o mais correto. Estamos no leme e não tememos os bancos de areia do Rio São Francisco, somos capazes de apreciar a beleza de suas margens. Parar em Remanso; Agua Nova; Sento Sé; Pilão Arcado e cruzar a Barragem de Sobradinho sem medo do que virá do lado de lá.

Cada cidade pode ser uma concepção filosófica diferente (espiritismo, catolicismo, socialismo, comunismo, ateísmo, etc.), e depois da Barragem (a morte) chegar ao imenso mar azul carregando na boca da noite ou na boca do dia um forte gosto de sol.

Pela felicidade de usar este corpo, e pela certeza da felicidade após sigo no leme, sorriso largo e coração aberto, pois assim e apenas assim estarei apto a libertar os espiritos ainda presos aos grilhões das instituições.

Tenhamos todos vida, e vida em abundância!!!

«««««
Este texto é em homenagem a D. Pedro Casaldaliga, que foi bispo da Prelazia de São Felix do Araguaia e que ensina ao mundo a viver em amor e em professia.

Assim tento viver hoje!!!

Paulo Cesar fernandes

10/07/2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Um outro tipo de telefone

Tenho afirmado e reafirmado a beleza da vida.
Ela é, mais que tudo, uma bela oportunidade de experiência, de renovação, de aprendizado nas mais diversas áreas.


Mas há um detalhe, um pequeno detalhe que hoje me tocou fundo a emoção, que é a questão do Muro; esse Muro de Berlim que separa os dois lados da existência. Que nos parece Intransponível.


O lado material e físico da existencia corporal; e o lado leve, quando nos despojamos do corpo físico.


Hoje, forte, muito forte senti a ausência de meu cunhado, que se foi a 4 de dezembro passado. A mesma dor, uma saudade imensa daquele ouvido sempre amigo, aquele coração seguramente sincero, a vibrar com meus sucessos todos, e pedindo calma e esquecimento em momentos tormentosos. "Esqueçe isso, não vale a pena!"


E, em geral tinha razão, algumas coisas não vale a pena rememorar.


Medito, me alço à espiritualidade a cada fim de tarde. Tem me ajudado a viver. Faziamos assim quando vivia com minha mãe e minha irmã. Encontro simples e proveitoso. Assim é hoje.


Não é fuga, muito ao contrário é conexão. Bem diferente!


Esta meditação, neste fim de tarde foi toda ela dedicada ao bem estar desse meu cunhado, à sua alegria, e à sua lucidez o mais rápido possível. Que penso já ocorreu.


Mas bem que a vida poderia ter um detalhe adicional, e nos permitir, vez por outra dar um "telefonema" para os que amamos e já passaram pelo Portal do Desconhecido. Da minha familia tenho muita gente amada por lá. Da companheirada do espiritismo centenas senão mais. Amigos artistas lá estão outro tanto. Gente da música, teatro, professores de matérias e de viver por lá já estão.


A bem da verdade não tenho a menor pressa, mas como não vou ficar prá semente, na hora de minha ida uns poucos vão chorar por aqui; e, assim eu espero, uma multidão a me receber, tão logo deixe o corpo.


É um tempo de espera a reencontrar e abraçar plenamente a todos os que amamos, muitos dos quais temos muita gratidão.


Com tudo isso, e exatamente por tudo isso, a vida segue sendo muito bela de ser vivida plenamente! Sempre estarei a favor da vida. E tenhamos a cada momento, vida em plenitude!

Paulo Cesar Fernandes

06/07/2012
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Nota.: Ao fim do dia, conversando com minha irmã mais nova, não a que ficou viuva, ela me dizia que ao longo da tarde tinha sentido uma saudade muito grande de nosso cunhado. Relembrando todas as coisas boas que este fazia às mais diversas pessoas sem o menor intento de projeção ou de recompensa. Pelo puro e simples prazer de servir. Disse que chorou muito.
Tal e qual ocorrera a mim.
Desses dois fatos nada de conclusivo posso afirmar.
Mas, isso me permite conjecturar, da possibilidade de nosso cunhado já estar lúcido, e o que é mais importante, estar tendo a possibilidade de visitar a familia tão amada por ele.
Nada comentei com minha outra irmã pois seria uma grosseria reavivar uma chaga tão dificil de cicatrizar. Deixei quieto.
Ninguém que eu tenha conhecido nesta minha existência, ninguém mesmo, teve a vida tão voltada à familia como o Milton, meu cunhado, meu irmão, meu amigo sincero.
Nem mesmo Altivo Ferreira, que é uma das pessoas que mais admiro, por sua dignidade e firmeza de propósitos, teve uma vida tão voltada para servir seu semelhante como Milton Carlos Larocca, meu cunhado, para minha honra.
Fecho esta longa nota com uma frase que jamais hei de esquecer que dele ouvi:
 "A caridade, bem coordenada, começa dentro de casa."
                                                       Milton Carlos Larocca

Mas Milton rompeu as fronteiras da familia se fazendo um espirito sempre pronto a ajudar as pessoas, bastando para tanto saber da necessidade dessa pessoa. Imposto de Renda de ex-colegas da Petrobrás; uma solicitação de exame de sangue junto a uma médica conhecida para uma pessoa que não podia/queria ir ao médico; um ventilador que "eu vi, achei que estava barato e trouxe, pois a sua casa é muito quente". São exemplos de atitudes que eram tomadas sem arrogância, de modo a não ferir o beneficiado.
Nas leituras que tenho feito de "Seara dos Médiuns" pelo espirito de Emmanuel tenho tido oportunidade de identificar, nas advertências do amigo espiritual, as atitudes rotineiras da vida de meu cunhado.
Um Santista (Santos F. C.) acima de qualquer suspeita, pois afinal, depois de tanta seriedade, uma verdade mais leve sempre melhora a qualidade do texto.
 Paulo Cesar Fernandes
 07/07/2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Viver

Vivemos. Mal ou bem vivemos. Vamos tocando a vida de roldão. Qual automatos vamos "deixando a vida nos levar" como diz o poeta Zeca Pagodinho.


Não. Parar para pensar não faz parte de nosso dia a dia. É algo que as aflições do corre-corre não permitem.


Quem admira o fim de tarde, quando o sol se deixa cair por trás da cidade no belo fenomeno do anoitecer?


Quem se coloca na descida do Morro da Nova Cintra no anoitecer só para ver a cidade acender as luzes?


Quem caminha pela Avenida Ibirapuera e para no Largo de Moema, senta num banco vazio, só para ver o dia se transformar em noite? (Se a violência o permitir ainda)


Quem se banha ocupando-se de cada pedaço do corpo, esse instrumento de manifestação cuja perfeição deveria extasiar aos próprios médicos, poucos hoje, que o estudam com seriedade?


Um amigo, de nome Emmanuel ten um texto que trata do nosso corpo, eu não teria palavras melhores para nossos orgãos reverenciar. Vejamos o que ele diz:



Abençoa teu coração. É o pêndulo infatigável, marcando-te as dores e as alegrias.
Abençoa teu cérebro. É o gabinete sensível do pensamento.
Abençoa teus olhos. São companheiros devotados na execução dos compromissos que a existência te confiou.
Abençoa teus ouvidos. São guardas vigilantes que te enriquecem o entendimento.
Abençoa a tua língua. É o buril que te auxilia a plasmar toda frase edificante que te escapa da boca.
Abençoa teu estômago. É o servo que te alimenta.
Abençoa tuas mãos. São antenas no serviço que consegues re-alizar.
Abençoa teus pés. São apoios preciosos em que te sustentas.
Abençoa tuas faculdades genésicas. São forças da vida pelas quais recebeste no mundo o aconchego do lar e o carinho de mãe.




São palavras. Palavras de incentivo à vida. Mas uma vida valorizadora de nosso corpo em cada um de seus orgãos, em cada um de seus recantos. Tal qual devemos fazer a cada dia, seja na hora do banho; no momento de nossa caminhada; por vezes na própria condução, no retorno ao Lar; pois qualquer momento é  certo para agradecer à vida o quanto ela nos oferece de bom. Para não mais passar ao largo das benesses ao nosso redor.



Paulo Cesar Fernandes

05/07/2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pertencimento

Giorgio Gaber, meu amigo espiritual e companheiro ideológico tem umas duas obras em que abordam o "Pertencimento" e o "Não pertencimento" se referindo nestas ao pertencimento à sociedade mais ampla. Nosso pertencer social.


Neste momento eu evoco meu pertencimento a instituições, a saber:


1) Centro Espirita Allan Kardec (CEAK)


2) Partido dos Trabalhadores (PT).


Estão listados na ordem exata em que chegaram na minha vida. O CEAK aos meus 10 anos e o PT aos meus 30 anos. Ambas instituições deram uma contribuição significativa em minha formação.


O CEAK me reafirmando a certeza da imortalidade do espirito, certeza que carregarei existências adiante, por certo. E me trazendo momentos de felicidade que mais palavras eu tivesse, ainda assim seria incapaz de descrever tais momentos. Guardo esses momentos como algo de mais precioso que tive nesta minha passagem terrena.


Por sua vez o PT, através do Partido Revolucionário Comunista (PRC) me permitiu o contato com a população menos favorecida de minha cidade de Santos, e com essa população estabelecer laços que acabaram estrapolando os laços meramente politicos, para se transformar em convivência de amizade. Como tudo, no transcurso do tempo foi se esvaindo.


O PRC ainda me ajudou a ver a vida de forma mais solta no que diz respeito à sexualidade, me libertando do excesso duma educação rígida nessa área. Vi corpos mais soltos, e pouco a pouco fui soltando meu corpo, no meu prazer, e na busca do prazer da companheira. Uma preocupação sempre presente. Afinal relação a dois é para dois se sentirem bem.


Abro a intimidade com a tranquilidade de quem sabe que percorreu o melhor caminho, pois pautado no respeito ao semelhante, mas o faço com o único objetivo de dizer de minha gratidão a estas duas instituições.


Obrigado sim. Muito obrigado!


Pertencimento. Isso, pertencimento. Pertencer a uma instituição não é estar todos os dias nela, ocupando cargos e absorvendo sua atmosfera.


Pertencer a uma instituição é se alegrar por seu sucesso. Assim como nos alegramos com o sucesso de nossos familiares nas suas áreas de atuação, assim me alegro a cada vitória do CEAK e do PT.


Porisso ainda fico irado quando as instituições mudam de lado.


Compreendo que, assim como reordeno minha vida a cada novo trecho da jornada, as instituições tem o mesmo direito de assim o fazer. Compreendo isso perfeitamente.


Mas quando reordeno meu roteiro, o faço sempre respeitando principios aos quais chamo de originários, por terem nascido no seio de minha familia. Coisas como ética; sinceridade; busca do bem geral; "se for competir a um cargo, o faça partindo de principios que não nos envergonhe"; etc.


Não sei mais onde é a sede do PT em Santos. Nunca mais lá fui. Estou distante disto, mas me alegro a ver o relatório de Humberto Costa no caso Carlinhos Cachoeira, e o felicitei via Facebook. Foi um feliz acerto.


Se não apoiarmos as boas causas defendidas pelas instituições, elas seguirão se aferrando ao caminho da "porta larga, que sempre leva à perdição" nas palavras do professor.


Seguirei seguro na minha vida, aplaudindo os acertos e denunciando, sendo mordaz com os erros das instituições. Posso fazer isto com tranquilidade, pois não tenho rabo preso com ninguém.


Tenho sim uma gratidão imensa a estas instituições, e mais ainda a diversos espiritos, encarnados e desencarnados com os quais tive a felicidade de contracenar neste palco maravilhoso chamado vida.


Paulo Cesar Fernandes

04/07/2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

COMUNICAÇÕES COM O OUTRO MUNDO

Algumas obras são provas irrefutáveis da imortalidade.
A seguir temos um exemplo disso. Paulo Cesar Fernandes
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COMUNICAÇÕES COM O OUTRO MUNDO

OS MÉTODOS CERTOS E ERRADOS

Um livro de
WILLIAM T. STEAD
Psicografado por
MADAME HYVER
Editado por
ESTELLE W. STEAD
Traduzido por
Wellington Alves

RESUMO


William T. Stead, espiritista inglês convicto e atuante, veio a falecer no desastre do Titanic em 1912. Alguns anos depois, ele psicografou esta obra através da mediunidade de Madame Hyver, famosa médium francesa. Aqui ele envia mensagens a sua filha, Estelle, acerca das formas corretas e incorretas de se comunicar com o outro mundo, dando conselhos desde a formação dos grupos espíritas até a forma de agir moralmente, discorrendo sobre as categorias de médiuns e seus percalços. Várias passagens podem, hoje, parecer destoantes da Doutrina Espírita, tais como o seu parecer de que médiuns devam ser pagos, mas não tira o mérito essencial da obra.





Este livro contém uma série de mensagens dadas pelo meu pai, W. T. Stead, a partir de 1914, dois anos após sua morte no Titanic. Para muitos, isto pode parecer uma afirmação estonteante e uma que não possa ser aceita sem prova definitiva.

Pessoalmente, eu sinto e sei que estou em contanto com meu pai e que ele é o autor destas mensagens.
Nesta introdução, eu gostaria de dar ao leitor a prova que o deixará absolutamente sem dúvidas que a comunicação é possível e que meu pai foi capaz de dar tais mensagens através de Madame Hyver.

Evidências outras do que aquelas obtidas pela experiência pessoal são complicadas de se juntar e, por minha experiência pessoal, tenho apenas a minha palavra. Contudo, eu a dou conjuntamente com outra prova que fui capaz de coletar, e se não convencer o leitor, ficarei mais do que satisfeita se elas levarem-no ao caminho da investigação.

Quando eu estava na América em 1913, meu pai me disse em uma sessão que estava em contato com uma médium na França. De tempos em tempos, nos anos que se seguiram, ele me lembrou disso. Em 1918, ele disse-me seriamente em uma sessão pública no W. T. Stead Bureau, onde Mrs. Wricot era a médium, que ele queria me dar um livro. Quando eu questionei minha capacidade de achar tempo para escrever, ele afirmou que eu não precisaria me preocupar sobre isso, pois ele supriria o material. Ele apenas queria que eu estivesse pronta para fazer o que ele quisesse quando chegasse em minhas mãos.

Tomei nota disso, mas não ouvi mais nada até que eu fui perguntada em janeiro deste ano (1921), pelo Sr. Newall, do The Weekly Despatch, a olhar algumas mensagens que reportava ser de meu pai. Tais mensagens, ele disse, foram dadas através de uma médium francesa. O fato de pronto atiçou meus interesse e curiosidade naturais. Falei com meu pai em uma sessão (por Voz Direta) onde Sra. Osborne Leonard era a dirigente. Ele mencionou as mensagens e de novo lembrou-me que tinha me preparado para o que viria. No dia seguinte, M. Victor, a quem a mensagens foram enviadas da França, veio a mim e trouxe um manuscrito. Quando eu os li, tive pouca dúvida de que eram as mensagens que meu pai havia-me falado.

M. Victor, que não é um espiritista, embora desde que leu estas e outras mensagens seu interesse na questão foi grandemente estimulada, recebeu as mensagens por um parente a quem ele havia traduzido o livro de Magnussen, God's Smile, para o francês. Este parente, que conhecia Mme. Hyver, por reciprocidade enviou as mensagens ao M. Victor. Foi à época que os escritos de Vale Owen apareceram no The Weekly Despatch e ocorreu a M. Victor que ele poderia traduzir e publicar as mensagens que havia recebido de seu parente. De todo modo, ele nada fez até uma manhã de setembro último, quando afirma que acordou com uma incrível vontade de traduzir as mensagens que recebera. Não tinha noção de onde veio a vontade, mas estava tão impressionado que entrou em contato com Mme. Hyver e obteve a necessária permissão.

M. Victor não sentiu necessidade de dar publicidade às mensagens até ter obtido provas de que eram ao certo de meu pai. Ele estava prestes a escrever para Madame Hyver sobre o assunto quando recebeu uma comunicação dela afirmando que meu pai daria provas pessoais para ele da autenticidade se ele entrasse em contato com algum médium inglês. M. Victor fez sessões com Sr. Peters e Sr. Vango, mas não lhes disse nada sobre o objetivo da visita. Em ambas as sessões meu pai falou das mensagens e deu testes que o convenceram. Ele deu provas adicionais ao falar de matérias familiares e particularidades que só poderiam ser verificadas por mim.

Mme. Hyver é uma grande médium não-profissional que prestou serviços a muitos dos melhores investigadores em França. Ela se conscientizou de seu poder como médium escrevente em 1888 quando tinha dezenove anos. Sr. Leon Denis em Dans L'Invisible: Spiritisme et Mediumnite (*) escreveu em altos termos as comunicações dadas através da mediunidade de Mme. Hyver. "As mensagens que ela recebe", ele diz, "são sempre de um caráter muito elevado e lidam com questões de alta filosofia e moral."

Em 1892, Mme. Hyver entrou em contato com a Duquesa de Pomar e perfez sessões com ela regularmente todas as semanas até a duquesa morrer, há dois anos. Mme. Hyver diz que foi a duquesa quem, do outro lado, apresentou meu pai e o grupo de espíritos que trabalham com ele à pequena corrente que ela tinha com alguns amigos. Isso foi em 1913, bem à época na qual ele me disse que estava em contato com uma médium em França. As mensagens que ele deu então eram curtas e sem interesse e Mme. Hyver não as manteve. "Minha crença", ela diz em uma carta, "é que Stead estava apenas treinando naquele tempo." As mensagens dadas neste livro foram recebidas por ela em intervalos entre cinco de maio de 1914 e primeiro de fevereiro de 1915.

Em 1912, a seguinte mensagem foi recebida uma poucas semanas após sua passagem:

"Quando eu vejo por mim mesmo as dificuldades extraordinárias na obtenção de mensagens a partir deste lado, não me admiro que temos tão pouco, mas que temos tanto quanto fizemos em nossas pesquisas, quando eu estava contigo.

Pois é você e suas condições que fazem a barreira. Ideias preconcebidas, ferroando como agulhas em sua mente, preconceitos e superstições preconcebidos - tudo isso deve ser esmagado e jogado fora antes que os dois mundos possam perceber que são únicos e unos, e podem combinar-se para expressar aquilo que mais do que nunca eu descobri ser o supremo objetivo de toda existência - a realização da Divindade no Homem, pela União de todos aqueles que Amam no Serviço de todos aqueles que Sofrem.

Que isso seja nosso lema e, Deus nos ajudando, vamos conseguir coisas poderosas e provar tanto para a ciência laboriosa, que pergunta severamente em busca de conhecimento, e para a humanidade sofredora, que só pede por causa do AMOR, que não há Morte."

Com tais ideais perante ele, meu pai me disse que reuniu ao seu redor um grupo de espíritos que perceberam que a barreira entre os dois mundos não era intransponível, que poderia ser quebrada se pudessem ensinar os métodos certos de comunicação.

Seu próximo passo era escolher o médium pelo qual daria suas instruções. Ele escolheu uma francesa que sabia pouco sobre sua vida ou personalidade, porque ao escrever através daqueles que o conhecia, ou sabiam um tanto dele, havia o perigo de que as mensagens fossem "coloridas" por tais conhecimentos. Eu não sinto que ele tem sido capaz de obter o seu estilo em grande parte, mas toques aqui e ali e expressões de vez em quando tão típicos dele. Isso era devido ao fato de que, às vezes, ele estava mais perto do guia, em outras, um do grupo estava na retaguarda, e no último caso a mensagem era carregada pela linguagem e tingida com as idéias particulares do transmissor mais perto do guia.

Em alguns casos, ele disse, as mensagens eram inspiradas por ele pessoalmente, mas em geral o grupo todo concentrava seus pensamentos no espírito-guia do médium e através dele enviavam-nas. Sua assinatura era dada a todas as mensagens porque a sugestão em primeiro lugar veio dele e foi ele o responsável pela seleção do médium.

Eu concluo com esta mensagem, do meu pai, que sinto que possa ajudar o investigador:

"Prova de conquista nunca poderá vir a menos que a mente seja capturada de surpresa. Por quê? Porque o ser vivo no invisível deve piscar-se no ser que vive no visível. O que isso significa? Que a tela da mente consciente tem de ser nua de imagens, de modo que a mente ativa no invisível possa jogar suas imagens uma a uma na superfície clara, como em um espelho que reflete apenas os objetos que se deseja retratar. A mente consciente encarnada é ativa, ocupa-se imaginando o que deseja ou que outros podem desejar. A tela da mente está cheia destas imagens-pensamento e as imagens recebidas de nós são apagados e indistintas, confusas e esmaecidas. Nunca venha buscar conselhos ou ajuda ao longo de qualquer linha especial, fadada ao fracasso pelas razões apresentadas. Sabemos o que é necessário e sempre respondemos quando possível. Comungue conosco pelo amor de comunhão e todas as outras coisas que o amor pode ditar e as circunstâncias permitirão ser acrescentadas. - W. T. STEAD."


ESTELLE W. STEAD.
Julho, 1921.



sábado, 9 de junho de 2012

Valor ético-existencial

Espiritualidade elemento que nos afasta da materialidade obsessiva e nos dispoe em equilibrio com a matéria, dela tirando o que nos seja necessário ao espirito imortal.



Nada tem a ver com espiritismo ou qualquer forma de religiosidade.


É uma forma do homem, enquanto espirito encarnado, valorizar o que realmente deve ser valorizado, rompendo com as lutas pueris pelo poder, pelo destaque sem mérito, ou sem trabalho.


Espiritualidade é um valor ético-existencial capaz de levar o homem a uma paz e uma serenidade não frequentemente encontrada na sociedade de consumidores na qual vivemos.


Pautada na busca de valores imperecíveis, e na sinceridade de propósitos, a vida vai paulatinamente ganhando novos significados, dentre eles a simplicidade, tão cara a Francisco de Assis, o amigo maior dos animais e das plantas.


Pode não ser tudo, mas é um bom roteiro de jornada terrena. Bem que é!!!


Paulo Cesar Fernandes

09/06/2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Jorge Hessen

A PROPOSIÇÃO DA CIÊNCIA ESPÍRITA É DESCORTINAR A REALIDADE
DO ESPÍRITO IMORTAL

A Ciência, propriamente dita, é uma conquista recente; não ultrapassa a três séculos, embora seus primeiros ensaios tenham começado na Grécia dos áureos séculos VI, V, IV a.C. Temo-la representada por Arquimedes, em cujas pesquisas deram base para a mecânica, por Pitágoras de Samos, por Tales de Mileto, por Euclides de Alexandria, no desenvolvimento da matemática e da
estruturação numérica.


Um milênio após essas apoteóticas realizações gregas, ocorreu, na Europa, a desagregação do Império romano, no século V, e a liderança cristã surgiu como elo de agregação dos “bárbaros invasores” e se transformou em Igreja soberana absoluta dos destinos “espirituais” no Ocidente.


No século XIII, Tomás de Aquino se destacou, propondo a síntese do cristianismo vigente com a visão aristotélica do mundo. Em suas duas Summae, sistematizou o conhecimento teológico e filosófico de então. No século XIV, a Igreja romana, sob os guantes tomasistas, entronizou uma teologia (fundada na revelação) e uma filosofia (baseada no exercício da razão humana) que se fundiram numa síntese definitiva: fé e razão, unidas em sua orientação comum rumo ao Criador. A tese de Aquino afirmava que não podia
haver contradição entre fé e razão e estabeleceu o pensamento filosóficoteológico manifesto na truculenta filosofia do “Roma locuta causa finita”.


A partir dos séculos XV e XVI, o homem passa a ser o principal personagem (antropocentrismo). Os pensadores criticaram e questionaram a autoridade dessa autoritária Igreja romana. Nessa conjuntura a apropriação do conhecimento partia da realidade observada pela experimentação, pela constatação, e, por fim, pela teoria, decorrendo uma ligação entre ciência e técnica. No século XVII, a primeira grande teoria de que se tem notícia na moderna ciência versou sobre a gravitação universal elaborada por Newton,
desmembrada das leis dos movimentos planetários de Kepler e na Lei de Galileu sobre a queda dos corpos.


No século XIX Marx Plank propôs a teoria do Quantum. No século XX, Albert Einstein resignificou a teoria da relatividade e outros pressupostos das teses newtonianas sobre a gravitação universal, chegando a conclusões inusitadas na abordagem sobre as realidades do micro ou do macrocosmo, sobretudo no que reporta a tempo e espaço na dimensão material. Até então, a física tradicional era considerada a chave das respostas da vida no mundo palpável, estribada no determinismo mecanicista. Todavia, na década de 1920, as pesquisas de Brooglie, no universo da física quântica, redirecionaram o pensamento científico na formulação heisenberguiana do “princípio da indeterminação ou da incerteza” e com ele irrompeu-se um “irracionalismo” na ciência redimensionando a distância do homem das realidades naturais da
vida.


Em meio a essas trajetórias históricas, surge, no cenário terrestre, no século XIX, a personalidade luminosa de Allan Kardec, que, inspirado pelos Benfeitores do Além, sentenciou: Fé verdadeira é a que enfrenta frente a frente a razão em qualquer época da humanidade , esclarecendo os enigmas que desafiavam as inteligências daqueles mesmos que confiavam nos determinismos tecnicistas do nec plus ultra acadêmico.


A proposição da Ciência Espírita é descortinar a realidade do Espírito imortal, fundamentada em realces científicos acerca dos fenômenos mediúnicos coletados na metodologia doutrinária. A proficuidade desse saber está na razão direta do seu bom emprego por parte daqueles que dele tomam ciência.


Desse modo, é preciso que nos apropriemos de tal forma do saber contidos nas obras básicas da Doutrina dos Espíritos que, por via de consequência, nos façamos senhores de nós mesmos, ou seja, emancipados intelectualmente da cegueira espiritual do materialismo, tanto quanto das superstições.


O mestre de Lyon ainda afirmou em outras palavras que o Espiritismo independe de qualquer crença científica ou religiosa e não propõe que fora do Espiritismo não há salvação; tanto quanto não pretende explicar toda verdade, razão pela qual não propôs – “fora da verdade não há salvação”. Os preceitos kardecianos consubstanciam-se no manancial mais expressivo das verdades
eternas. A missão da Doutrina Espírita perpassa o processo de reerguimento do edifício desmoronado da crença cristã.

Jorge Hessen

Mestre Herculano fala sobre Jesus

A Desfiguração do Cristo


José Herculano Pires

O interesse em desfigurar o Cristo vem dos planos inferiores do mundo espiritual e se manifesta de várias formas: pelas comunicações mediúnicas inferiores, pelas intuições dadas a adeptos do Cristianismo e do Espiritismo para introduzirem teorias e práticas ridicularizantes no meio doutrinário, sempre atribuindo a Jesus posições, palavras e atitudes que o coloquem em situação crítica pelas pessoas de bom senso. Para isso, as entidades
mistificadoras se aproveitam da ignorância e da vaidade de criaturas autoritárias e arrogantes, que facilmente se deixam levar por elogios e posições lisonjeiras que podem exaltá-las na instituição a que pertencem.


A gigantesca luta empreendida pelo apóstolo Paulo, após a sua conversão, para preservar a pureza dos ensinos de Jesus e da sua excelsa figura, em meio aos próprios apóstolos do Mestre, revela de maneira eloqüente, a dificuldade dos homens para compreenderem a Verdade Cristã.


Os gnósticos-docetas do primeiro século sustentavam que Jesus não tinha realidade física, que o seu corpo era apenas aparente. Sua posição contrariava as teses da encarnação do Cristo, apresentando-o como uma espécie de Deus mitológico, sob a
influência das idéias helenísticas. O Docetismo exerceu grande influência em Alexandria, propagando-se a Éfeso, onde o apóstolo João instalara a sua Escola Cristã. João refutou a tese doceta como herética, pois além de não corresponder à realidade histórica,
transformava o Cristo num falsário.


A fábula dos docetas ( como o apóstolo Paulo a classificou) apresentava-se como uma das mais estranhas desfigurações do Cristo, fornecendo elementos ricos e valiosos aos mitólogos para negarem a existência real e histórica de Jesus de Nazaré.


Essa teoria absurda reapareceu na França, através de uma obra confusa e carregada de pesado misticismo ridicularizante. Um advogado de Bordeaux, Jean Baptiste Roustaing, elaborou essa obra através de comunicações mediúnicas atribuídas a Moisés, os
Apóstolos e os Evangelistas. Um grupo místico do Rio de janeiro adotou com entusiasmo essa obra, conseguindo apossar-se da Federação Espírita Brasileira, e até hoje a propaga e sustenta, contra a maioria das instituições espíritas do Brasil e do mundo. É inacreditável o fanatismo dos roustainguistas, o que se justifica pela sua mentalidade anti-racional, apegada aos resíduos do passado mágico e mitológico, portanto contrária à posição racional, apegada
aos resíduos do passado mágico e mitológico, portanto contrária à posição racional do Cristianismo e do Espiritismo. Esses defensores do absurdo chegam a citar a obra mistificadora Os quatro evangelhos, como uma das dez mais importantes da literatura
mundial, e Roustaing, como uma das maiores figuras da Humanidade. Kardec condenou essa obra, o que provocou um revide de Roustaing.


Hoje só existe um símbolo para o Cristo: o da Ressurreição. Provada cientificamente a existência do corpo espiritual, provada a continuidade da vida triunfante após a morte, provada a herança de Deus na imensidade do Cosmos povoado de mundos, provada a ineficácia das instituições religiosas e seus métodos para levar os homens a Deus, pois que a maioria se afastou de Deus e o considera como superstição estúpida, só a figura do Cristo Ressuscitado, triunfando sobre a veleidade do poderes terrenos e confirmando em si mesmo a verdade dos seus ensinos, poderá libertar as consciências do apego às coisas perecíveis, dando-lhes a confiança no poder superior do espírito. Se somos espíritos não
apenas um corpo material, e se temos a certeza de que o Cristo continua vivo e a nos inspirar em nossas lutas no caminho do bem, por que cultivamos a morte e até mesmo as imagens de um cadáver que não foi encontrado no túmulo?


A desfiguração do Cristo atingiu o máximo nessas imagens frias que dormem o ano inteiro nas criptas das Igrejas, à espera do seu enterro anual, com luto, choro e velas acesas. O sadismo humano se revela num automatismo consciencial que o perpetua nas gerações sucessivas. Chegou o momento de compreendermos que o Cristo está diante de nós, na plenitude de sua vida 
e seu poder, procurando despertar-nos do pesadelo da morte.

Harmonia - Revista Espírita nº 64 - Fevereiro/2000


• Livro: Revisão do Cristianismo – José Herculano Pires – Editora Paidéia.

sábado, 2 de junho de 2012

Intervenção

Ninguém ensina se não quiser repetir a lição mais de uma vez.

Assim, devemos ajudar a amigos que se odeiam incutinto neles a verdade com cuidado e amorosamente, lembrando sempre que para tal atividade devemos ter paciência, muita paciência. Se não for assim, tudo nos sairá ao revés.

««««««««««««««« Adaptação de texto de Emmanuel «««««««««««««««««««««


Muitas vezes sabemos de pessoas que estão se odiando por bobagens, bobagens mesmo. E temos medo ou vergonha de intervir na situação por timidez, por achar que "isso é coisa deles", por preguiça, ou por outra motivação qualquer que arrumamos só para não nos envolver.


Por vezes tais situações chegam a lastimáveis extremos.


Depois, não adianta chorar o leite derramado. Até porque, para viver é preciso coragem, atitude, ação. Se na evacuação de um prédio em chamas não houver um grito de comando, hão de morrer mais pisoteados que queimados.


Nas situações normais da vida assim é também.


Não podemos perder oportunidades de ser útil.


Apaziguar corações em desequilibrio é uma tarefa de amor, tão importante quanto sanar uma ferida física, ou ministrar um medicamento no momento correto. Salva vidas. E não é exagero meu. Pode dar novo rumo à existência daquelas pessoas, se elas forem capazes de avaliar seus atos.


Talvez nos pareca uma ação pequena, composta de algumas palavras apenas, mas seus resultados serão grandiosos, e tanto as pessoas envolvidas quanto a própria vida hão de agradecer nossa  intervenção.


O bem, pautado na sinceridade, é sempre bom, e sempre bemvindo em qualquer lugar. Reflitamos!






Paulo Cesar Fernandes


02/06/2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

EVOLUÇÃO

Quando quiseres verificar se teus amigos são bons e sábios, rememora o padrão de Jesus de Nazaré e perceberás que são realmente sábios e bons se te ajudam a realizar todo o bem com esquecimento de todo o mal, sem te afastarem da responsabilidade de escolheres o teu caminho e de seguires adiante com os próprios pés.



»»»»»» Adaptação pessoal de um trecho de uma mensagem de Emmanuel  ««««««««««««««««««


Mesmo quem é ateu pode se orientar por aquilo que o leve às melhores atitudes, e acima de tudo a tomar a vida sob sua responsabilidade, valendo-se de sua inteligência e de sua racionalidade para fazer sua caminhada a partir de parâmetros autonomamente definidos.


Ninguém me conduz, senão a minha Razão.


Embora a Escola de Frankfurt, e os autores da PósModernidade venham colocando sob suspeita o "Elogio da Razão" protagonizado por Descartes, Kant e Hegel, eu coloco sob suspeita exatamente esse grupo de pensadores que, talvez no afã de trazer ao mundo uma novidade crítica, tentam desconstruir um momento marcante para a História do Pensamento. Quando o homem tira o foco de Deus, fazendo-se deus ele mesmo, através de sua capacidade de evoluir na elaboração de seus pensamentos. Pensamento se contrapondo a pensamento dialéticamente como nos trouxe Hegel, sendo esse processo ininterrupto e infinito.


A isso podemos chamar com tranquilidade: EVOLUÇÃO.


Paulo Cesar Fernandes
01/06/2012

sábado, 26 de maio de 2012

Luc Ferry e nós

Algumas vezes, determinado assunto ou pessoa chega até nós por mera casualidade.


Este foi o caso de Luc Ferry. Nas minhas buscas por tópicos concernentes à PosModernidade, dentre tantos aspectos e nomes, tive a oportunidade de descobrir um: Luc Ferry.


Havia passado batido por ele. Numa sexta-feira entretanto, conversando com um companheiro do CEAK, me falava ele da obra desse filósofo. Dela destacando alguns aspectos.


Como já havia baixado a obra em questão nesse diálogo, fiquei tranquilo. Ao abri-la porém, no fim de semana, me dei conta que ali estava tão somente o capitulo inicial, faltando o resto da obra.


Tal qual o cão de Pavlov me pus a salivar. E buscá-la.


A Livraria de São Vicente, onde trabalho não conta com tal livro. Mas antes de chegar a ela quis buscar saber algo mais do autor. Pois bem, o Wikipedia é sempre interessante, lá fui eu: www.wikipedia.fr dar uma olhadela no que dizia sobre ele.


Constatei estar muito próximo de nosso modo de pensar. Vejamos:


Quanto à sociedade:


Segundo ele os valores morais se substituem mais e mais pela religião. O homem é cada vez mais guiado pela ética, partindo dos direitos do homem. Se distanciando das questões relativas à religião. Diz que o autoritarismo das religiões cede lugar a uma espiritualidade laica.


Quanto a outros assuntos:


Diz ser a filosofia uma “soteriologia”: uma doutrina de saúde, possuidora das respostas às questões existenciais, tal qual o sentido da vida, uma vez que somos mortais. Salvando sua pele, não quanto à morte pois ela é inevitável, mas vivendo o tempo que temos de maneira satisfatória.


Qual seria esta maneira satisfatória e como a conseguir? A filosofia seria, nesse aspecto, a grande concorrente das religiões, uma vez que ela nos convida a buscar por nós mesmos a resposta a esta questão existencial, em lugar de aceitar o ensinamento, as ordens, de qualquer autoridade.


Segundo ele, um filosofo, se torna pleno e inteiro à medida que se afasta de Deus, e quanto mais um filosofo é ateu, mais ele corresponde à definição da filosofia.


A filosofia não é somente uma reflexão critica, pois a ciência também o é; não é uma retórica sedutora, mas sim a busca da sabedoria.

Seguem suas obras, tal qual aparece no site:

1984 - 1985, Philosophie politique, en 3 volumes dont le troisième en collaboration avec Alain Renaut.
1985, La Pensée 68. Essai sur l'antihumanisme contemporain, en collaboration avec Alain Renaut.
1985, Système et critique, en collaboration.
1988, Heidegger et les modernes, en collaboration.
1990, Homo aestheticus. L'invention du goût à l'âge démocratique.
1991, Pourquoi nous ne sommes pas nietzschéens ?, en collaboration.
1992, Le Nouvel Ordre écologique, sous-titré « L'arbre, l'animal et l'homme », prix Médicis essai et prix Jean-Jacques-Rousseau.

1996, L'Homme-Dieu ou le sens de la vie4, Prix littéraire des Droits de l'homme.
1998, La Sagesse des modernes en collaboration avec André Comte-Sponville, prix Ernest-Thorel de l'Académie des sciences morales et politiques.


1998, Le Sens du beau.
1999, Philosopher à dix-huit ans, en collaboration.
2000, Qu'est-ce que l'homme ?, en collaboration avec Jean-Didier Vincent.
2002, Qu'est-ce qu'une vie réussie ?
2003, Lettres à tous ceux qui aiment l'école avec Xavier Darcos et Claudie Haigneré.
2004, Le Religieux après la religion, avec Marcel Gauchet.
2005, Comment peut-on être ministre ? Essai sur la gouvernabilité des démocraties.
2006, Apprendre à vivre : Traité de philosophie à l'usage des jeunes générations, prix Aujourd'hui.
2006, Vaincre les peurs. La philosophie comme amour de la sagesse, éditions Odile Jacob.
2006, Kant. Une lecture des trois Critiques, éditions Grasset.
2006, Apprendre à vivre. Cours en 4 CDs audio, éditions Frémeaux & Associés.
2007, Familles, je vous aime : Politique et vie privée à l'âge de la mondialisation, XO Editions.
2008, Kant. L'oeuvre philosophique expliquée. Un cours particulier en 4 CDs audio, éditions Frémeaux & Associés.


2008, Nietzsche. L'oeuvre philosophique expliquée. Un cours particulier en 4 CDs audio, éditions Frémeaux & Associés.


2009, La tentation du christianisme avec Lucien Jerphagnon, Éditions Grasset
2009, Quel devenir pour le christianisme avec Philippe Barbarin, Éditions Salvator
2009, Face à la crise. Matériaux pour une politique de civilisation, Éditions Odile Jacobs
2009, Le Christianisme. Un cours particulier de Luc Ferry, éditions Frémeaux & Associés.
2009, Philosophie du temps présent. La pensée du philosophe en 3 CDs audio, éditions Frémeaux & Associés.


2009, Heidegger. L'oeuvre philosophique expliquée. Un cours particulier en 4 CDs audio, éditions Frémeaux & Associés (à paraître).


2009, Combattre l’illettrisme, éditions Odile Jacob
2008, Apprendre à vivre: Tome 2. La sagesse des mythes, éditions Plon

Finalizando.


Ferry é pouco conhecido no Brasil, pois o Brasil é culturalmente débil.


Mais que livres pensadores, devemos ser livres em todos os aspectos, capazes de encarar todas as formas culturais com grandeza de pensamento e com espirito desarmado. Esta é a concepção que deve nortear aqueles que nos últimos 20 anos vem buscando uma nova vertente de pensamento. Condizente com nosso tempo e com nossa hora: a hora da PosModernidade.

Paulo Cesar Fernandes

26/05/2012

Fichamento - Imbassahy - Freud e as manifestações da alma

Freud e as manifestações da alma

Carlos Imbassahy

Editora Eco - Rio de Janeiro - 1976
Edição original - 1969


Pág. 37

O Inconsciente

O Inconsciente tornou-se, no laboratório de psicanalistas, psicólogos e até parapsicólogos, um recipiente má-gico. Dali saem prodígios, ali se resolvem mistérios, ali se processam as maiores complicações, solucionam-se questões intrincadas, matam-se charadas psíquicas.
O Inconsciente produz, arquiteta, elabora, inventa, prevê, descobre,, resolve, adivinha. É um propulsor incansável; não ha para ele dificuldades, empecilhos, barreiras, desconhecimentos. É onimodo, é onisciente, é onipotente. Dali sai o que nunca entrou. Ele tira do nada.
Nas mãos de doutos e indoutos é um Deus ex-machina. Basta que se aperte um botão, ou mesmo que não se aperte nenhum, e toca a sair de lá o que há de mais fantástico: é o chapéu do Frégoli.
E o interessante é que esse Inconsciente não passa de uma abstração. Não há de sua existência nenhum indício, tópico ou qualquer característica típica; dir-se-ia tudo utópico. Nada se sabe a seu respeito, senão por seus misteriosos predicados.
Formou-se não se sabe como, não tem localização definida, não é passível de exame, nem de verificação de qualquer espécie. Não se lhe podem aplicar sondagens com as sondas que conhecemos; não se conhecem as investigações científicas, as observações microscópicas; é tão imaginoso como o eixo da Terra. E é esse órgão, anatomicamente inverificável, fisiológicamente imprescrutável, que se tornou responsável por todas as incógnitas psíquicas.

Pág. 39

A Psicanálise não conhecendo as vidas pregressas, não passou da fase que começa no ventre materno; daí as suas proposições inverificáveis, comumente absurdas, e somente aceitáveis, dada a sugestibilidade dos nossos psicólogos, prontos a aceitarem qualquer fantasmagoria desde que tome um aspecto complicado, tenha um fundo nebuloso, seja insusceptível de demonstração e se torne incompreensível ao vulgo, o que lhes dá a eles, psicólogos, grande superioridade, visto irem onde nin¬guém vai, alcançarem o que ninguém alcança, perceberem o que ninguém percebe, fora os seus pares, aliás nem sempre de acordo.
Mas esses atributos são do Espírito. Quando mui¬to, ele vai buscar á bagagem que traz consigo, guardada nos escaninhos do ser, e com seu auxílio produz aquilo que nos admira e que não sabemos onde foi buscar. Toda a energia, porém, é do Espírito, porque nele e com ele é que está a vida, e com ela o ser intelectual, emotivo, volitivo; o ser imperecível, posto no Mundo para os efeitos de sua evolução, no atrito da Natureza e no convívio com seus semelhantes.

Pág. 41

O papel do Inconscìente consiste, pois, em fornecer ao Espírito os elementos de que ele necessita e que ficaram lá depositados. É o Espírito que, no sono, na meditação, no transe, na sugestão, vai buscar esses elementos armazenados, o material acumulado na sua viagem através dos séculos e através dos Mundos, para apresentar os fenômenos que muitos supõem produzidos pelo Inconsciente, embora não houvesse ainda quem se dispusesse a lançar um olhar nas suas fornalhas, a ver como ali se forjam as espetaculares manifestações.
Nesse engano de nos apresentarem o Inconsciente como o produtor de fenômenos para os quais falecem os dados conhecidos, caem até os grandes cultores do Psi¬quismo, enviscados pelas lantejoulas da Ciência.

Pág. 48

O arquétipo inconsciente não é mais do que as im¬pressões que foram ficando gravadas no Espírito através de suas jornadas. Compreende-se que essas impressões se tornem indeléveis num Espírito, no indivíduo que evolve, por em nada perde de suas aquisições espirituais. Não se percebe, porém, como se perpetuariam elas na matéria e matéria que se renova constantemente. E não se imaginaria ainda essa persistência em inúmeras gerações, com todos os percalços da transmissão hereditária.

Pág. 51

Darem ao Inconsciente papel ou função primordial nos mistérios da vida psíquica é desconhecer por com-pleto o Espírito, os seus atributos, a sua dinâmica., o que ele representa no organismo, que superintende, dirige e impulsiona. O papel dinâmico do Inconsciente seria defensável num materialista, mas incompreensível num espiritualista.

Pág. 52

Citando José Alves Garcia :

a) NOS SONHOS -"No sonho o indivíduo faz uma série de coisas que repele: furtos, as-sassínios: É a manifestação do outro Eu. Não há lógica, mas confusão de pessoas, cidades, situações, tudo na mais completa falta de lógica."

Pág. 53

Existe, de fato, na memória recôndita todo um imenso passado, referto dos mais variados episódios. É de crer que, no sono, fossem exumados tais episódios, e daí os assassínios, os furtos e outras ações pecaminosas; é de crer que o Espírito andasse por muitos lugares e daí a mistura de , cidades e situações, vindas pêle-mêle à mente; é de crer que as recordações surgissem em retalhos e de mistura, e daí a falta de lógica. Não há porém outro Eu, é o mesmo Eu, apresentando um amálgama, onde passado, presente e futuro se fundem, onde o passado surge sem a ordem que o tempo e o espaço estabelecem. São recortes de cenas, de incidentes, de situações que a memória reteve, e que no sonho aparecem de mistura, ou a mistura se dá ao acordar.
Há ainda as viagens do Espírito, e o sonho é o que ele presencia; há a reunião com outros Espíritos, as comunicações, os avisos, os sonhos premonitórios. Em todo esse panorama o agente é único, o agen¬te é o mesmo, o sonhador, que se desprendeu da cama e do corpo, que relembra o presente, sonda o passado, pressente o futuro, e de tudo tem, por vezes, uma recordação nebulosa, onde as coisas absurdas, a falta de lógica, a miscelânea de tempo, espaço, pessoas, cidades situações, são para muitos indecifrável mistério: outras vão buscar a solução no Inconsciente, como se esse Incons¬ciente fosse um infalível decifrador de charadas.

Pág. 73

EXPLICAR O CASO BREUER - Caso de Ana

O que pensa Imbassahy :

Há que observar ainda o seguinte: Davam-se os tiques quando a senhora sofria algum abalo nervoso. É de crer que não existindo o abalo não houvesse os tiques, e porque não os havia, Freud acreditou na sua ação terapêutica.

O caso dos agrupamentos mentais, independentes entre si, essa "dupla consciência", é o fenômeno da dupla personalidade, que também se manifesta na doente de Breuer, o que faz acreditar fosse ela sensitiva ou médium.
O estado mental consciente era o da sensitiva em seu estado normal; o inconsciente - que Freud chamava o estado separado - seria á personalidade segunda, isto é, a revivescência de uma personalidade anterior, conforme as experiências de De Rochas e tantos outros que lhe seguiram na esteira.
Há ainda um fenômeno com a sensitiva semelhante ao da regressão da memória: na emersão das idéias a cadeia de recordações se fazia em ordem cronológica. Mas que é que Breuer e Freud poderiam conhecer nesse terreno? . . .

Pág. 77

Em certa mocinha que perdera o pai, nascera particular simpatia pelo cunhado, o que poderia passar por simples ternura familiar. Quando a irmã faleceu correu-lhe na mente, em rápido instante, uma idéia mais ou menos assim: - Ele agora está livre. pode desposar-me. E Freud conclui :

"É-nos lícito admitir, como certo, que essa idéia, denunciando-lhe à consciência o intenso amor, que sem o saber tinha ao cunhado, foi logo entregue ao recalcamento pelos próprios sentimentos revoltados. A jovem adoeceu com graves sintomas histéricos e quando comecei a tratá-la, tinha esquecido não só a cena junto ao leito da irmã, como seu sentimento indigno e egoísta. Mas recordou-se de tudo durante o tratamento, reproduziu o incidente patogênico com sinais de intensa emoção e curou-se."

Dá-nos o mestre vienense mais um exemplo por onde se pode compreender o que se passa nesse terreno:

Um sujeito porta-se inconvenientemente num salão de conferência; põem-no fora. Ele fica "recalcado". Para que não volte, indivíduos ficam postados como "resistências". Transporte-se a sala para a psique como, "consciente" e a porta como "inconsciente , e ai tem a imagem do recalque.

Pág. 78 E 79

VERIFICAR EM PETER GAY SE ELA NÃO TINHA IDO MORAR NA INGLATERRA

Analisemo-la.

Lembra ele que a doente de Breuer, esquecendo 0 seu idioma e outros que conhecia, teve como compensação o inglês. Tratava-se de uma compensadora barganha psíquica. E isto vai servir de apoio a justificar, daí por diante, o injustificável. Coisas do inconsciente, que opera prodígios sem que se saiba como se dá o milagre. Ora, vejam a simplicidade: o indivíduo esquece um idioma, e parte dos subterrâneos do Eu, como ficha de consolação, outro idioma de que ele não sabia nada. De onde lhe veio esse conhecimento reparador, a título de indenização, é coisa sem importância, desde que se confira ao inconsciente poderes discricionários. E já estamos vendo onde se foram abeberar certos parapsicólogos.
O que não viria à mente de um psicanalista é que se tratasse de um fenômeno psíquico, onde entram lem-branças de um passado remoto. Nem poderia supor que a personalidade pregressa se tivesse sobreposto à atual e daí a substituição de uma linguagem por outra. Se a antiga individualidade emerge da profundidade do ser é natural que obscureça o presente para dar relevo ao passado. Reminiscências de outra existência, como nos casos da dupla personalidade. É o que teria acontecido com a paciente de Breuer.
O Mestre abandonou o hipnotismo, quando o hipnotismo é que traz a chave de muitas experiências e principalmente a razão das curas atribuídas aos desrecalques.

Pág. 81

NOTA DO PC : Imbassahy estabelece juízo de valor o que me parece incorreto. Julga Freud de certa forma imputando-lhe desonestidade.

Freud dá-nos um caso isolado, embora nos diga que o colheu entre muitos. Aquele, provavelmente, deveria ser o melhor, se houve, mesmo, os outros. Mas esse, dado como exemplo, é psicologicamente falho, sem garantia de autenticidade, absurdo na sua exposição, inverificável na prática, incompreensível no mecanismo. E o fato mais curioso e mais relevante é apresentado em duas linhas, sem maiores explicações: sacou-se o segredo, que saiu do interior com o único testemunho do mestre, e a cura foi instantânea como se houvera a aplicação de um anes¬tésico.
Ninguém indaga até onde vai o poder de imaginação de um homem culto mas obsidiado por uma idéia fixa, nem onde iria o poder sugestivo sobre a doente, nem quais os casos que poderiam sustentar e corrobo¬rar o apresentado. Mas logo temos as bases de uma nova Ciência que o Mundo proclama como um dos maiores achados do século.


SONHOS

Pág. 88

É esta a fonte principal dos pensamentos ou sentimentos recalcados. É a pedra de toque, é a "estrada real para o conhecimento do inconsciente. a base mais segura da psicanálise".
O estudo do sonho é vasto na ciência psicanalítica e a exposição do mestre vienense faz-nos pensar num indivíduo a tatear num labirinto até encontrar uma saída qualquer.
As objeções que lhe opõem julga Freud superfïcia¬líssimas e afirma, com o mais invejável dos assombros
que "as soluções dos problemas da vida onírica já não apresentam dificuldade alguma".
Não cabendo nos limites deste capítulo um estudo completo desta parte, e não sendo possível, infelizmente, apresentar os exemplos que Freud nos mostra e por onde veríamos como são risíveis os seus esforços de in-terpretação, limitar-nos-emos ao resumo da terceira lição.
Principia confessando que não tem necessidade de hipóteses místicas e por isso nunca pôde descobrir nada que confirmasse a natureza profética dos sonhos.
Dois erros profundos numa pequena frase. O pri¬meiro é o do misticismo. Ora, não há misticismo ne¬nhum onde há realidade. Nunca se fez disso um mis¬tério, nem crença religiosa, nem se trata de devoção ou sobrenaturalidade. O sonho premonitório é um fato sob o domínio de um dos métodos científicos, o da ob-servação.
O segundo lapso, e esse pior ainda, é o inacreditável desconhecimento do mais conhecido, do mais relatado, do mais demonstrado fenômeno psíquico supranormal. Dele se ocupam grandes sábios do Velho e do Novo Mundo; sobre a previdência em sonho têm-se escrito muitas obras de extraordinário valor. Já delas fizemos uma resenha em outras obras. A documentação é pasmosa. Entretanto, o emérito fundador de uma escola psicológica, aquele que assentou os alicerces de uma doutrina revolucionária, ignora por completo, e o proclama, esse curioso fato anímico, que é o de vermos em sonho o que vai acontecer. Tal fato por si bastaria para duvidarmos das afirmativas de Freud no que concerne aos problemas da alma humana.

Pág. 98

COM RELAÇÃO AOS TRAUMAS DA INFÂNCIA

Acha que é na memória da mais remota infância que vamos encontrar os acontecimentos que determi-naram a moléstia do adulto; foram os desejos recalcados da meninice que deram força aos sintomas, e esses desejos infantis têm que ser reconhecidos como sexuais.
Não nos dá qualquer exemplo elucidativo e muito menos qualquer prova. Os enunciados transformam-se em axiomas. E quanto ao espanto que poderá produzir tal declaração, por não se descobrir sexualidade na infância, responde :

"Não. Não é verdade que o instinto sexual na puberdade entre no indivíduo como, segundo o Evangelho, os demônios entraram nos porcos.
A criança possui, desde o princípio, o instinto e a atividade sexuais. Ela os traz consigo para o mundo e deles provêm, através de uma evolução rica de etapas, a chamada sexualidade normal do adulto. Não são difíceis de observar as manifestações da atividade sexual infantil; ao contrário, para deixá-las passar despercebidas é que é preciso certa arte."

Pág. 102

Os doutíssimos investigadores da alma compreenderiam melhor os problemas da sexualidade infantil se soubessem - retiradas as vendas científicas - que há as existências anteriores do indivíduo; destas existência: trazem eles para a nova, se não se purificarem, os caracteres ainda inferiores do ser, os sintomas da animalidade primitiva. Há por isso crianças cujo passado foi um acervo de sentimentos e ações inferiores, ou de ações eróticas, e que voltam ainda intoxicadas, dominadas por pendores que ainda não se extinguiram. São estes que se manifestam, mesmo sem terem os infantes a correspondência física, não estando o corpo ainda preparado para ela.
Mas este fato não tem a generalidade que Freud lhe empresta, nem a significação que lhe dá. Muitos voltam já libertos das excitações excessivamente materiais, o que se traduz na inocência da criança e na sobriedade do adulto.
Isto seria tão fácil de entender !

Pág. 119/120

Há um capítulo do Psiquismo supranormal que daria a chave de muitos problemas com que lida a Psica-nálise. É o da obsessão. Iríamos divisar as neuroses como resultados de falhas e quedas num antigo passado, e em vez das fantasias, veríamos num fantasma a fonte dos males.
Não provêm os sintomas dos recalques da alma, porém de ódios recalcados. São antigas vítimas, sedentas de vingança, que vêm cobrar as dívidas irresgatadas.
A neurose será um sintoma, mas a gênese da doença está no pulso vingador. Pelo menos em muitos, em mui-tíssimos casos.
Mas daqui até lá, ou daqui até que se faça a verdadeira luz no entendimento dos profissionais da Neurologia ou da Psiquiatria, muita água há de passar por baixo da ponte. (22)

Pág. 137 a 140

O Sonho

É este um dos mais interessantes capítulos da concepção freudiana. E também um dos mais ilusórios le-gados à humanidade. Produto de uma fantasia quase mórbida, sem o menor supedâneo, temos, por essa es-cola, nossa convicção dependendo do arbítrio, de construções imaginárias, de hipóteses inverossímeis, apresentadas, entretanto, com o cunho de verdades irrefragáveis.
Além disso, Freud entrou em terreno que lhe era desconhecido, sem nenhuma idéia do que seja o espí¬rito e sua dependência temporária, tendo apenas a seu dispor um material de ficção.
Ignorando como toda a gente a causa e os elemento dos sonhos, o que no sonho se realiza, como pode produzir-se, sujeitou suas conclusões a idéias preconcebidas, a noções falsas, bordou-as como pôde, e apresentou à Ciência os maiores absurdos, arrastando após si uma vasta cauda de admiradores, discípulos, seguidores apaixonados, e muitos tão fanatizados como ele.
Vamos ver o que foi posto de lado.
O sonho tem diversas causas: É a memoração de fatos da véspera ou de fatos recentes, ou de fatos antigos, ou de fatos antiquíssimos. Os que tratam do assunto ficam apenas nos fatos recentes e foi o ponto único verdadeiro que Freud apresentou. Na realidade, não há só os fatos de ontem, nem apenas os dos próximos dias, nem só ainda os da vida presente, mas os de todas as existências do indivíduo, os da série da vida pregressa, desse imenso passado que não sabemos onde teria começado, mas que nos fornece um fabuloso repositório de lembranças.
É nesse repositório imensurável que o espírito vai buscar, muitas vezes, o que apresentou no sonho; em alguns, a recordação se apresenta clara, coesa, uniforme, compreensível, como porções do terreno profundo que se apanhassem com todo o cuidado por não se desfazerem; de outras feitas, os assuntos se confundem, se embaralham, corno se a pá do cavador lançasse ao solo, de mistura, materiais diversos, fragmentos, camadas heterogêneas da vasta sedimentação milenária. Daí os sonhos confusos, extravagantes, inextricáveis.
Freud abandonou tudo isto. Ou catalogou, sem com¬preender, e assim nos diz - "Há sonhos coerentes, de uma beleza fantástica, outros embrulhados, estúpidos, absurdos, extravagantes. Há sonhos tão nítidos como os acontecimentos da vida real, outros desesperadamente fracos, apagados, vaporosos. Num mesmo sonho encontramos partes nítidas e outras inapreciáveis, vagas."
Muito bem, enquanto apresentou o fato. Depois entrou a fabular.
Há os casos de exteriorização anímica, que são os do desprendimento do espírito; estes acontecem em vá-rios estados na vigília e principalmente no sono. O es¬pírito, um tanto liberto dos liames físicos, entra em outros planos a que Osty dava o nome de crípticos. São planos espirituais, mais ou menos elevados, onde o ser vai colher avisos, prenúncios, conhecimentos, idéias. Onde vê paisagens . . . Onde se encontra com outros Espíritos, encarnados ou desencarnados.
Há as chamadas viagens do Espírito, por efeito do sono hipnótico ou do sono comum. Ele dirige-se a lugares diversos, visita amigos, vê cidades, vilas, campos ,cenários variados. Tudo isto Freud desconhecia.
Há ainda as fantasias e lucubrações espirituais, es¬pécie de castelos que costumamos fazer quando acor-dados. Dormindo, o Espírito também pensa. É de crer que tenha idéias, formule planos, arquitete projetos, desenvolva as suas manifestações de arte, de literatura, esclareça-se em pontos científicos, tudo em melhores condições, visto que, com mais amplitude e mais liberdade, podendo ver, ouvir, sentir, meditar melhor do que sujeito às restrições somáticas. ,

E isto Freud não podia nem queria perceber. A Psicanálise ficou, em matéria de sonho, completamente afastada dessas noções já averiguadas devidamente. Diante disso, diante dessa imensa lacuna, que ~ confiança pode merecer o ensino que o Mestre transmitiu às gerações futuras? . . . Vejamos agora como ele explana a sua teoria:

- Os sonhos devem ter um sentido. São efeitos sempre de desejos, da satisfação de desejos. - E são esses desejos e sentidos que o psicanalista descobre, não por artes mágicas, mas por um talento especial de que vão dotados os psicanalistas. Continuemos apresentando a doutrina :
Grandes cousas se podem manifestar por pequenos sinais; conhecem-se casos que começam por um sonho e terminam em idéia fixa. Houve personagens históricos que, graças aos sonhos, puderam operar prodígios. Alexandre tinha intérpretes de sonhos em sua comitiva. A cidade de Tiro opusera-lhe uma tal resistência, que ele resolveu retirar-se. Mas em sonho apareceu-lhe um sátiro que dançava triunfalmente; mais que depressa foi ao adivinho e este lhe disse que o sonho lhe prenunciava a vitória. Eis que Alexandre ordena o assalto e Tiro foi tomada. Freud passou por aí sem perceber nada. A premonição lhe era desconhecida. Conclui que o sonho é uma reação a uma excitação perturbadora. As excitações experimentadas durante o sono aparecem no sonho. E até aqui ainda não sabemos do papel dos desejos. Provavelmente o desejo de tomar a cidade apareceu em sonho transformado num sátiro a dançar. Narra-nos alguns casos :
Maury fez verificações em si próprio. Mandou que lhe dessem a cheirar água de Colônia e sonhou que se achava no Cairo, na loja Farina. Beliscam-lhe a nuca e ele sonha com um emplastro médico que lhe haviam aplicado na infância. Ou enfim lhe verteram uma gota de água na fronte e ele sonhou achar-se na Itália, transpirando muito e bebendo vinho.
Não percebeu o analista que tais fatos não passavam da evocação de cenas passadas, provocadas pelos estímulos. Uma delas é patente, como a do emplastro aplicado na infância. Nada de misterioso, de desejado, de psicanalítico. A beliscadela no pescoço foi o sinal provocador. Nem desejo, nem satisfação de desejo.

REVER FREUD PARA ANALISAR ISTO


Pág. 148

"que o sonho deixa após si um pesar, uma tristeza, um desejo insatisfeito". Não vemos no sonho esta constante de pesares e tristezas.

TERIA FREUD DITO ISTO ? ONDE ???


Pág. 150 a 156

Mas é ainda Freud quem escreve :
"Aquele que tendo comido coisas picantes experimenta à noite uma sensação de sede, sonha facilmente que bebe. É naturalmente impossível suprimir, pelo sonho, uma sensação de fome ou sede mais ou menos intensas, a pessoa acorda desse sonho sedenta e é preciso beber água real."
Mas então como se dará a satisfação do desejo? . Como afirmar que há no sonho essa satisfação?
Tivemos um amigo que em sonho tinha urgentes necessidades fisiológicas. E sonhava que andava à procura do local apropriado. Encontrava-o, por vezes, mas um não tinha portas, outro estava ocupado, outro era devassado, outro tinha desaparecido. E ficava assim até que acordava. Onde o desejo satisfeito?
'E mais ainda: Há inúmeros sonhos, a maioria deles, a quase totalidade, onde não se manifesta desejo ne-nhum, onde não há o menor vislumbre de qualquer desejo. Isto se vê mesmo na avultada messe que Freud apresenta.
Veremos mais adiante,e como ele procura sair-se da rascada.

A censura no sonho

Freud insiste. O sonho é um meio de supressão de excitações que vêm perturbar o sono, e essa supressão se efetua com o auxílio da satisfação alucinatória. Quando o sonho é incompreensível é porque está deformado.
Se recusamos admitir a interpretação, estamos sob as mesmas razões de censura que deformam o sonho.
Como se vê, não há fugir. Agora acompanhemos literalmente as lições, e o leitor não sugestionado por elas veja se é possível encontrar em seus sonhos o que ele nos descreve :

"O eu, desembaraçado de todo o estorvo moral, cede a todas as exigências do instinto sexual, as que nossa educação estética há muito condenou, e as que estão em oposição a todas as regras de restrição moral. A procura do prazer, que chamamos libido, escolhe seus objetos sem encontrar qualquer resistência e de preferência os proibidos; procura não somente a mulher de outrem como também aquilo a que o acordo unânime da humanidade conferiu um caráter sagrado: o homem leva a sua escolha à mãe, à mulher, ao pai ou irmão; ambições que consideramos estranhas à natureza humana mostram-se suficientemente fortes para provocar sonhos. O ódio alcança livre curso. Os desejos de vingança, de morte em relação às pessoas que mais amamos na vida, pais, irmãos, irmãs, esposo, esposa, filhos, estão longe de ser manifestações excepcionais nos sonhos. Esses desejos censuráveis pare¬cem remontar de um verdadeiro inferno. A in-terpretação feita em vigília mostra que os indivíduos não se detém diante de qualquer censura para a repressão."

Freud, sem compreender que a gênese desses sonhos, aliás raríssimos, pode provir de uma fonte longínqua, continua explicando que eles preenchem uma função inofensiva, que consiste em defender o sono contra as causas de perturbação. Não atinge, entretanto, as tendências morais e estéticas do eu. Valha-nos isto. Resta compreender como tão nefandos atos oníricos poderão ser um amparo à perturbação.
A sugestão leva até os mais eruditos mestres a aceitarem incondicionalmente os postulados freudianos. Assim não será de admirar que se veja no sonho ,um .processo de evitar perturbações e para evitá-las entram a desenvolver-se as mais hediondas lucubrações, inteiramente ao arrepio do caráter do sonhador.
Os sonhadores repelem as sugestões analíticas e dizem a Freud: - Quer demonstrar-me, pelo meu sonho, que eu lamento as somas que expendi para dotar as irmãs e irmãos, quando trabalho para a família e não tenho outro interesse senão o cumprimento de deveres?
Diz outro: - Como V. pretende que eu deseje a morte de meu marido? Nós formamos um lar feliz. Sua morte me privaria de tudo que possuo no mundo. E outro ainda : - V. me atribui desejos sensuais para com minha irmã. Até nem nos damos, e há mais de um ano não trocamos palavra.
Freud porém não se desconserta e explica : Trata-se de coisas que eles ignoram. Tais argumentos não resistem à nessa crítica. Supondo que exis¬tem na vida psíquica tendências inconscientes, que prova se poderá tirar contra elas do ato da existência de tendências diametralmente opostas na vida consciente? . . . E por fim declara:
"Os resultados da interpretação aparecem desagradáveis, vergonhosos, repugnantes?
Não importa. Isto não impede que eles existam."

Por maneira que a mulher virtuosa ama o seu marido., Isto está no consciente. No inconsciente, porém, virtudes e paixões desaparecem; o que ela quer é o adultério. Irmão e irmã se estimam; isto é no consciente;
inconscientemente desejam o incesto. Veja-se o pai ou mãe, inconsoláveis, à beira do túmulo do filhinho. Pranteando conscientemente; no inconsciente desejavam aquela morte.
Inconcebível. Freud, porém, nos garante que nada impede que tais sentimentos existam. É o dogma, como se sabe; aceita-se, porém não se discute.
Freud faz ressaltar que os desejos perturbadores do sonho nos são desconhecidos e só a interpretação lhes dá a chave. Diz ele que o sonhador a nega, mesmo depois que a patenteiam, e cita o caso do lapso Aufstossen, em que o orador afirmava que jamais tiver a qualquer sentimento desrespeitoso para com o seu chefe.
Teria razão? Nenhuma - afirma Freud - que não havia no orador a consciência de semelhante sentimento. Como se vê, não é o próprio que sabe o que lhe vai no íntimo, é o analista que tudo conhece por processos pessoais. E quando o indivíduo supõe que está com o espírito limpo, aí está o dedo psicanalítico para mostrar-Ihe a sujeira interna. Aí está o exemplo do orador, descrito no capítulo anterior. Ele parecia e era o funcionário grato, respeitoso, amigo, e assim continuaria se a, sonda psicanalista não fosse surpreender-lhe a lama subterrânea.
Quem pode estar seguro de si? A análise é a mais perigosa e a mais fúnebre das cavadeiras.


O simbolismo no sonho

Já vimos - conforme o ensino - que a deformação que nos impede de compreender o sonho é efeita da censura, a qual exerce a sua atividade contra os desejos inconscientes inaceitáveis.
É esta uma descoberta feita por dedução e cálculos como a descoberta de Netuno. Diz-nos que a censura, entretanto, não é o único fator; há o simbolismo. Freud confessa que esse fenômeno não é ainda tão compreensível como desejariam. Mas traduziu alguns: Desliza alguém em sonhos ao longo das fachadas das casas, experimentando ora prazer, ora angústia; quando os muros são lisos, trata-se de homens, se apresentam saliências, trata-se de mulheres. E apresenta vários outros, que devem ser símbolos alemães, visto que os. não conhecemos por aqui. Além disso, os nossos símbolos são, em regra, individuais e premonitórios, o que F'reud desconhece.
Nós, por exemplo, sempre que sonhamos com uma viagem não terminada, ou em que acordamos antes do desembarque, é certo recebermos uma notícia má ou sermos vítima de maus acontecimentos. É um sonho pressagio.
O símbolo existe, mas Freud não o compreendeu; não há deformações, nem sentimentos a esconder; há coisas por acontecer. Diz-nos, entretanto : A morte iminente é substituída no sonho pela partida, por uma viagem estrada de ferro, por certos presságios sinistros. . .
Nem sempre a partida é em estrada de ferro; mas, como se vê, não há ali substituição, nem deformação, nem satisfação de prazer, há premonição.
Fala-nos em sonhos, como os do vôo, que devem ser interpretados à base de uma excitação sexual; é o fenômeno da ereção. Mas a mulher também voa em sonho. Freud nunca se atrapalha: neste caso ela quer ser homem.
Tanto quanto nos foi possível entrar nos segredos ou nas confidências das damas que conhecemos, não soubemos de nenhuma que desejasse possuir o sexo masculino.
O simbolismo para o Mestre vem de diversas fontes: contos, mitos, farsas, facécias, folclore, costumes, habitação, rosto inclinado para a água, procurando perceber criancinhas.
É de admirar a argúcia da pesquisa. No meio daquela confusa e variada miscelânea, vai-se buscar o símbolo e dizer-se precisamente o que ele significa. O da partida em estrada de ferro onde estaria classificado?

Entre várias explicações, onde predomina o lado genital. há esta:

"Diz-se no Novo Testamento que a mulher é um vaso fraco. Os livros sagrados judeus são cheios de expressões tomadas ao simbolismo , e que não têm sido compreendidas, mas cuja interpretação, como no Cântico dos Cânticos, deu lugar a mal-entendidos."

Ora, o vaso bíblico tanto pode ser homem como mulher. Há os vasos escolhidos, os vasos de , perdição. O vaso é, o objetivo, pessoa ou cousa: nenhum simbolismo sexual.

Elaboração do sonho

Expliquemos que para Freud existe o sonho manifesto e o latente; este é oculto, inacessível à mente. O trabalho que transforma o sonho latente no manifesto chama-se elaboração: quando se quer chegar do sonho manifesto ao latente, temos a interpretação.
Do capítulo extraímos apenas estas ligeiras definições para perfeita compreensão do estudo

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O desconhecimento da vida pregressa faz que se lance ao caráter atual toda a lia do passado que, muitas vezes, aflora no sonho, como a salsugem que as vagas atiram à, praia. E não podendo compreender ou jus-tificar o fenômeno, metem-nos ao rosto o inconsciente freudiano, cujos absurdos espantariam, se a nossa mente já não estivesse acomodada a toda a sorte de desconchavos.