A investigação
ontológica na parapsicologia
1) É Acessível o Ontológico ao
Parapsicológico?
Se a parapsicologia se nos apresenta como uma nova
problemática do Ser, não há dúvida de que sua missão científica, se assim
podemos dizer, se defrontará com zonas do conhecimento que se acham em plena
crise. A atualidade, propícia à investigação ontológica, oferece à
parapsicologia excelente ocasião para assinalar as formas reais do
conhecer, muitas das quais ainda não são percebidas pela sensibilidade normal
do indivíduo.
A simples possibilidade de um acesso ontológico à
parapsicologia implica a urgência de um quefazer filosófico apoiado numa
sensibilidade incomum. Se é possível um conhecer extrassensorial, mesmo no seu
aspecto mais limitado, o ontológico poderá ser alcançado (e essa é a nova
esperança) por vias de fato que eliminem todo obstáculo ao psicológico
inabitual.
A relação entre objeto e sujeito, parapsicologicamente
considerada, implica a possibilidade de uma criptestesia, que permitirá a
captação de valores gnosiológicos provenientes de zonas profundas do homem e do
Universo. Se pudéssemos penetrar ontologicamente as camadas do parapsicológico,
o ser humano, com pleno direito, poderia aspirar a um futuro que signifique o
de uma verdadeira realidade metafísica.
Os atos psíquicos e os momentos extrassensoriais da
parapsicologia são, por si mesmos, valores espirituais, nos quais se oculta a
face de um poderoso númeno [Númeno
é a essência do fenômeno, a coisa-em-si, enquanto o fenômeno é a manifestação
do númeno. (Nota de J.H. Pires)], capaz
de vencer a relatividade do mundo circundante, através de um novo Eu do indivíduo.
Como de outras vezes, o campo do saber está sendo solicitado a ampliar-se, mas,
desta vez, apoiado no númeno parapsicológico. É evidente que a busca
metapsíquica se aproxima, podemos dizer de um verdadeiro desejo de encontrar para
o indivíduo uma significação espiritual transcendente.
Desta vez, se o fator ontológico for secundado pelo fator parapsicológico,
o conhecimento estaria ante a possibilidade de beneficiar-se grandemente. Seria
deplorável se a parapsicologia
se desviasse de seu campo extrassensorial, por falta de
inquietude filosófica; mas a filosofia deverá amparar a parapsicologia, para
que seu real objetivo não se converta num intranscendente parapsicologismo.
[Nesse
aspecto da parapsicologia não transcendente, as experiências relatadas por
Joseph Banks Rhine em seu livro “Novas fronteiras da mente” admitem uma
percepção extrassensória; porém não vai além, como se poderia esperar, com a
afirmação do espírito, por exemplo.
Não.
Se atém inclusive ao método quantitativo por ele empregado dentro da
Universidade de Duke. Admite que outras instituições ao longo dos EEUU e do mundo
façam seus experimentos, colabora com esses grupos; mas, criteriosamente não
chancela outras experiências fora das formuladas por ele e seus colaboradores da
Duke University. Segundo apreendi de sua leitura, ele não admite nada
transcendente, sem que tenha se utilizado de métodos experimentais a seu juizo
válidos. (Nota PC)]
2) O Espiritual Como Objeto da
Parapsicologia
O parapsicológico experimental já percorreu uma trajetória suficiente
para advertir, à crítica filosófica, que o extrassensorial não é somente de
origem natural e fisiológica, ou ainda biológica, mas que nele se apresenta,
superando o fenômeno, um novo ser espiritual, a indicar-nos que o espírito, no
imanente como no transcendente, é o objeto obrigatório da parapsicologia.
Se um exagerado naturalismo absorvesse a sua essência
psíquica, o númeno parapsicológico ficaria postergado por muito tempo.
A excessiva naturalidade, que se pretende ver nos fatos psíquicos,
faz o filósofo vacilar em decidir-se a interpretá-los. Por isso já se disse, e
com razão, que a demasiada naturalidade de um ramo da ciência diminui suas
perspectivas metafísicas. Um naturalismo superlativo poderia desvirtuar essa intencionalidade
tão promissora, que se revela na parapsicologia. Se a técnica metapsíquica
mecanizar-se demasiado, teremos apenas uma máquina fenomênica. Entretanto, o
que agora se denomina crise do homem exige penetração da investigação
ontológica nas camadas inabituais da parapsicologia. A interpretação espiritual
dos seus fenômenos poderia significar uma nova colocação do sentido metafísico
do Ser, e ao mesmo tempo a fundamentação de um esquema religioso digno do grau
evolutivo atingido pela cultura dos tempos atuais.
[“A
religião — diz o professor J.B. Rhine — é, sem dúvida, a área de interesse mais
imediato para a parapsicologia. Definida como a investigação das funções
não-físicas da natureza e dos princípios que a governam, a parapsicologia teria
que reivindicar muitos dos problemas fundamentais da religião, assim como a
patologia está necessariamente interessada nos problemas da medicina.” Revista de
Parapsicologia, n° 2 - Buenos Aires, 1955]
Se é certo que a parapsicologia não poderá deter-se numa dada
interpretação do homem e da existência, isso não impede que a investigação
ontológica, baseada no realismo extrassensorial, a que Eugênio Osty chamou de conhecimento
supranormal, busque um tipo espiritual do Ser, baseando-se no númeno parapsicológico.
A antiga psicologia baseava-se num trabalho estéril,
acabando por se perder num campo de imaterialidade psicofísica irreal. Para
o psicólogo comum, toda a extrassensorialidade humana é uma ilusão. Continuando
apoiado nos obsoletos sistemas psicofisiológicos, apavora-se com a possibilidade
de um indivíduo metapsíquico. Daí o acesso do espiritual ao parapsicológico não
só representar um triunfo da nova psicologia, mas também um novo sentido para o
Ser, na futura investigação ontológica.
3) O Existencialismo Perante a
Parapsicologia
O existencialismo, ou filosofia da existência, encarna,
neste período da evolução, o estado espiritual cm que vive o homem, frente ao
seu próprio ser e existir. Para o existencialismo, o indivíduo existente só
representa um momento do Ser, cuja meta final é a morte e o nada eternos.
[O autor se
refere, como adiante se verá, ao existencialismo sartreano, dominante na
atualidade. (Nota de J.H. Pires) Mesmo porque em seu livro “O ser e a
serenidade” Herculano Pires estabelece clara distinção entre o existencialismo sartreano
e o existencialismo heideggeriano, este mais aberto à ontologia. (Nota PC)].
Este estado de consciência, com efeito, não poderá ser
refutado pelos antigos processos teológicos e metafísicos. Somente uma nova
realidade espiritual do Ser, originada de uma autêntica experiência
parapsicológica, poderá introduzir na filosofia existencial a ideia do
Espírito. Não devemos esquecer o que H. H. Price escreveu: “Devemos ter a
coragem de estabelecer novamente a questão da estrutura da personalidade humana
e das suas relações com o Universo, criando um novo quadro conceitual, que
possa ajustar-se aos fatos novos. Na minha opinião, compete aos filósofos
esta tarefa.” (Revista de Parapsicologia, n° 1 –
Buenos Aires, 1955).
Não nos esqueçamos de que o Espírito é ainda uma
irrealidade para as correntes mais avançadas do pensamento. Entre elas, como
sabemos, encontra-se o materialismo histórico e dialético, base ideológica da concepção
marxista da sociedade. Lembremo-nos de que o Espírito foi fator de
superstições e de promessas de além-túmulo, com as quais se justificaram cruéis
injustiças sociais. Além disso, sua concepção jamais correspondeu, na
formulação teológica, de forma satisfatória, à desnorteante angústia do homem.
Por sua vez, a filosofia referiu-se sempre ao Espírito, mas
sem dar provas de sua realidade objetiva. Obrigou-se a aceitá-lo dogmaticamente,
por imposição de mentores religiosos, que
nunca levaram em conta o sentir coletivo do mundo, base
fundamental da civilização e de todo o progresso social. Esta concepção do
Espírito foi a razão ideológica do existencialismo, cuja pujança filosófica
nenhuma filosofia e nenhuma teologia conseguirão deter, enquanto não se
demonstrar a existência real do Ser espiritual. Acreditamos que o
existencialismo só deixará sua posição niilista quando se provar que a mente
sobrepuja as circunvoluções cerebrais, e quando essa mente se mostrar como uma
consequência da real existência do Espírito, cuja objetivação só poderá
obter-se pela investigação fenomênica da parapsicologia.
[Aqui vale lembrar apenas que Hegel, em seus livros “A
Razão na História” e “Fenomenologia do Espírito” ao tratar do espírito se vale
de mais de uma significação, dentre elas se destaca uma de igual significação ao
pensamento espírita kardecista. (Nota do
PC)]
Seria faltar à verdade deixarmos de reconhecer que devemos o
advento da investigação psíquica, da metapsíquica e da parapsicologia ao
resultado dos esforços realizados pela escola espírita no campo experimental,
quando ela, sozinha, enfrentava as insustentáveis hipóteses sobre demônios,
larvas, cascões astrais e fraudes. Daí apresentar-se a filosofia espírita, com
sobejas razões, perante a exaurida humanidade, como campeã da vida e do
Espírito.
Ela fará o homem sentir a realidade do seu Ser espiritual,
por meio da ciência e da religião. Ela descerrará os véus do além e iluminará
com seus fachos a marcha solene da história. Com seu gênio mediúnico, a
filosofia espírita fez realidade e presença no que todas as religiões têm
intuído subjetivamente: a alma imortal. Conseguiu estabelecer um dramático
diálogo entre o mundo visível e o invisível, que os teólogos consideram sempre
como irrealizável. O método científico, aplicado à pesquisa espiritual, vai
dando à filosofia espírita a razão que lhe pertence.
Daí que a parapsicologia, ao demonstrar a realidade psíquica
do homem, não poderá desfazer a concepção espírita do Ser, se é que realmente
quer refrear o existencialismo ateu e o conceito materialista da vida.
O existencialismo não poderá ser ultrapassado só por meio de
fatos, mas também mediante sólidas reflexões ontológicas acerca do homem. Não
nos esqueçamos de que Jean-Paul Sartre disse: “As situações históricas variam: o homem pode
nascer escravo numa sociedade vaga, ou senhor feudal, ou proletário. O que
não varia é a necessidade, para ele, de estar ali, no meio dos outros, e de
ali, como eles, ser mortal.” Cabe à parapsicologia ensaiar, mediante seu
rico fenomenismo extrassensorial, um Humanismo do Espírito, com o fim de
indicar ao Ser de onde provém, o que faz no mundo e para onde se dirige.
Segundo a filosofia existencialista, a razão metafísica não
é suficiente para negar o sentido niilista do homem e do mundo. O ser humano,
não obstante a exigência teológica, destina-se à
morte eterna. Demonstrar o contrário seria negar a primazia
que o existencialismo confere à existência sobre a essência. Como, porém,
poderia realizar-se isto? Só mediante uma materialização da essência, que se
poderá obter pela objetivação do Ser espiritual do indivíduo. E esta
materialização da essência é tarefa da parapsicologia, que, uma vez cumprida,
demonstrará cabalmente que o Espírito é uma realidade e pode objetivar-se.
Será realmente assombroso constatar os efeitos espirituais que
a parapsicologia produzirá no existencialismo. A existência material será
superada pela espiritualidade da essência; ela transformará sua imagem finita,
para mostrar-se resultante do Ser infinito. Porque, como o reconhecerá a
filosofia do futuro, só o método parapsicológico poderá conceder à metafísica
os reais elementos com que construir uma verdadeira teoria do homem.
Estas reflexões nos levam a pensar que devemos juntar à Fenomenologia
de Husserl uma “segunda fenomenologia”, já que ela abrange somente uma face do
ser fenomenológico, o qual necessita de transcender para um existir
extratemporal.
Ao contrário, uma fenomenologia parapsicológica do Ser não se
limita às estruturas físicas, mas as supera, por meio de um ser intencional.
A fenomenologia existencial detém-se na parte morta do Ser. Não
obstante a intuição essencial que experimenta, não consegue perceber a
realidade do fenômeno, para dele se libertar. Daí se conclui que a
parapsicologia, à luz da filosofia espírita, é uma espécie de maiêutica
socrática, que dá origem a uma nova realidade psicológica.
A objetividade de um verdadeiro fato parapsicológico terá a
propriedade de convencer a matemáticos, cientistas, artistas, filósofos e
religiosos. Consequentemente a parapsicologia será
a objetivação daquilo que se julgava morto para sempre: o
ideal e o espírito, os quais ressurgem graças à influência que os fenômenos
psíquicos e metapsíquicos exercem sobre o pensamento humano e a marcha do
conhecimento. Ela é capaz de produzir fatos que podem interessar a toda a
humanidade, já que esses fatos representam uma superação geral do conhecimento e
do habitual. Além disso, ela está organizando métodos novos, para a investigação
daquilo que sempre foi considerado como não experimental: a busca do Espírito.
Miguel de Unamuno não via, no fenômeno metapsíquico, nenhuma
prova a favor da imortalidade. Não obstante, ao referir-se à realidade da vida
de além-túmulo, chegou a escrever:
“E a esta mesma necessidade, verdadeira necessidade de
formarmos uma ideia concreta do que pode ser essa outra vida, responde em grande
parte a indestrutível vitalidade de doutrinas como as do espiritismo, da
metempsicose, da transmigração das almas através dos astros, e outras análogas,
doutrinas que, quantas vezes declaradas vencidas e mortas, renascem em outras
formas mais ou menos novas. É grande loucura querer eliminá-las, em vez de
buscar-lhes a substância permanente.” [Unamuno, Do Sentimento Trágico da
Vida.]
Se a ciência psicológica está se beneficiando com as contribuições
da investigação psíquica, da metapsíquica e da parapsicologia, isto se deve ao
persistente trabalho do espiritismo científico, que, desde os seus primórdios,
conseguiu atrair a atenção dos homens de ciência, interessando por sua vez a
filosofia e a religião.
O conhecimento psicológico do homem encontra-se numa fase a
que poderíamos chamar de revolucionária. As teorias do paralelismo
psicofisiológico vão sendo abandonadas, ao considerar-se o Ser como um Eu ou
uma Mente, conceito este negado pelo materialismo e pelo existencialismo ateu. A
escola espírita, no campo do conhecimento, está preparando um novo sentido
espiritual, mas agora apoiado num neorrealismo decorrente da demonstração
positiva da existência da alma. Assim, o próprio cristianismo, menosprezado
pelos niilistas e por certos espiritualistas orientais, se reafirmará sobre
bases verdadeiramente espirituais. A filosofia espírita promoveu uma nova
interpretação da antropologia, que permitirá à própria teosofia apresentar-se
ante o espírito dos tempos atuais com suas grandes intuições místicas e
cósmicas.
O caráter positivo da ciência mediúnica e metapsíquica confirmarão
finalmente as hipóteses de muitas correntes idealistas.
[Muito provavelmente se referindo às correntes
idealistas tenha em mente o Idealismo
Alemão: Kant, Hegel e Heidegger são seus mais eminentes nomes.]
A intuição palingenésica da teosofia, por exemplo,
encontrará no realismo do fenômeno parapsicológico e metapsíquico a mais
completa confirmação, ao lado de muitas teorias da metafísica oriental e
ocidental.
Unamuno considerava as manifestações místicas e vivenciais da
agonia terrena, antes de mais nada, como uma consequência da angústia
religiosa. Era ele um tipo de existencialista cristão, semelhante a Sören
Kierkegaard. Este achava que toda a sabedoria espiritual provinha da própria
angústia do Ser.
Não obstante, a metapsíquica objetiva é a única força
positiva que poderá contraditar e paralisar os planos filosóficos do
existencialismo. Estejamos certos de que só um fenômeno objetivo, como o
ectoplásmico, se fosse tomado na devida conta, poderia mudar a mentalidade dos
tempos modernos e de todas as épocas. Porque, se a objetividade do fato
metafísico chegasse a comover a inteligência contemporânea, o existencialismo
perderia todo o seu valor, do ponto de vista lógico e filosófico.
Para o pensamento materialista, a filosofia idealista nada
representa no mundo do conhecimento. Ela está incluída entre os sistemas que
serviram de base aos dogmas, mediante os quais foi possível submeter os povos
econômica e socialmente. Entretanto, para a filosofia espírita, o idealismo é
uma realidade inegável, dependente do mundo espiritual. Pelo processo chamado ESP
(extra sensory perception), isto é, pela percepção extrassensorial,
poderíamos captar essa realidade, através do inconsciente. Esse processo
chamado ESP (extra sensory perception) nos permitiria apreender
outro plano do Espírito, ainda distante, no qual o homem não penetrou, mas que
ele pressente, parapsicologicamente, como uma realidade.
Fonte:
Humberto Mariotti “O Homem e a Sociedade numa Nova
Civilização”
PENSE - Pensamento Social Espírita
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O valor do
texto é inegável. Embora, a meu ver, deposite uma fé muito forte na
Parapsicologia como ciência, ciência esta capaz de provar os fatos espíritas. O
que não ocorreu e nem deverá ocorrer.
Da minha
leitura de Rhine não percebi de sua parte o menor interesse em entrar nos
aspectos metafísicos aos quais suas experiências poderiam remeter.
No que está
certo. Seu projeto não visava mais que a afirmação da percepção extrassensória.
E dentro disso a distinção entre ESP e telepatia. E ponto final.
O
espiritismo se firmará pela via filosófica. O vazio vivencial da “Era do
Indivíduo” tratá ao espiritismo pessoas mais sensatas e capazes de perquirições
mais profundas. No geral a humanidade seguirá tal qual está. E não cabe aos
espíritas a busca de adeptos.
Proselitismo
é um erro em todas as áreas.
Como diz
Kardec o espiritismo se imporá “pela ordem natural das coisas”.
Longe do
fatalismo tenho apenas uma visão segura do alcance dos conceitos,
principalmente para as camadas culturalmente mais desenvolvidas da sociedade.
Embora seja
útil a todos os segmentos sociais, é dentre as pessoas de maior cultura a maior
capacidade de penetração e apreensão do espiritismo.
Paulo Cesar
Fernandes
12 07
2014