sábado, 12 de julho de 2014

20140712 Mariotti Investigação ontológica


 
 



 

A investigação ontológica na parapsicologia

 

 

1) É Acessível o Ontológico ao Parapsicológico?

 

Se a parapsicologia se nos apresenta como uma nova problemática do Ser, não há dúvida de que sua missão científica, se assim podemos dizer, se defrontará com zonas do conhecimento que se acham em plena crise. A atualidade, propícia à investigação ontológica, oferece à parapsicologia excelente ocasião para assinalar as formas reais do conhecer, muitas das quais ainda não são percebidas pela sensibilidade normal do indivíduo.

 
A simples possibilidade de um acesso ontológico à parapsicologia implica a urgência de um quefazer filosófico apoiado numa sensibilidade incomum. Se é possível um conhecer extrassensorial, mesmo no seu aspecto mais limitado, o ontológico poderá ser alcançado (e essa é a nova esperança) por vias de fato que eliminem todo obstáculo ao psicológico inabitual.

 

A relação entre objeto e sujeito, parapsicologicamente considerada, implica a possibilidade de uma criptestesia, que permitirá a captação de valores gnosiológicos provenientes de zonas profundas do homem e do Universo. Se pudéssemos penetrar ontologicamente as camadas do parapsicológico, o ser humano, com pleno direito, poderia aspirar a um futuro que signifique o de uma verdadeira realidade metafísica.

 

Os atos psíquicos e os momentos extrassensoriais da parapsicologia são, por si mesmos, valores espirituais, nos quais se oculta a face de um poderoso númeno [Númeno é a essência do fenômeno, a coisa-em-si, enquanto o fenômeno é a manifestação do númeno. (Nota de J.H. Pires)], capaz de vencer a relatividade do mundo circundante, através de um novo Eu do indivíduo. Como de outras vezes, o campo do saber está sendo solicitado a ampliar-se, mas, desta vez, apoiado no númeno parapsicológico. É evidente que a busca metapsíquica se aproxima, podemos dizer de um verdadeiro desejo de encontrar para o indivíduo uma significação espiritual transcendente.

 

 

Desta vez, se o fator ontológico for secundado pelo fator parapsicológico, o conhecimento estaria ante a possibilidade de beneficiar-se grandemente. Seria deplorável se a parapsicologia
se desviasse de seu campo extrassensorial, por falta de inquietude filosófica; mas a filosofia deverá amparar a parapsicologia, para que seu real objetivo não se converta num  intranscendente parapsicologismo.

 

[Nesse aspecto da parapsicologia não transcendente, as experiências relatadas por Joseph Banks Rhine em seu livro “Novas fronteiras da mente” admitem uma percepção extrassensória; porém não vai além, como se poderia esperar, com a afirmação do espírito, por exemplo.

Não. Se atém inclusive ao método quantitativo por ele empregado dentro da Universidade de Duke. Admite que outras instituições ao longo dos EEUU e do mundo façam seus experimentos, colabora com esses grupos; mas, criteriosamente não chancela outras experiências fora das formuladas por ele e seus colaboradores da Duke University. Segundo apreendi de sua leitura, ele não admite nada transcendente, sem que tenha se utilizado de métodos experimentais a seu juizo válidos. (Nota PC)]

 

 

2) O Espiritual Como Objeto da Parapsicologia

 
O parapsicológico experimental já percorreu uma trajetória suficiente para advertir, à crítica filosófica, que o extrassensorial não é somente de origem natural e fisiológica, ou ainda biológica, mas que nele se apresenta, superando o fenômeno, um novo ser espiritual, a indicar-nos que o espírito, no imanente como no transcendente, é o objeto obrigatório da parapsicologia.

 
Se um exagerado naturalismo absorvesse a sua essência psíquica, o númeno parapsicológico ficaria postergado por muito tempo.


A excessiva naturalidade, que se pretende ver nos fatos psíquicos, faz o filósofo vacilar em decidir-se a interpretá-los. Por isso já se disse, e com razão, que a demasiada naturalidade de um ramo da ciência diminui suas perspectivas metafísicas. Um naturalismo superlativo poderia desvirtuar essa intencionalidade tão promissora, que se revela na parapsicologia. Se a técnica metapsíquica mecanizar-se demasiado, teremos apenas uma máquina fenomênica. Entretanto, o que agora se denomina crise do homem exige penetração da investigação ontológica nas camadas inabituais da parapsicologia. A interpretação espiritual dos seus fenômenos poderia significar uma nova colocação do sentido metafísico do Ser, e ao mesmo tempo a fundamentação de um esquema religioso digno do grau evolutivo atingido pela cultura dos tempos atuais.

 

[“A religião — diz o professor J.B. Rhine — é, sem dúvida, a área de interesse mais imediato para a parapsicologia. Definida como a investigação das funções não-físicas da natureza e dos princípios que a governam, a parapsicologia teria que reivindicar muitos dos problemas fundamentais da religião, assim como a patologia está necessariamente interessada nos problemas da medicina.” Revista de Parapsicologia, n° 2 - Buenos Aires, 1955]

 

 

 

Se é certo que a parapsicologia não poderá deter-se numa dada interpretação do homem e da existência, isso não impede que a investigação ontológica, baseada no realismo extrassensorial, a que Eugênio Osty chamou de conhecimento supranormal, busque um tipo espiritual do Ser, baseando-se no númeno parapsicológico.

 

 

A antiga psicologia baseava-se num trabalho estéril, acabando por se perder num campo de imaterialidade psicofísica irreal. Para o psicólogo comum, toda a extrassensorialidade humana é uma ilusão. Continuando apoiado nos obsoletos sistemas psicofisiológicos, apavora-se com a possibilidade de um indivíduo metapsíquico. Daí o acesso do espiritual ao parapsicológico não só representar um triunfo da nova psicologia, mas também um novo sentido para o Ser, na futura investigação ontológica.

 

 

 

3) O Existencialismo Perante a Parapsicologia

 
O existencialismo, ou filosofia da existência, encarna, neste período da evolução, o estado espiritual cm que vive o homem, frente ao seu próprio ser e existir. Para o existencialismo, o indivíduo existente só representa um momento do Ser, cuja meta final é a morte e o nada eternos.

 

[O autor se refere, como adiante se verá, ao existencialismo sartreano, dominante na atualidade. (Nota de J.H. Pires) Mesmo porque em seu livro “O ser e a serenidade” Herculano Pires estabelece clara distinção entre o existencialismo sartreano e o existencialismo heideggeriano, este mais aberto à ontologia. (Nota PC)].

 

Este estado de consciência, com efeito, não poderá ser refutado pelos antigos processos teológicos e metafísicos. Somente uma nova realidade espiritual do Ser, originada de uma autêntica experiência parapsicológica, poderá introduzir na filosofia existencial a ideia do Espírito. Não devemos esquecer o que H. H. Price escreveu: “Devemos ter a coragem de estabelecer novamente a questão da estrutura da personalidade humana e das suas relações com o Universo, criando um novo quadro conceitual, que possa ajustar-se aos fatos novos. Na minha opinião, compete aos filósofos esta tarefa.” (Revista de Parapsicologia, n° 1 – Buenos Aires, 1955).

 

 

Não nos esqueçamos de que o Espírito é ainda uma irrealidade para as correntes mais avançadas do pensamento. Entre elas, como sabemos, encontra-se o materialismo histórico e dialético, base ideológica da concepção marxista da sociedade. Lembremo-nos de que o Espírito foi fator de superstições e de promessas de além-túmulo, com as quais se justificaram cruéis injustiças sociais. Além disso, sua concepção jamais correspondeu, na formulação teológica, de forma satisfatória, à desnorteante angústia do homem.

 
Por sua vez, a filosofia referiu-se sempre ao Espírito, mas sem dar provas de sua realidade objetiva. Obrigou-se a aceitá-lo dogmaticamente, por imposição de mentores religiosos, que
nunca levaram em conta o sentir coletivo do mundo, base fundamental da civilização e de todo o progresso social. Esta concepção do Espírito foi a razão ideológica do existencialismo, cuja pujança filosófica nenhuma filosofia e nenhuma teologia conseguirão deter, enquanto não se demonstrar a existência real do Ser espiritual. Acreditamos que o existencialismo só deixará sua posição niilista quando se provar que a mente sobrepuja as circunvoluções cerebrais, e quando essa mente se mostrar como uma consequência da real existência do Espírito, cuja objetivação só poderá obter-se pela investigação fenomênica da parapsicologia.

 

[Aqui vale lembrar apenas que Hegel, em seus livros “A Razão na História” e “Fenomenologia do Espírito” ao tratar do espírito se vale de mais de uma significação, dentre elas se destaca uma de igual significação ao pensamento espírita kardecista.  (Nota do PC)]

 
O laboratório parapsicológico deverá representar, portanto, uma forma de concretização científica da filosofia espírita. Se é certo que dele não poderá sair uma definição dogmática sobre a realidade espiritual do homem, isso não impede que a escola espírita vá confirmando sua ideologia doutrinária, por meio da parapsicologia.

 

 

Seria faltar à verdade deixarmos de reconhecer que devemos o advento da investigação psíquica, da metapsíquica e da parapsicologia ao resultado dos esforços realizados pela escola espírita no campo experimental, quando ela, sozinha, enfrentava as insustentáveis hipóteses sobre demônios, larvas, cascões astrais e fraudes. Daí apresentar-se a filosofia espírita, com sobejas razões, perante a exaurida humanidade, como campeã da vida e do Espírito.

 
Ela fará o homem sentir a realidade do seu Ser espiritual, por meio da ciência e da religião. Ela descerrará os véus do além e iluminará com seus fachos a marcha solene da história. Com seu gênio mediúnico, a filosofia espírita fez realidade e presença no que todas as religiões têm intuído subjetivamente: a alma imortal. Conseguiu estabelecer um dramático diálogo entre o mundo visível e o invisível, que os teólogos consideram sempre como irrealizável. O método científico, aplicado à pesquisa espiritual, vai dando à filosofia espírita a razão que lhe pertence.

 

 

Daí que a parapsicologia, ao demonstrar a realidade psíquica do homem, não poderá desfazer a concepção espírita do Ser, se é que realmente quer refrear o existencialismo ateu e o conceito materialista da vida.

 

O existencialismo não poderá ser ultrapassado só por meio de fatos, mas também mediante sólidas reflexões ontológicas acerca do homem. Não nos esqueçamos de que Jean-Paul Sartre disse: “As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo numa sociedade vaga, ou senhor feudal, ou proletário. O que não varia é a necessidade, para ele, de estar ali, no meio dos outros, e de ali, como eles, ser mortal.” Cabe à parapsicologia ensaiar, mediante seu rico fenomenismo extrassensorial, um Humanismo do Espírito, com o fim de indicar ao Ser de onde provém, o que faz no mundo e para onde se dirige.

 
Segundo a filosofia existencialista, a razão metafísica não é suficiente para negar o sentido niilista do homem e do mundo. O ser humano, não obstante a exigência teológica, destina-se à
morte eterna. Demonstrar o contrário seria negar a primazia que o existencialismo confere à existência sobre a essência. Como, porém, poderia realizar-se isto? Só mediante uma materialização da essência, que se poderá obter pela objetivação do Ser espiritual do indivíduo. E esta materialização da essência é tarefa da parapsicologia, que, uma vez cumprida, demonstrará cabalmente que o Espírito é uma realidade e pode objetivar-se.

 

Será realmente assombroso constatar os efeitos espirituais que a parapsicologia produzirá no existencialismo. A existência material será superada pela espiritualidade da essência; ela transformará sua imagem finita, para mostrar-se resultante do Ser infinito. Porque, como o reconhecerá a filosofia do futuro, só o método parapsicológico poderá conceder à metafísica os reais elementos com que construir uma verdadeira teoria do homem.

 

Estas reflexões nos levam a pensar que devemos juntar à Fenomenologia de Husserl uma “segunda fenomenologia”, já que ela abrange somente uma face do ser fenomenológico, o qual necessita de transcender para um existir extratemporal.

 

Ao contrário, uma fenomenologia parapsicológica do Ser não se limita às estruturas físicas, mas as supera, por meio de um ser intencional. A fenomenologia existencial detém-se na parte morta do Ser. Não obstante a intuição essencial que experimenta, não consegue perceber a realidade do fenômeno, para dele se libertar. Daí se conclui que a parapsicologia, à luz da filosofia espírita, é uma espécie de maiêutica socrática, que dá origem a uma nova realidade psicológica.

A objetividade de um verdadeiro fato parapsicológico terá a propriedade de convencer a matemáticos, cientistas, artistas, filósofos e religiosos. Consequentemente a parapsicologia será
a objetivação daquilo que se julgava morto para sempre: o ideal e o espírito, os quais ressurgem graças à influência que os fenômenos psíquicos e metapsíquicos exercem sobre o pensamento humano e a marcha do conhecimento. Ela é capaz de produzir fatos que podem interessar a toda a humanidade, já que esses fatos representam uma superação geral do conhecimento e do habitual. Além disso, ela está organizando métodos novos, para a investigação daquilo que sempre foi considerado como não experimental: a busca do Espírito.

 
Se a realidade espiritual clássica se mostra impotente para se opor à negação de Deus e do Espírito, existe uma teologia experimental, da qual falou o grande biólogo espanhol Jaime Ferrán, no seu prólogo ao Tratado de Metapsíquica, de Charles Richet, verdadeiro libelo contra o existencialismo ateu. Trata-se nada menos do que da metapsíquica objetiva, cujos fenômenos de materialização estão revolucionando o pensamento filosófico. Ela será de grande proveito para a existência humana e animal, agora que o existencialismo indica ao homem, como seu único futuro, a morte e o nada. Embora seja certo que várias escolas espiritualistas se levantaram contra o existencialismo, e com elas — que paradoxo — a própria doutrina marxista, não obstante sua concepção materialista, a verdade é que o niilismo espiritual se difunde de maneira alarmante, ao lado da filosofia do existencialismo.

 

 

Miguel de Unamuno não via, no fenômeno metapsíquico, nenhuma prova a favor da imortalidade. Não obstante, ao referir-se à realidade da vida de além-túmulo, chegou a escrever:

E a esta mesma necessidade, verdadeira necessidade de formarmos uma ideia concreta do que pode ser essa outra vida, responde em grande parte a indestrutível vitalidade de doutrinas como as do espiritismo, da metempsicose, da transmigração das almas através dos astros, e outras análogas, doutrinas que, quantas vezes declaradas vencidas e mortas, renascem em outras formas mais ou menos novas. É grande loucura querer eliminá-las, em vez de buscar-lhes a substância permanente.[Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida.]

 

 

Se a ciência psicológica está se beneficiando com as contribuições da investigação psíquica, da metapsíquica e da parapsicologia, isto se deve ao persistente trabalho do espiritismo científico, que, desde os seus primórdios, conseguiu atrair a atenção dos homens de ciência, interessando por sua vez a filosofia e a religião.

 

 

O conhecimento psicológico do homem encontra-se numa fase a que poderíamos chamar de revolucionária. As teorias do paralelismo psicofisiológico vão sendo abandonadas, ao considerar-se o Ser como um Eu ou uma Mente, conceito este negado pelo materialismo e pelo existencialismo ateu. A escola espírita, no campo do conhecimento, está preparando um novo sentido espiritual, mas agora apoiado num neorrealismo decorrente da demonstração positiva da existência da alma. Assim, o próprio cristianismo, menosprezado pelos niilistas e por certos espiritualistas orientais, se reafirmará sobre bases verdadeiramente espirituais. A filosofia espírita promoveu uma nova interpretação da antropologia, que permitirá à própria teosofia apresentar-se ante o espírito dos tempos atuais com suas grandes intuições místicas e cósmicas.

O caráter positivo da ciência mediúnica e metapsíquica confirmarão finalmente as hipóteses de muitas correntes idealistas.
 

[Muito provavelmente se referindo às correntes idealistas  tenha em mente o Idealismo Alemão: Kant, Hegel e Heidegger são seus mais eminentes nomes.]

A intuição palingenésica da teosofia, por exemplo, encontrará no realismo do fenômeno parapsicológico e metapsíquico a mais completa confirmação, ao lado de muitas teorias da metafísica oriental e ocidental.

 
Unamuno considerava as manifestações místicas e vivenciais da agonia terrena, antes de mais nada, como uma consequência da angústia religiosa. Era ele um tipo de existencialista cristão, semelhante a Sören Kierkegaard. Este achava que toda a sabedoria espiritual provinha da própria angústia do Ser.

 

Não obstante, a metapsíquica objetiva é a única força positiva que poderá contraditar e paralisar os planos filosóficos do existencialismo. Estejamos certos de que só um fenômeno objetivo, como o ectoplásmico, se fosse tomado na devida conta, poderia mudar a mentalidade dos tempos modernos e de todas as épocas. Porque, se a objetividade do fato metafísico chegasse a comover a inteligência contemporânea, o existencialismo perderia todo o seu valor, do ponto de vista lógico e filosófico.

 
Para o pensamento materialista, a filosofia idealista nada representa no mundo do conhecimento. Ela está incluída entre os sistemas que serviram de base aos dogmas, mediante os quais foi possível submeter os povos econômica e socialmente. Entretanto, para a filosofia espírita, o idealismo é uma realidade inegável, dependente do mundo espiritual. Pelo processo chamado ESP (extra sensory perception), isto é, pela percepção extrassensorial, poderíamos captar essa realidade, através do inconsciente. Esse processo chamado ESP (extra sensory perception) nos permitiria apreender outro plano do Espírito, ainda distante, no qual o homem não penetrou, mas que ele pressente, parapsicologicamente, como uma realidade.

 

 

Fonte:

Humberto Mariotti “O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização”

PENSE - Pensamento Social Espírita

 

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O valor do texto é inegável. Embora, a meu ver, deposite uma fé muito forte na Parapsicologia como ciência, ciência esta capaz de provar os fatos espíritas. O que não ocorreu e nem deverá ocorrer.

Da minha leitura de Rhine não percebi de sua parte o menor interesse em entrar nos aspectos metafísicos aos quais suas experiências poderiam remeter.

No que está certo. Seu projeto não visava mais que a afirmação da percepção extrassensória. E dentro disso a distinção entre ESP e telepatia. E ponto final.

O espiritismo se firmará pela via filosófica. O vazio vivencial da “Era do Indivíduo” tratá ao espiritismo pessoas mais sensatas e capazes de perquirições mais profundas. No geral a humanidade seguirá tal qual está. E não cabe aos espíritas a busca de adeptos.

Proselitismo é um erro em todas as áreas.

Como diz Kardec o espiritismo se imporá “pela ordem natural das coisas”.

Longe do fatalismo tenho apenas uma visão segura do alcance dos conceitos, principalmente para as camadas culturalmente mais desenvolvidas da sociedade.

Embora seja útil a todos os segmentos sociais, é dentre as pessoas de maior cultura a maior capacidade de penetração e apreensão do espiritismo.

 

Paulo Cesar Fernandes

12  07  2014

sexta-feira, 11 de julho de 2014

20140711 Introdução de Herculano Pires


 

 
Humberto Mariotti

Parapsicologia e Materialismo Histórico

 
 

UMA FILOSOFIA DA AÇÃO

 

A práxis marxista encontra neste livro uma crítica serena. E porque é serena, simpática. Humberto Mariotti não se inscreve na fileira dos críticos gratuitos ou políticos do marxismo. Sua intenção é descobrir a verdade social, como foi a intenção de Marx. Por isso mesmo, a critica a Marx e sua doutrina não é o objeto deste livro, mas apenas o acessório. Aparece circunstancialmente, nos momentos, em que a visão da problemática social, submetida ao critério avaliativo da dialética espírita, ressalta ao mesmo tempo os acertos e os desacertos da sistemática materialista.

 

 

Se Marx acreditou que a dialética de Hegel estava de ponta-cabeça, Mariotti não pensou isso da práxis marxista, mas procurou socorrê-la nas suas deficiências. Seu capítulo sobre Marx e Kardec, antecedido de um sobre marxismo e Espírito, deixa isso bem claro. Longe do sectarismo e, portanto, da paixão, fugindo aos simples jogos de palavras, enfrentando as proposições revolucionárias com lucidez filosófica, Mariotti é a antítese dos críticos interesseiros. Sua crítica se define no campo do paralelismo, na busca de elementos esclarecedores, no confronto positivo, como se vê nesta corajosa afirmação: “Karl Marx e Allan Kardec encarnam nos novos tempos as duas grandes inquietudes do pensamento contemporâneo: o fenômeno social e o fenômeno espiritual”.

 

 

Para Mariotti, a concepção marxista do homem se ressente do aspecto fundamental, que é o espiritual. A concepção kardeciana supre essa falha, não mais em termos abstratos, como no velho idealismo, mas em termos concretos e, portanto, existenciais.

 

 

É o homem-espírito de Kardec que dá sentido histórico e moral ao homem-econômico de Marx. E temos assim um novo homem, constituindo-se em pessoa humana, cuja responsabilidade não se restringe a uma classe, a uma determinada categoria social, mas se abre na perspectiva de um humanismo universal e ativo.

 

 

Ao encarar essa nova dimensão do homem, ao superar com essa síntese os conflitos do passado e do presente, Mariotti enfrenta o último aliado do marxismo, que é o existencialismo de Sartre. Reconhece a validade do método existencial de abordagem da problemática do Ser, mas demonstra que o Ser não pode estar compreendido nos limites efêmeros da existência. O homem do mundo não é para ele o alfa e o ômega da reflexão sobre o Ser, mas apenas a porta de entrada para a solução do grande problema. À maneira de Heidegger, é por essa porta que ele entra, certo de que a problemática humana, em seu aspecto imediatista, não nos oferece a existência em si, mas tão somente uma forma de existência. O existir, na verdade, é uma função do Ser, nele implicada e jamais a implicá-lo. Ser e existir se mostram na sua realidade concreta, não apenas verbal, mas como entes que se fixam no fluir da duração, recortando-se no tempo.

 

 

De ambos resulta, na dialética espírita de Mariotti, o ente social, que na forma da rés ou coisa do fato social de Durkheim, constitui a sociedade. Na perspectiva existencial em que nos encontramos é mais fácil a redução (evidentemente fenomenológica) do Ser ao ente, para depois, através do ente, remontarmos ao Ser. A lei dialética da negação da negação deve ser aplicada em sua plenitude, completando-se na reversão final, que Sartre não quis fazer, para que a problemática do Ser se esclareça.

 

 

Da mesma maneira, o problema social, que se entranha naquela problemática, só encontra solução no momento em que o revertemos do social ao moral, através do ontológico. Daí o interesse de Mariotti pela parapsicologia, que é o instrumento adequado, no campo das ciências positivas, para arrancar o mundo contemporâneo do organocentrismo em que se fechou. As pesquisas parapsicológicas quebram a casca dessa concepção materialista que reduz o homem ao seu organismo, permitindo ao investigador tocar com o dedo a anima, essa ideia platônica que se projeta na existência como para-si, não para frustrar-se na morte, como quer Sartre, mas para nela completar-se, como percebeu Heidegger. O destino do homem não é a frustração da morte, mas a vitória da vida, conquistada na existência. Por isso, a existência não é uma inconsequência, mas uma responsabilidade que só se pode medir em função do Infinito.

 

 

Do Ser concreto que anima o homem, que lhe dá o movimento e a consciência entre as coisas, e que por isso mesmo o destaca das coisas, Mariotti parte para o universo moral, que é uma consequência natural, e, portanto lógica e necessária, do processo de projeção do Ser na existência. Existir é realmente transcender, como ensina Karl Jaspers, e a transcendência se faz em dois sentidos: o horizontal, que é o fenômeno social, e o vertical, que é o fenômeno espiritual.

 

 

No primeiro, temos a sociedade e todas as suas implicações; no segundo, a moralidade e sua atualização palingenésica. O social se resolve em moral quando a existência não se fecha no círculo vicioso dos valores materiais. Porque a finalidade mesma da existência é promover “a desmaterialização dos valores econômicos e materiais”. Mas isto só é possível através da moralização crescente do homem, que se verifica como podemos ver na história, em razão inversa da acumulação egoísta dos valores materiais.

 

 

Assim, a história se reverte em palingenesia, essa antiga e nova forma do futuro, era que o passado e o presente se fundem numa supra-realidade, precisamente aquela em que surge a possibilidade da síntese em-si-para-si, que Sartre nega. Mas o em-si-para-si não é apenas aspiração, não é um sonho ou um possível arquétipo, e sim uma realidade crescente, que se atualiza em nós mesmos à proporção em que o captamos em nossa percepção consciente da vida. Os exemplos históricos nos mostram essa realidade inegável, mas até agora obscurecida pelo dogmatismo fideísta das religiões e pelo dogmatismo cético das ciências.

 

 

Curioso notar como a dialética de Mariotti segue a linha hegeliana e ao mesmo tempo se confirma na tese marxista. O que mostra que Marx, em vez de pôr a dialética de Hegel em pé, apenas acolheu-se à sua sombra. Porque a sombra da dialética espiritual de Hegel é a realidade histórica em que ela se projeta. Mariotti se recusa a contemplar as sombras da caverna de Platão, preferindo romper os grilhões do materialismo histórico para ver as coisas reais do mundo à plena luz do sol. É assim que ele nos oferece a dialética do Espírito, em que o movimento da vida não se reduz à agitação inconsequente do sensível, mas se expande na serenidade responsável do inteligível.

 

 

Nessa nova dialética, que é a síntese das anteriores, que faz do movimento o meio de transição e o ponto de encontro do espírito e da matéria, as divergências ideológicas do mundo contemporâneo, — simples equívocos do pensamento, em seu processo dialético de atualização, — são absorvidas numa nova forma conceptual.

 

 

A tônica dessa nova concepção é a realidade espiritual do povo, é o povo tomado como a comunhão de consciências de que nos fala René Hubert, o povo construindo a República dos Espíritos (a que alude o mesmo Hubert), o povo na sua plenitude democrática determinada pela igualdade espiritual do Ser, que anima todos os entes e em consequência o ente social. Partindo, assim, do Ser, essa abstração verbal, essa figura gramatical do espiritualismo alienado ao dogmatismo fideísta, Mariotti atinge a realidade concreta do Ser no individual e no social.

 

 

É a este Ser, que no ente do homem representa o próprio homem, que compete agir para libertar-se do egocentrismo escravizador, para superar o egoísmo que o coisifica entre as coisas do mundo. A história, como suceder temporal das coisas (os fatos sociais tomados também como coisas) transforma-se na metamorfose espiritual do homem e da sociedade. Ao materialismo histórico, que coloca a sua ênfase nos valores econômicos, sucede a dialética do Espírito, que desmaterializa os valores contingentes para transformá-los em valores eternos do espírito. A atualização que Marx pretendeu realizar na transformação material do mundo, evitando a fuga espiritual das religiões, Mariotti realiza na transformação espiritual do homem.

 

 

Porque o homem é o mundo, e uma filosofia da ação, que transforma a potência em ato, não pode contar apenas com a vontade de potência, mas também e, sobretudo com a consciência moral. Mariotti anuncia, assim, o homem e a sociedade numa nova civilização, que não surgirá por acaso, mas através da vontade consciente do homem atual, que é o único possível construtor do futuro. Os valores existenciais projetam-se além da existência, porque esta é apenas um ente, um fenômeno, um momento na duração, que pode converter-se no instante kierkegaardiano, ligando o finito ao infinito. As injustiças sociais, geradas pela brutalidade egocêntrica, não podem ser sanadas por uma brutalidade sociocêntrica. Só um homem-humano poderá construir uma sociedade humana. A filosofia da ação que o espiritismo nos oferece é o caminho dessa realização, mas esse caminho só pode ser seguido pelos espíritas conscientes da responsabilidade doutrinária.

 

 

É por esse motivo que Mariotti insiste na distinção entre o espiritualismo misoneísta que, como o ocultismo alemão, serviu ao nazismo, e o espiritualismo participante que penetra a alma do povo e a ela se liga, resultando no fenômeno da mediunidade social, condutora dos povos. Os espíritas que temem os problemas sociais e políticos pertencem ao primeiro tipo, são misoneístas extraviados no seio de um movimento espiritual renovador do mundo. Mas a participação espírita não é partidária, nem é política no sentido comum do termo. A revolução espírita não é um ato de violência, nem pode aceitar a violência, que é a negação do princípio de fraternidade, um crime contra o amor. Só a consciência da responsabilidade doutrinária, que resulta do conhecimento e da vivência da doutrina espírita, arma o homem para enfrentar a nova perspectiva política e revolucionária do espiritismo.

 

 

Mariotti acentua que a revolução espírita supera todas as anteriores, que transformaram sucessivamente o mundo. “Com o espiritismo, — adverte, — haverá um encadeamento dialético do Céu com a Terra. Os homens e as almas se unirão e as portas do Infinito se abrirão aos heróis e aos lutadores, como um novo cenário para a divina palingenesia de todos os seres. A humanidade, individual e coletivamente, recuperará a memória do Eterno, tornando-se consciente do seu papel no grande plano da evolução universal”.

 

 

As formas de ação do espiritismo não se conformam com as do homem-mortal. São as formas de ação do homem-imortal que levam em consideração não apenas o imediato, mas também o futuro. A filosofia da ação que este livro nos apresenta é de natureza cósmica, mas, como dizia Léon Denis, considerando um Cosmos em que a matéria se conjuga com o espírito e o tempo com a eternidade.

 

 

A participação do espírita não quer dizer engajamento político ou ideológico, mas compreensão e vivência dos princípios de fraternidade, em favor ao mesmo tempo de vítimas e algozes, pois tanto é escravo da miséria o pobre explorado quanto o rico explorador. Esta nova mensagem, — que é tão velha quanto o mundo, mas só agora começa a tornar-se acessível à compreensão humana, — precisa ser meditada pelos espíritas conscientes de sua responsabilidade doutrinária. E ninguém melhor do que Mariotti para ajudá-los nessa meditação.

 

 

J. Herculano Pires

 

Fonte: PENSE - Pensamento Social Espírita
 
 
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Algumas mensagens são atemporais e tem sabor de eternidade. Tanto a Introdução quanto o livro em si tem essa qualidade. Da minha leitura com os cabelos ainda pretos, na tenra juventude muito tempo se passou e muitas ideias estiveram de passagem pela minha mente. Mas um texto bem escrito é sempre saboroso. Faz do tempo investido nele uma pequena joia em nossas mãos, para uso perene.
 
 
Ontem ainda, assisti uma entrevista com Jorge Eduardo Rivera, professor universitário no Chile. Tradutor de "Ser e tempo" de Martin Heidegger. Dizia ele que a anterior tradução era complexa demais, e lhe requisitava horas na preparação de cada aula. O convite da editora para que se dedicasse a nova tradução foi uma das coisas que mais o honraram e ao mesmo tempo motivo de prazer. Na entrevista Rivera expoe de forma simples as teses centrais do pensamento de Martin. Herculano compreende perfeitamente a questão ontológica de Heidegger.
 
 
A questão do Ser aberto à vida.
 
 
Diz meu professor Feinmann: Heidegger é o maior filósofo ocidental. Eu ainda não me encontro capacitado para reafirmar sua assertiva ou para negá-la. Mas venho pouco a pouco me acercando do pensamento heideggeriano no sentido de compreende-lo, e compreende-lo como uma continuidade mais ampla do pensamento de seu predecessor na reitoria da Universidade Edmund Husserl.
 
O pensar de Heidegger tem, como o vejo, uma forte ligação com a Fenomenologia de Husserl.
 
Mas isso é uma outra questão. Vale o texto de Herculano Pires como um alerta a todos os pensadores do espiritismo como motor de transformações sociais.
 
 
Paulo Cesar Fernandes
 
11  07  2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

20140711 O Nirvana do Niilismo

O Nirvana do Niilismo


Exatamente no momento do Nada; no Niilismo profundo, meu Ser se abre à criatividade e à intuição.


Antena de múltiplas dimensões, em simultâneo escavo o mais profundo do inconsciente.


O Nada faz brotar o Ser.


 
Pintura em juta.


O Nada é outra forma de Nirvana, pero despojada de misticismo.


O Nada e sua angústia acaba sendo algo produtivo.


Paulo Cesar Fernandes


11 07 2014



Nota: Reflexões acerca do "Ser e Tempo" de Martin Heidegger.

20140710 Cristiane Delfina_Pensadores que se tornaram líderes espirituais

 
Revista ComCiência   -   SBPC   -   Labjor
 
 
Os sentidos das narrativas: autores e pensadores que se tornaram líderes espirituais 


Por Cristiane Delfina

Escrito em 10/07/2014 
 


"Não seria a própria religião, olhando desde uma perspectiva filosófica e antropológica, uma forma de ficção?

Os relatos extraordinários que perpassam a Bíblia, de Gênesis até Apocalipse, passando pela ressurreição de Cristo e sua ascensão, não seriam, na mesma perspectiva, belos textos de ficção científica?

Quase podemos perguntar: o que não é ficção científica na religião?", sugere Julio Cézar Adam, doutor em teologia pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha, e atualmente professor da Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, no artigo "Da ficção científica para a ficção religiosa: ideias para pensar o cinema de ficção científica como o culto da religião vivida", publicado na revista Horizontes, do programa de pós-graduação em ciências da religião da PUC-Minas.



Nesse texto, o autor trata de filmes de ficção científica como experiências religiosas, definindo religião como todo exercício humano de transcender e transpor os limites do tempo e do espaço através da imaginação, na busca de sentido, de valor, de contato, de esperança, para que a vida seja suportável e viável.


Antes de mais nada, vale ressaltar que o autor trata da experiência religiosa em si, sem apontar nenhuma crença específica ou questionar a veracidade do que se prega. Para ele, a experiência religiosa reflete a evolução humana, já que tira a confiança do homem nas leis da natureza e a transporta para a ideia, para o
imaginário, para a ficção, construindo a imagem do mundo ao invés de nele somente sobreviver.



A experiência de imersão no cinema, que se assemelha, como Adam aponta, à de culto, talvez passe antes pela imersão no texto e na ordem da narrativa, pelo conforto e convencimento encontrados em seus argumentos. Mas para Alan Myatt, PhD em teologia e religião pela Universidade de Denver, no Colorado, nos
Estados Unidos, e leitor ávido de autores como Isaac Asimov (Eu-robô e O homem bicentenário), apesar de os mistérios do mundo serem apresentadas tanto na ficção quanto na religião, somente a segunda pode trazer respostas a anseios reais enfrentados pelos homens.



"A ficção científica é escrita conscientemente como ficção, quer dizer, os autores sabem muito bem que não estão fazendo descrição sobre a natureza do mundo. Por outro lado, estão trabalhado com conceitos religiosos ou filosóficos que muitas vezes tocam nas questões de verdades.



As religiões tipicamente abordam as questões com a intenção de responder e falar alguma coisa de verdade sobre o que é a natureza de Deus e do Universo.


O ser humano é sozinho no universo?


Qual o propósito na vida?


O que eu entendo é que a ficção científica levanta dúvidas, abre caminhos para a gente pensar além de nossos horizontes, mas ela não dá as respostas, embora seja muito comum autores, através de seus livros de ficção, apresentarem seu próprio pensamento, sua própria interpretação do mundo", avalia.



Segundo Myatt, quando os autores dos evangelhos descreveram a vida de Jesus, eles estavam relatando fatos históricos, acreditavam estar registrando verdades em relação às quais se posicionaram como testemunhas oculares. Sendo assim, a Bíblia, por exemplo, precisa ser analisada como documento histórico, e não como
literatura de ficção. Apesar de alguns historiadores não aceitarem os registros como fatos reais, Myatt, que possui graduação em história pela Vanderbilt University, nos Estados Unidos, e tem experiência em análise de documentos históricos, está convencido da veracidade dos relatos sobre a vida e a importância de Jesus.



“O que temos que entender é que, muitas vezes, filósofos e teólogos chegam a conclusões não por causa da evidência em si, mas porque eles já têm filosofias, pressupostos que vão determinar as interpretações. Religião, na sua essência, é nossa tentativa de responder às questões últimas, finais. Nesse sentido, todas as
questões, todas as filosofias são religiosas”, defende Myatt.



Da ficção para a doutrinação


Em 1957, Ayn Rand, roteirista russa que ficara famosa em 1943 com o livro A nascente, alcançava o auge de sua carreira como autora, publicando A revolta do Atlas, romance que se passa nos Estados Unidos sob um regime igualitário, em que pessoas talentosas e competentes não possuem abertura para exercer e explorar suas capacidades com autonomia e são constantemente “podadas" ou manipuladas pelo governo em prol de um coletivismo que sustenta também pessoas corruptas, preguiçosas e improdutivas. Misteriosamente, os indivíduos racionais, criativos e empreendedores começam a sumir um por um, levando o país a uma crise cultural e econômica.



Crítica clara ao comunismo, a história foi lida e aclamada por milhões de pessoas nos Estados Unidos, vendendo cerca de 800 mil livros por ano e conquistando principalmente membros da elite conservadora americana, como membros do Partido Republicano, entre eles o ex-presidente Ronald Reagan, o candidato a vice-
presidente em 2012 Paul Ryan e os espíritos criativos e empreendedores do Vale do Silício, na Califórnia, que se identificaram com os "incompreendidos" personagens da ficção.



Para o jornalista americano Jeff Walker, autor do livro Ayn Rand cult, a autora russa já arquitetava a institucionalização de um culto e não somente de uma filosofia; e se antes conseguia plantar suas ideias nos roteiros para a grande experiência de "culto  cinematográfico”, fundou nos anos 1960 o Objetivismo, formalmente instituído como um sistema filosófico (não reconhecido pela academia), defensor do livre mercado e do individualismo ou egoísmo. Walker sente-se impelido a posicionar o trabalho de Rand como culto, para direcionar sua postura mais para uma visão religiosa ateísta que propriamente filosófica e político-econômica.



"Não penso que o Objetivismo é uma doutrina neutra que, por um golpe de sorte, tornou-se a doutrina de um culto. Eu mostro muitos aspectos de que os pensamentos de Rand conduziam a isso. Quanto mais eu via, mais eu percebia que este não era só o fenômeno de um culto clássico, como os escritos de Rand após 1943 não poderiam ser totalmente compreendidos se não fossem lidos como de uma líder formando, consolidando e espalhando seu culto”, explica.



Ciência e cientologia.


Ao primeiro contato, o leitor pode pensar que o movimento religioso conhecido como cientologia esteja relacionado à ciência e a seu caráter empirista, metodológico e lógico, mas uma das características apresentadas no site brasileiro da religião fundada por Lafayette Ron Hubbard em 1952 é que "nada, em cientologia, é verdade para si, a não ser que o tenha observado, e é verdade de acordo com a sua observação”. Considerando-se o princípio da ciência como a busca por verdades universais e sistemáticas, talvez o que se aplique nessa religião seja a busca pelas verdades empíricas próprias de cada indivíduo, e, por isso, reportagens em sites como Cientonetica e revistas como SuperInteressante, trazem informações sobre o uso de detectores de mentira chamados de eletropsicômetros, em sessões entre o fiel e uma espécie de auditor.



Inicialmente autor de histórias de ficção-científica, como Battlefield Earth e Fear, envolvendo invasões alienígenas e escravização de seres humanos, Hubbard também escreveu roteiros para o cinema, e, em 1950, partiu para a escrita de livros de autoajuda e desenvolveu um sistema que chamou de dianética – uma ciência da mente que mostra como ela funciona –, fundando a Igreja da Cientologia, que viria a aplicar os princípios de seu livro. A nova religião atraiu seguidores influentes e famosos, geralmente pessoas com muito dinheiro e que poderiam arcar com as despesas de aperfeiçoamento nos métodos de Hubbard, os quais só poderiam ser revelados a fiéis em estágios mais avançados de dedicação.


Algumas revelações, ao vazarem para a mídia, geraram polêmicas acerca da seriedade da religião, pois traziam elementos muito semelhantes aos contos escritos pelo autor, sem fundamentação histórica ou científica, e foram vistas como histórias de ficção.



A religião da ciência é o positivismo


Para Auguste Comte, um dos fundadores da sociologia e principal filósofo do positivismo, o conforto e as respostas encontradas na imagem de Deus, na realidade, só poderiam vir da ciência. Segundo o artigo "O positivismo e sua influência no Brasil", de Rosélia Maria de Sousa Santos e José Ozildo dos Santos, "Comte tentou
unir a filosofia à ciência biológica e médica, bem como à religião. Com o positivismo, a fé cristã seria substituída pela fé na ciência, ao mesmo tempo em que a Igreja Católica seria substituída pela Igreja Positivista”.



O positivismo consolidou-se como filosofia na França durante o século XIX, e teve grande influência na Europa sobre vários setores, como educação, arte e literatura, por valorizar a razão sobre a tradição num momento de grandes transformações, com as Revoluções Industrial e Francesa. Os avanços da tecnologia na
indústria e na economia e ideiais libertários e anti-tradicionalistas se propagavam pelo mundo.



Conforme afirmam os autores do artigo, "o positivismo somente aceita como realidade fatos que possam ser observados, transformados em leis que forneçam o conhecimento objetivo dos dados e que permitam a previsão de novos fatos, criando a dimensão da neutralidade da ciência". Segundo eles, Comte propunha uma ordem política e social baseada nas leis naturais, na síntese invariável da matemática e no conhecimento científico como determinante da moral humana, sem abertura para a crença em um ou mais deuses ou qualquer evento metafísico. "Comte achava que a filosofia positiva deveria buscar aplicações políticas e fundou uma nova religião, afirmando que era possível planejar o desenvolvimento das sociedades e dos indivíduos a partir dos referenciais das ciências exatas e biológicas", afirmam. "A
Religião da Humanidade", como chamou Comte, trata da cultura sistemática dos sentimentos, pregando a seguinte "regra": "O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim". Para Augusto Comte, a palavra religião – do latim religare, que significa “religar” – é o mais bem composto dos termos humanos, significando ligar o interior pelo amor e religá-lo ao exterior pela fé. Sua finalidade suprema é o aperfeiçoamento moral do homem, individual ou coletivamente, atingindo sucessivamente o lar, a pátria e a sociedade maior.


Culto, religião, filosofia, ciência, imaginação. Cada um desses termos evoca um comportamento social e um uso de nossa inteligência que constitui e organiza nossa vida em sociedade. Discursos e narrativas, intencionais ou não, são registrados em papéis e memórias digitais, mas nas mentes de cada um, talvez não exista necessariamente uma divisão tão clara entre nossas experiências. Somos movidos, distraídos e envolvidos por palavras, acreditando no que queremos, mas principalmente, vivendo com o que conseguimos acreditar.


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Dentro de "O Espiritismo e os Problemas Humanos" Deolindo Amorim destaca um longo capítulo sobre o Positivismo. Sua conversão em Religião com sacerdotes e tudo.

Que faz Augusto Comte?

A substituição da entidade Deus pela entidade Humanidade.

Deolindo aponta ainda dezenas de pontos de convergência entre o Positivismo e o Espiritismo.

É sempre bom ler esses personagens, apenas conhecidos pelo nome e nunca lidos. Isso ajuda a ampliar nossos horizontes.


De tudo isso sigo apostando na ficção como uma forma ou um instrumento de levar as pessoas à reflexão  Nunca apontando caminhos e "verdades" o que seria uma enorme bobagem e de um autoritarismo sem fim.


Apenas busco desvendar as contradições sociais e as vivenciais através da postura e diálogos dos personagens.


Paulo Cesar Fernandes

10 07 2014