quarta-feira, 18 de setembro de 2013

20130918 Liberdade e transcendência

José Herculano Pires
 
Curso Dinâmico de Espiritismo
O Grande Desconhecido

in
Sexo e Genética no Espiritismo
 
 
O Espiritismo não criou igrejas, não precisa de templos suntuosos e tribunas luxuosas com pregadores enfatuados. Não tem rituais, não dispensa bênçãos, não promete lugar celeste a ninguém, não confere honrarias em títulos ou diplomas especiais, não disputa regalias oficiais. Sua única missão é esclarecer, orientar, indicar o caminho da autenticidade humana e da verdade espiritual do homem. Se não compreendermos isso e nisso não nos integrarmos estaremos sendo pedras de tropeço para os que desejam realmente evoluir, não por fora, mas por dentro. E esse por dentro não quer dizer reforma, mas desenvolvimento das potencialidades do espírito.


A teoria da reforma intima é um engodo que levou muitos companheiros aproveitáveis à vaidade adulteradora. Não há reforma para o que não se estraga. O espírito é o mesmo em todos e só necessita de uma coisa: desenvolvimento. Enquanto não desenvolver a sua capacidade de compreender, analisar, julgar, discernir e respeitar a verdade não terá condições para modificar-se por dentro. Mesmo porque essa modificação só pode ocorrer pelo esforço pessoal de cada um. A expressão reforma intima é inadequada, pois implica a idéia de substituição de coisas, conserto, modificação em disposições internas, como numa casa ou numa loja. As disposições internas do espírito correspondem ao seu grau de evolução, como nos mostra a Escala Espírita de Kardec.


O espírito é vida e não arranjo. Seu desenvolvimento depende de experiências, estudos, reflexão – tudo isso com mente aberta para a realidade e não fechada em esquemas artificiais. Ninguém se reforma nem pode reformar os outros. Mas todos podem superar as suas condições atuais, romper os limites em que a mente se fechou
e transcender-se. Os modelos de figurino espiritual são inócuos e até mesmo prejudiciais.


A responsabilidade espírita é individual, cada qual responde por si mesmo e não pode prender-se a supostos mestres espirituais. Um espírita que se sujeita às lições de um mestre pessoal não é espírita, é um beato seguindo Antônio Conselheiro.


O despertar da consciência na experiência é o seu caminho único de progresso. Ele não confia em palavras, mas nos fatos. Não busca a ilusão de uma salvação confessional, mas aprofunda-se no conhecimento doutrinário para saber por si mesmo onde pisa e para onde vai...


Os que precisam de mestres não confiam em si mesmos, fazem-se ovelhas de um rebanho. No Espiritismo não há rebanhos nem pastores: há trabalho a fazer, afinidades a estabelecer entre companheiros em pé de igualdade, toda uma batalha a vencer; há os pesados resíduos teológicos, supersticiosos e obscurantistas que esmagam a ingenuidade das massas.


O Espiritismo é uma tomada de consciência da responsabilidade do homem na existência, da sua liberdade e da sua transcendência. Os espíritas que ainda se alimentam de leite – como escreveu Paulo – precisam tratar de crescer e alimentarse de coisas sólidas, consistentes.


***

Este pequeno trecho foi por mim selecionado por estar plenamente de acordo com a minha forma de pensar.


Não precisamos de modelos. Forjamos nossos modelos a partir das lutas da própria vida; ou, olhando mais abrangentemente, de nossa existência enquanto espíritos em múltiplas oportunidades forjados.


É o tempo que nos entalha pouco a pouco, partindo de nossa firme decisão de desenvolvimento.


Todo o resto não passa de ilusão inconsistente. Louros virtuais, incapazes de agregarmos em nossa bagagem.


É primorosa a síntese de Herculano:


"O Espiritismo é uma tomada de consciência da responsabilidade do homem na existência, da sua liberdade e da sua transcendência."


Paulo Cesar Fernandes

18 09 2013


Nota: Chamo de existência a trajetória toda do espírito, e vida o período de uma encarnação. Tal distinção me permite afirmar sermos seres existentes, bem como afirmar ser o espiritismo uma concepção existencialista do Ser.

Como propõe Martin Heidegger o Ser é jogado no mundo.

E o espírito, ao ser criado 'simples e ignorante' é lançado nas primais oportunidades de sua existência, em momentos de aprendizado das sensações no contato com a matéria, isto na sua longa fase de ProtoEspírito. Fase com seu término apenas ao adentrar o Reino Hominal, e mais ainda com o desenvolvimento de seu senso ético.

É isso.

sábado, 14 de setembro de 2013

20130914 Algum passo

Algum passo


"E logo os chamou." - MARCOS,1:20


Todo dia temos desafios a vencer na relação com nossos semelhantes.


Quantas vezes fui intransigente e grosseiro? Milhares.


Quantas ainda serei? Espero que poucas.


Sei. A retomada do caminho é difícil. Adiante tenho/temos uma estrada arenosa e cheia de pedregulhos. Em verdade nada convidativa se tivermos preguiça. Mas se pusermos objetivos mais amplos em nossa vida, visando um maior desenvolvimento em nossa existência, devemos nos acostumar com a ideia do caminho árduo. E de por ele caminhar.


É como um prato de sopa muito quente. Pelando mesmo. Não dá para meter a colher, e levar à boca sem queimar a língua. Devemos ir selecionando as colheradas pelas beiradas. Onde está menos quente. É o mais sábio.


Assim ocorre para quem busque a evolução. Se a estrada é cheia de dificuldades e obstáculos, seremos obrigados a andar em um ritmo mais lento, mas mantendo firmes os passos e os objetivos.


Um espírito frouxo não cumpre meta nenhuma.


Só cumpre metas aquele que, de decisão firme, vai seguindo. Mesmo tendo fases de avanços menores, segue em seu projeto. Pois uma coisa é certa: A evolução é um caminho próprio do espírito. De sua decisão e garra.


Mas para isso é necessária uma tomada de consciência nascida de dentro para fora. Um "insight" propulsor da renovação.


Pode vir até do sofrimento, mas é muito mais interessante se vier de nossa atenção ao mundo que nos cerca. Se a experiência do outro nos servir, se apurarmos nossa sensibilidade para a espiritualidade, rompendo com a materialidade imperante ao nosso redor.


Não há modelos a seguir à medida em que o homem é senhor de sua racionalidade. Todas as contribuições podem a ele chegar.

Dono do próprio destino desenha e redesenha qual a rota a seguir: o asfalto da materialidade ou o caminho algo mais árduo da busca do Bem Maior para si e para toda a humanidade.


Estamos sim com os pés no chão, e assim devemos estar. Mas podemos ter o espírito voltado para horizontes mais amplos, sem com isso deixar de contribuir de forma efetiva com o mundo material do nosso entorno. Esse equilíbrio é meta para todos nós que temos no espiritismo um roteiro para o caminho.


A Liberdade é total, pois cada um sabe muito bem onde lhe apertam os sapatos. E caminha segundo decisões renovadas a cada dia. A cada dia algum passo.



Paulo Cesar Fernandes

14 09 2013

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

20130913 CCR

CCR


Credence Clearwater Revival na sala. No telão da memoria um filme preto e branco me trás o passado. Não há como negar que os
acordes musicais carreguem em si imagens, recentes ou remotas.


Somos brindados pelo passado a cada momento do presente; mas, por outro lado, temos a capacidade de reregistar nosso tempo e nosso momento para revisitá-lo num momento qualquer do futuro.


Numa tarde solta, num qualquer dia da semana. Afinal o tempo não é tão linear como o imaginamos. Todos somos frutos do tempo, do
tempo mental muito mais que daquele preso aos ponteiros de um relógio de estação de trem.


Navegamos no tempo. Imortalmente livres, navegamos no tempo.


Aqui e agora são apenas flashes registráveis, preferencialmente numa pauta musical; ou numa ousada trilha sonora de um tempo ou de um movimento político-existencial.


Mais que tudo somos revolucionários de nosso tempo, e de nossa maneira de concebe-lo. Pois o movimento a tudo faz eterno e a tudo
muda a cada segundo.


Assim o sinto quando as manchas de asfalto da Rua Pasteur se projetam na parede de minha sala, ou em qualquer outro recanto mágico do presente. Pois todo tempo é tempo bom se sabemos mirarlo na perspectiva da eternidade inerente a cada um de nós.


Eternos e crescentes somos todos. Inevitavelmente. E isto é muito bom.


Paulo Cesar Fernandes

13 09 2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

20130911 Síntese histórica

Síntese histórica


Nenhum escritor espírita tem para mim a significação de Herculano. Por mais respeito tenha pelos demais, aliar uma cultura tão ampla, um idealismo sem limites e um tal conhecimento da obra de Allan Kardec, não há quem no Brasil. Talvez nem no mundo.


Este primeiro item do seu Curso é um apanhado amplo, apesar de sintético do processo de desenvolvimento do homem até sua chegada na Era do Espírito. Me calo para que fale quem sabe dizer as coisas.
*
José Herculano Pires
Curso Dinâmico de Espiritismo: esse grande desconhecido.

*
O Processo Cultural

*

No desenvolvimento da Cultura, em nosso mundo, podemos assinalar três fases bem definidas no processo histórico:


a) Culturas Empíricas;

b) Culturas Religiosas;

c) Culturas Científicas.


As Culturas Empíricas se desenvolvem nas relações primárias do homem com a Natureza, através das experiências naturais.


Nessas experiências o homem elabora os três elementos básicos de toda a cultura:

• a linguagem.

• o rito.

• o instrumento.



Não se trata de uma elaboração sucessiva, mas sincrônica, de uma reelaboração das experiências animais. Tudo se encadeia no Universo, diz O Livro dos Espíritos.


Nesse encadeamento as vozes animais se transformam na linguagem humana, os ritos em rituais da sociabilidade humana e dos cerimoniais religiosos, as garras dos animais se projetam nos instrumentos de pau e pedra de que o homem se serve para agir sabre a Natureza e adaptá-la as suas necessidades de sobrevivência.


As experiências que desenvolvem a Cultura Empírica excitam as potencialidades do espírito, desenvolvendo-as nas tribos e nas hordas. A lei de adoração, proveniente da ideia inata de Deus no homem, gera a reverência pelos poderes misteriosos da Natureza e institui os primeiros rituais de reverência aos pagés ou xamãs e feiticeiros, bem como ao cacique e aos chefes guerreiros. O culto às divindades da selva nasce desses rituais.


A Cultura Empírica gera a Cultura Religiosa das primeiras tribos sedentárias. A idéia de Deus se define mais nítida com o desenvolvimento da Razão, sob a influência dos ritos da Natureza, nas primeiras civilizações agrárias e pastoris. O milagre das germinações, no ritmo regular das estações, e a proliferação dos rebanhos provam a existência de inteligências controladoras dos fenômenos naturais e protetoras do homem. O animismo, projeção da alma humana nas coisas, impregna a Natureza com uma vida factícia em que a pedra, a árvore, o rio, o bosque, a montanha, o mar, tudo fala e pensa em condições humanas. As manifestações espíritas provam a realidade anímica da Natureza. A figura de Deus, Ser Superior, criador e dominador do mundo, impõe-se ao homem na forma necessariamente humana. E como Deus não pode estar sozinho, multiplica-se em mitos que simbolizam as suas várias atividades, ligadas às atividades humanas. Ao mesmo tempo, as forças destruidoras e as manifestações de espíritos malignos geram os mitos da oposição a Deus. Nasce o Diabo desse contraste, estabelecendo a luta entre o Bem e o Mal, sujeitando o homem
à esperança da proteção divina e ao temor dos poderes maléficos.


A Cultura Religiosa se configura na síntese dessa dialética do invisível e do visível, do sentimento e da sensação, fazendo evoluírem as civilizações agrárias e pastoris para a fase das civilizações teocráticas que se desenvolvem no Oriente, nas regiões em que brilha a luz em cada alvorecer. Os ritmos da Terra e do Céu, do dia e da noite, as estações do ano, o Sol e a Lua, as constelações anunciadoras de cada mudança no tempo, a chuva e as inundações, os terremotos, as erupções vulcânicas, as pestes, as pragas, o relâmpago, o raio, as tempestades exigem a disciplinação do caos e ao mesmo tempo a complexidade dos cultos. Os soberanos das nações são filhos de Deus e possuem poderes divinos. A Cultura se desenvolve na argamassa dos sentimentos e das sensações. A Fé se define como sentimento e sensação em misturas condicionadas pela Razão, expressa nas formulações filosóficas. A Teologia brota desse complexo de mistérios como a Ciência Suprema dos videntes e dos profetas, dos homens mais do que homens de que falaria Descartes, homens privilegiados pela sabedoria infusa que desce do Céu para iluminar a Terra. A Cultura Religiosa é uma oferenda celeste que os homens simplesmente homens não podem tocar com suas mãos indignas, não podem avaliar com suas mentes entorpecidas pelos interesses materiais e as ambições inferiores da vida perecível. O mundo se divide em duas partes inconciliáveis: surgem os conceitos do Sagrado e do Profano. As Culturas Religiosas desligam-se da tradição empírica, rejeitam a experiência natural, relegando-a ao campo do profano, do pecaminoso. Entregam-se à alienação do suposto, do imaginário.


O Cristianismo envolve-se nas contradições humanas: cai na simonia, no comércio ambicioso de sacramentos e indulgências, pregando a renúncia ao mundo e a santidade da pobreza; proclama a humildade como virtude e investe-se do poder político; denuncia o paganismo e o judaísmo como heréticos e assimila os seus elementos rituais e a sua política gananciosa; prega o Reino de Deus e apossa-se dos reinos terrenos; impugna a sabedoria grega e constrói o seu saber com decalques de Platão e Aristóteles; ensina a fraternidade e promove guerras fratricidas em nome de Deus; erige-se em religião do Deus Único e divide Deus em três pessoas distintas; institui o celibato como virtude e faz comércio ambicioso do sacramento do matrimônio; combate a magia e reveste o seu culto de poderes mágicos; luta contra as heresias e comete a suprema heresia de submeter Deus ao poder do sacerdócio no ato eucarístico; profliga a idolatria e enche os seus templos com ídolos copiados da idolatria mitológica, chega ao máximo da alienação estabelecendo o sistema fechado das clausuras e dos mosteiros segregados; prega o Evangelho e nega ao povo o acesso aos textos que considera privativos do clero; proclama a supremacia espiritual do amor e semeia o ódio aos que não aceitam os seus princípios.


A alienação cristã faz da cultura um sincretismo de absurdos assimilados de dogmas e rituais bastardos de igrejas e ordens ocultas da mais alta Antiguidade, transformando o conhecimento em gigantesca colcha de retalhos em que as próprias vestes sacerdotais e paramentos do culto são copiados de antigas e condenadas igrejas. A cultura cristã se desenvolve com pressupostos falaciosos e um fabulário ridículo enxameado de superstições erigidas em verdades absolutas, provindas de revelações divinas. A verdade artificial da sabedoria eclesiástica encobre a realidade com o espesso véu das elucubrações dos teólogos, modelos de esquizofrenia catatônica e megalomania delirante. A cultura em evolução nas fases anteriores cai na estagnação de um charco de mentiras sagradas, pílulas doiradas de um anestésico.


Interrompe-se o processo cultural. Não se pode conhecer mais nada. Cada Igreja tem a sua verdade própria e inverificável, sendo a Igreja Cristã a mais poderosa barreira a qualquer tentativa de investigação da realidade. A morte cruel é o prêmio dos que se atreverem a rasgar o Véu de Isis para mostrar o corpo da Verdade Nua.

O desenvolvimento da imaginação criadora levara a cultura a um solipsismo devorador. Tudo estava esclarecido, a imaginação dos poetas (considerados profetas) resolvia todos os mistérios em termos de mitologia grega ou tradição romana, os teólogos solucionavam os problemas da vida e da morte com belas frases em latim, as Igrejas detinham a Verdade Absoluta, amaldiçoando-se entre si, e velavam pela ordem cultural perseguindo e matando em nome de Deus os atrevidos que tentassem profanar a Palavra de Deus, escrita na Bíblia por velhíssimos judeus que haviam, num complô com César e seu legado Pilatos, condenado à flagelação e à cruz um jovem carpinteiro que tivera audácia de se apresentar como o Messias de Israel.


A Cultura Científica teve de romper a golpes de atrevimento a selva selvaggia dessa cultura religiosa inconseqüente, contraditória e arrogante, empalhada como um pássaro morto em velhos pergaminhos de uma sabedoria feita de suposições e elucubrações pretensiosas. O mundo dos homens desligara-se totalmente da realidade, fechando-se num casulo de formulações abstratas. Mais bizantina que Bizâncio, Roma sofismava sobre problemas que se recusava a conhecer. Só a ignorância total e a ingenuidade das populações bárbaras poderia aceitar. Após a queda do Império do Ocidente, comprovava-se historicamente a afirmação evangélica de que o ensino de Jesus seria deturpado e necessitaria de tempo para que os homens pudessem compreendê-lo. O milênio medieval teria a função de desenvolver a razão como guia do pensamento e freio da imaginação, ao fogo das tragédias e loucuras de um misticismo criminoso, para que, no Renascimento, os frutos de experiências dolorosas abrissem perspectivas para o desenvolvimento de uma cultura realista, apoiada em pesquisas metódicas da realidade.


Foi então que a esquizofrenia mundial revelou-se em definitivo: o espírito humano estava dividido numa cultura fantasiosa, formada pela dogmática absurda das religiões, e numa cultura rebelde, atrevida e exigente, que arrancava os homens da ilusão de um saber confuso, para oferecer-lhes o saber legítimo que iniciara a fase das
experiências empíricas e se negara a si mesma no desenvolvimento alucinado do fanatismo religioso. O movimento da Reforma, desencadeado por Lutero, em consequência das lutas de Abelardo e das proposições de Erasmo de Roterdã, em conjugação aparentemente ocasional com as tentativas de pesquisas objetivas de Galileu, Copérnico, Giordano Bruno e outros mártires da Ciência nascente, marcavam os rumos de uma nova concepção do mundo e do homem. Abelardo foi o precursor medieval de Descartes, que por sua vez foi o precursor de Kardec. Aos fundamentos emocionais da Fé absurda e cega, os pioneiros do retorno ao real oferecíamos fundamentos da Razão esclarecida e da pesquisa científica. A Verdade ressurgia das cinzas das fogueiras criminosas e a Fé de olhos abertos substituía a ceguinha esclerótica das sacristias.


Mas a luta pela Verdade da concepção cristã restabelecida só atingiria o seu apogeu nos meados do Século XIX, com a Codificação do Espiritismo, através das pesquisas pioneiras de Kardec sobre os fenômenos mediúnicos, hoje admitidos pela Ciência com a denominação de paranormais. Kardec provara que os médiuns não eram anormais, como pretendiam os investigadores da Medicina e da Psicologia, nem sobrenaturais, como pretendiam os defensores de dogmas obsoletos, mas naturais e normais. A Mediunidade se impunha à pesquisa dos cientistas exponenciais da época, que rasgavam ao mesmo tempo o Véu do Templo, revelando os seus mistérios, os Véus de Isis, para desvendar o sentido dos símbolos mitológicos. Os homens começaram então a aprender que não sabiam nada e tinham de lutar para descobrir a Verdade escondida atrás da aparência enganosa das coisas e dos seres. A Ciência Espírita instalou-se no mundo, com as consequências necessárias da Filosofia Espírita e da Religião em Espírito e Verdade. O Espiritismo, em seus três aspectos, está hoje confirmado pela Cultura Científica e seu alcance cósmico se confirma no ritmo acelerado das conquistas culturais do século, restabelecendo o ensino deturpado pelas ambições humanas, que Jesus de Nazaré semeou em palavras de vida e imortalidade nas almas de todos os tempos.

***

Neste dia 11 de setembro, ao completar 40 anos da morte de Salvador Allende gostaria de lhe render uma homenagem, bem como a Herculano Pires. Dois espíritos voltados para o Bem de Todos e tendo a Justiça como um roteiro, uma meta.


Paulo Cesar Fernandes

11 09 2013

20130911 Eu e minhas aldeias

Eu e minhas aldeias


Via um vídeo de Mia Couto, poeta e escritor moçambicano. Em determinado momento ele se referiu a aldeia.


Muito longe do contexto da fala do poeta, uma questão pulou em meu colo: Qual é a tua aldeia?


Sim claro: família, música e filosofia/conhecimento.


Mas apenas isso?


Não estaria eu impondo limitantes ao meu processo de crescimento, na medida em que me faço ilha, e sem pontes de acesso a outras
pessoas?


Mia Couto havia falado em pontes do conhecimento.


Mas seria apenas no conhecimento a necessidade de pontes?


Meu coração não pode abrir pontes aos que fazem parte de minha aldeia? Afinal somos tão poucos. E ilhados nos fazemos mais fracos.


Deves estar te perguntando qual seria minha aldeia.


Pois te digo através de suas siglas: CEAK; LV; ARS; ICKS; CPDoc; SBPE; USE; CRE; Rádio Boa Nova; Renascer; e outras tantas cujo nome me escapa.


Não vou deixar meus músicos, meus filósofos tão queridos, mas posso de alguma maneira retomar um caminho. Uma aldeia da qual me afastei por minha intransigência e minha incapacidade de compreensão e aceitação de outras formas de pensar, sentir e agir.


É difícil fazer autocrítica, mas impossível não faze-la quando a intuição clama forte dentro de nós.


Afinal, como diz León Gieco, poeta e militante argentino, somos todos "do mesmo barro".


Paulo Cesar Fernandes

11 09 2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

20130828 Normal

Normal 1

"Meu caminho pelo mundo.
 Eu mesmo traço.
 A Bahia já me deu, Graças a Deus.
 Régua e compasso."


   Aquele Abraço - Gilberto Gil


Normal. Normal


Afinal que significa isso?


E qual relação tem normal com norma?


Os dicionários da WEB pode ter imperfeições, mas cumprem sua função numa rápida pesquisa. Assim, fui em busca das significações:

Norma
É um termo que vem do latim e significa “esquadro”.
Uma norma é uma regra que deve ser respeitada e que permite ajustar determinadas condutas ou actividades.
No âmbito do direito, uma norma é um preceito jurídico.
Fonte:
http://conceito.de/norma

Normal
1. conforme à norma ou regra
2. que serve de modelo; exemplar
3. regular; habitual; ordinário
Fonte: normal In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-08-28].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/normal



Lembro ainda, em estatística temos a curva da normalidade, ou a curva normal. Dessa forma, as pessoas fora do padrão estabelecido pela sociedade como um todo; ou ao padrão de um determinado agrupamento social, costumamos dizer que "são pessoas fora da curva". Uns por carência, outros por excesso, mas estão fora do
estabelecido padrão.


Em nossa "Sociedade de Consumidores", aquele cidadão desapegado dos bens de consumo, voltado para outras tantas coisas, é seguramente uma pessoa olhada de forma enviesada por seus pares.


Numa roda cujo tema são as novas versões anunciadas de celulares ou outro tópico temático do grupo ele passa ao largo. Deixando
para trás algum comentário:

_ Em que mundo esse cara vive? Faz questão de ser diferente. - anota um.

_ Deve ser um alienado. - arremata outro.


Há uma norma de pensamento para nossa sociedade?


Há um pensamento tido como normal em nosso meio?


A competitividade é uma norma típica do capitalismo. Vencer o outro. Diminuir o outro. Derrubar o outro. São parâmetros tidos por normais nas sociedades onde o capitaliso é vigente. Basta ouvir esses consultores empresariais para tomar conhecimento de variações diversas da mesma ladainha.


Quais os grandes difusores dessa ideologia?


Os Meios de Comunicação de Massa (MCM). Já não mais é uma ideia tão somente, é uma ideologia perpassando todo o
tecido social e adquirindo o status de idéia hegemônica, como queria Antonio Gramsci. E sob o manto da naturalidade se consolida uma forma de pensar como sendo a única possível.


O Professor José Pablo Feinmann da Univ. de Buenos Aires, em suas aulas de Filosofia, diz que ao entrar num taxi naquela metrópole, pelo discurso do taxista, é capaz de dizer qual ou quais as rádios mais ouvidas por esse homem. Segundo Feinmann as pessoas "são pensadas" pelos MCM, abrindo mão de sua capacidade de analisar autonomamente cada momento político, cada conflito apresentado pela sociedade; cada assunto da ocasião.


Enquanto espírita, vejo tal atitude como a morte da individualidade enquanto tal. O espírito se soma na massa acrítica e vive. De uma maneira ou de outra vive. Mergulhado na mais profunda materialidade/materialismo, mas vive suas alegrias e suas tristezas; seus sucessos e seus insucessos.


Mas será uma vida produtiva? Quando questiono penso na produtividade proposta por Erich Fromm em "Psicanálise da Sociedade Contemporânea" e "A arte de amar".


Estamos na vida/encarnação para consumir produtos e ideias enlatadas? Para engrossar a fileira dos "normais"?


Esse é o sentido buscado na encarnação? Pensando mais amplo. Para isso serve a existência do espírito?


Ou, muito pelo contrário, nosso objetivo é o desenvolvimento de nossas capacidades nos mais amplos ramos do conhecimento e da ética? Sob o manto da mais profunda Liberdade. Uma Liberdade capaz de fazer eclodir toda nossa criatividade; e, em decorrência disso sermos nós algo mais felizes.


Nada de pensar a felicidade como algo distante e inatingível. Ela é para ser vivida Aqui e Agora. Na imediaticidade do tempo. Criando somos felizes.


Tenho proposto:


LIBERDADE como condição da CRIATIVIDADE, desta decorrendo a FELICIDADE.


Uma fórmula simplória, humilde mesmo, mas empaca exatamente em seu ponto inicial. As pessoas tem medo da Liberdade, pelo custo do compromisso consigo mesmo e com a sociedade na qual o espirito está inserido.


Para ser livres perdemos algumas coisas, mas ganhamos outras tantas. A meu juízo mais importantes e mais significativas para nossa existência, essa mesma capaz de ultrapassar os limites do túmulo se espraiando no tempo.


Precisa coragem para ser livre.


Na ótica da imortalidade do espírito vale a pena apostar na busca da Liberdade.


Se o espiritismo não cumprir a função de tornar o espírito cada vez mais livre, e cada vez mais senhor de si, por certo o espiritismo não cumpriu sua função na face da terra.


Somos seres incompletos. Apenas chegaremos à completude, através da Liberdade oportunizada pela compreensão mais profunda de toda a Obra de Allan Kardec.


Paulo Cesar Fernandes

28 08 2013

1. Reflexões nascidas do artigo "Apreciações sobre Normose" de Vinicius Lousada. Publicado no Jornal "Opinião" nº 210 Agosto de 2013.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

20130821 Quando

Quando


Quando nada temos, é quando mais possuímos.


Despojados de tudo e de todos, nos vemos libertos de todas as coisas.


Nada nos ata senão as mais livres decisões do espírito imortal, ou do espírito da natureza, a nos habitar a cada novo amanhecer.


Quando nada temos é quando mais valores adquire nossa vida e nossa existência. Por incrível possa parecer, ganhamos mais a cada perda.


Perdemos a vaidade? Ganhamos.


O orgulho se foi? Ganhamos.


Não mais ilusões? Ganhamos.


Quando nada temos, é quando mais claramente nos vemos. O nosso espelho fica clarividente e nos mostra tal qual somos, em nossa grandeza; e, ai de nós, em todas as nossas mais torpes características.


Quando nada temos, é quando iniciamos o caminho de perder o burguês dentro de nós; de perder os valores tão humanos como a
ira, o ódio, a primitividade, a grosseria.


Quando nada temos. É o primeiro momento em que realmente Somos.


Paulo Cesar Fernandes

21 08 2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

20130819 Saber e viver

Saber e viver

"A palavra do Cristo habite em vós, ricamente..."
Paulo aos Colossenses 3:16



E basta que a palavra habite em nós?


Que saibamos de cor cada passagem do nazareno pela terra?


O que disse aos publicanos? Aos seus discípulos nas horas finas?


Conhecer a obra de um filósofo qualquer de nada vale se isto não tem impacto em nós, na nossa emoção, nas nossas mais
pequeninas atitudes. Seríamos enciclopédias ambulantes a maltratar a todos ao nosso redor.


"O homem se define por seus atos." Tenho afirmado já de algum tempo com insistência renovada a cada período.


O espiritismo não presta se não mudar o homem? A mensagem de Jesus foi inútil se não mudar o homem?


Muito pelo contrário. O homem é o incapaz de lhes absorver e vivenciar os conceitos. Em todos os lugares e em todas as
instituições encontramos mulheres e homens dignificantes daquele lugar ou daquela instituição. Por seu desapego, por suas atitudes
benevolentes, por tudo de bom retirado de sua alma em prol dos semelhantes.


Nada se pode exigir em nosso estáfgio evolutivo. Somos seres em formação.


Mas se queremos a paz de espírito, se torna imperioso melhor cuidar de nosas atitudes. Viver de forma normal e agir
concordantemente com tudo aquilo que a Vida bopndosamente colocou em nossas mãos para nosso aprendizado.


Um dia. Sem dar-nos conta, estamos algo diferente. E assim vai ocorrendo, de pouco em pouco. Com nosso esforço e constante
vigilância.


Em tudo a Vida nos pede movimento. Muito mais na construção do Bem Maior ao nosso redor.


Paulo Cesar Fernandes

19 08 2013

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

20130812 Eu, como franciscano

Eu, como franciscano

É significativo o fato de Francisco de Assis, segundo consta, teria sido três vezes chamado por Jesus a reconstruir sua igreja.



Não compreendeu de inicio, até um dia cuja mente mais lúcida lhe deu a perceber a significação da reconstrução interior da Igreja, pedida por Jesus.

 
Muitos franciscanos do mundo atual ainda pensam a reconstrução partindo da materialidade. À medida, porém da absorção da mensagem franciscana na sua essencialidade isto cai por terra. Lhe restando a reconstrução mais árdua: a individualidade.

 
Na exterioridade tudo é muito simples; mas fazer coo Francisco e tomar para si a mensagem do Nazareno, e vivê-la, é algo muito mais complexo, quase impraticável.

 
Impossível, se o tentarmos sem deixar a materialidade dos nossos atuais tempos. Mas, ao tomarmos para nós novos parâmetros para nossa vida fica algo mais possível. Afinal, temos diante de nós toda a eternidade, sendo o tempo o nosso grande aliado.

 
Dessa maneira a tarefa se torna plausível, executável.

 
Velhos hábitos caem.

 
Ilusões se desfazem no ar.

 
Nova vida tem início. Não necessariamente eclesiástica, mas militante. Individual e interiormente militante.

 
Mais difícil que a Teoria da Relatividade de Eistein? Talvez seja.

 
A Einstein não foi imposta a solidão. E o primeiro obstáculo daquele convertido a uma vida simples, verdadeiramente franciscana é a solidão. O abandono dos mais próximos.

 
Um vazio imenso ao seu redor.

 
Os próprios familiares de Francisco de Assis não lhe deram apoio. Apenas Clara, na sua singeleza e bondade compreendeu o coração de Francisco, devotando incondicional apoio. Mas tão logo se viu só, foram surgindo os adeptos da mesma caminhada, e foram crescendo dentro das linhas do Cristianismo Primitivo. Poucos porém firmes em seus propósitos.

 
Afinal convenhamos. O despojamento total não é muito atrativo em nenhum momento da História dos Povos. Muito menos nos dias de hoje pautados pelo materialismo, pelo poder, pelo sucesso nos Meios de Comunicação e pela sensualidade, como as coisas mais importantes da vida. Basta ver os olhos das pessoas diante das vitrines onde se apresentam as Novas Tecnologias.

 
Muitos podem pensar ser o desinteresse por todas essas coisas, nada mais nada menos que uma patologia. Em mim, tem muito a ver com minha trajetória ideológica.

 
Mas a paz, advinda dessa despojada postura, me esclarece ser apenas um outro caminho; nem melhor e nem pior que o anterior; tão somente diferente.

 
Diferente e respeitável pela naturalidade de sua chegada em minha existência. Fatos se foram somando e me demovendo de posturas fixas e até ortodoxas no campo das ideias de espiritualidade. Via tão somente um caminho. E, na verdade são tantos e tantos os caminhos do homem a si mesmo.

 
Hoje dois únicos aspectos mobilizam minha análise. Seja com respeito aos meus atos, como aos atos dos meus semelhantes:



1.      A sinceridade neles contida;

2.      Seu potencial de contribuição ao Bem Geral; Bem Maior; isto é: o Bem de Toda a Humanidade.

 
Mesmo um pequeno ato tem um potencial amplo, e não conseguimos saber sua extensão, e isto não nos devem preocupar. Se nossa sensibilidade nos aponta a oportunidade de fazer o Bem sigamos para a ação. Sempre equilibrando Razão e Sentimento.

 
Se o mundo hoje já conta com grande contingente de espíritos voltados para o Mal. Nem que seja por brincadeira, birra, ou para ser do contra, vamos nos voltar para a Militância no Bem.

 
Isto. Desconsiderando por completo as opiniões alheias acerca de nossa opção de vida.

 
Quem se pauta pela Lógica Capitalista jamais entenderá a Razão e a Lógica Socialista Radical.

 
Assim. Servir é a palavra. Mas não um servir religioso, piegas, e humilhante ao que recebe os benefícios. Nada disso. Um serviço de linearidade. Onde o que serve e o servido se olham nos olhos num completo sentido de igualdade. Em nenhum momento a humilhação se faz presente. Um encontro entre iguais.

 
Servir é para espíritos fortalecidos em si mesmo. Capazes de enfrentar suas limitações, toda a sociedade, e por fim a morte se for preciso.

 

Paulo Cesar Fernandes

12 08 2013

sábado, 10 de agosto de 2013

20130810 Aparições

Aparições


E, pouco a pouco vamos fazendo nossas aparições no mundo.


Quando digo aparição me refiro ao ato de benevolência ou benemerência por nós praticado.


Na generalidade somos desatentos a isto. Vivemos, e isto nos basta.


Um dia porém, sem saber a razão, sentimos energias acumuladas e, raciocinamos da necessidade de partilha. De doar algo a alguém dessa energia tão nossa.


Esta pode ter o nome de afetividade: de conhecimento: de necessidade de servir; ou ser útil a alguém além de nós.


Transpassar a fronteira do Ego. Ir além. Abrir nossa racionalidade e nosso coração a nossos semelhantes.


Por vezes buscamos mentes e corações sedentos de algo mais, mas os buscamos em lugar errado. Perdemos nosso tempo e energias. Nos cabe esperar.


O fruto apenas madura na estação a ele reservada, e no momento exato. Toda tentativa de alterar isso lhe tira a maior qualidade: o sabor.


Momentos da vida também tem seu sabor. Mas para isso é imperioso não trazer para mais cedo esse momento, e nunca deixar de estar aberto se este nos aparecer.


Somos todos lavradores da vida, e trazemos sementes para saciar a fome de quantos se nos estejam ao redor. Cabendo-lhes a semeadura e cuidados necessários.


Se o tempo chegou. Tenhamos as mãos prontas e o coração apto ao serviço.


Essa é a aparição, capaz de nos elevar acima do que fomos, e abrir caminhos mais amplos a outras tantas aparições.


Paulo Cesar Fernandes

10 08 2013

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

20120107 Uma questão de tamanho

Uma questão de tamanho?



Não sou pequeno. Não sou um nada.

Mas me ponho a refletir acerca de tudo aquilo que nos cerca; no âmbito material, bem como no imaterial; nas coisas tangíveis/visíveis, ou nas intangíveis/invisíveis. Apercebo-me do meu real valor, sua pequenez e relatividade ante o todo.

É uma postura de humildade. Mas nego a humildade piegas e autoritária das religiões e dos espíritos que supostamente nos vem ajudar. A humildade a que me submeto é pautada na Razão de alguém capaz de olhar o universo ao seu redor (ou os universos); saber de sua possibilidade de expansão; e ter em conta a impossibilidade de abarcar todo o conhecimento, uma vez que este tem contínuo crescimento.

Um filme de Woody Allen mostra o desespero da mãe cujo filho se nega terminantemente a voltar à escola. Seu raciocínio é simples e cristalino:

_ Se vou à escola aprender e aprendo tudo bem, mas o que aprendo é um nada na medida em que o crescimento do universo suscita novos conhecimentos que a escola não dá conta.

Diante da mãe e do Coordenador da Escola espantados, é categórico:

_ Não vou mais à escola.

Não me nego a novos conhecimentos, até porque, curioso nato, isso seria a morte intelectual, me restando apenas a vida vegetativa. Mas me defronto com o desafio do constante crescimento do que há a conhecer.

Desenvolvi desde a juventude uma metodologia, que se não dá conta cabal do problema, atende até certo ponto. Pinçar um ou dois tópicos, e neles mergulhar por um período, até que sinta saciada a necessidade/sede de melhor conhecer tal/tais assuntos.

Foi com surpresa e contentamento que assistindo uma entrevista do cantor pernambucano Otto, pouco conhecido, pois está fora do circuito dos Meios de Comunicação dominantes; quando o repórter se referiu a determinado ano em que uma obra sua teria sido publicada Otto responde:

_ Não, não. Nesse período a que você se refere, eu estava focado completamente nas Raízes Ibéricas da Música Nordestina.

Esse fato me despertou a atenção, fez cair a ficha do fato de muitas pessoas poder usar o mesmo método, a mesma forma de agir, com relação à determinada área de conhecimento a desbravar.

Mergulhando a fundo num tema, vai se apropriando pouco a pouco de algo mais da imensidão do conhecimento com o qual nos defrontamos. Sendo impossível, abarcar a totalidade, uma vez ser esta expansível.

Tenho dúvida se é mesmo um método, ou alguma forma de obsessividade. Retomo a tranqüilidade, ao pensar que por muitos anos já me vejo livre da obrigatoriedade de alguma coisa. O tormento da frase: “Tenho que ...” sempre causadora de amarras às quais me submetia, causadoras de tensão, ansiedade e frustração.

Agora não “Tenho que ...” mais nada.

Vinha bem no primeiro semestre de 2011, escrevendo, lendo bem.

Já o segundo semestre chegou me trazendo uma série de dificuldades e aborrecimentos. O tipo de clima mental incapacitante da expansão da criatividade; além do abalo ao sossego necessário a qualquer trabalho de cunho intelectual, que simplório seja, requer certo equilíbrio.

As coisas deram uma paralisada. Ficaram no que em informática chamamos de “wait status” (estado de espera). Muitas vezes necessário, como foi o caso.

Sem problema, fui me dedicando a outros aspectos da vida até que tudo se normatizou e a vontade de escrever se recompôs.

Por vezes encontro uma amiga, ex-aluna na universidade onde trabalhei e ela, fazendo mestrado na área de saúde da UNIFESP me incentivou a tentar fazer mestrado na área de psicologia.

Da primeira vez que a ouvi falar me chegou certo animo. No caminho do almoço para casa já ia ponderando o número de “Tenho que ...” que haveria de enfrentar novamente. A tranqüilidade que perderia. E a idéia se diluiu por completo no período de uma hora.

Preferi seguir focado no meu interesse em desvendar a PósModernidade. São muitos os autores, muitas as vertentes de pensamento, um instigante universo que me traz muito prazer mesmo.

Principalmente um autor polonês, nascido em 1925 e que mantém uma lucidez inacreditável. Seu nome é Zygmunt Bauman. Anotem esse nome. Sua análise sociológica, que no início nos parece difícil, em algumas páginas já vai se abrindo à nossa compreensão. A leitura de uma segunda obra desse autor clareia tudo. Realmente fascinante compreender o mundo atual, e os Tempos Líquidos aos quais ele se refere. Nossas perguntas sobre o nosso tempo têm ali uma série de respostas capazes de nos satisfazer a curiosidade plenamente.

Ler Bauman é um convite a ler mais Bauman, e não faltam obras a essa fértil inteligência.

Mas o sem fim do conhecimento não se restringe a Bauman, longe disso está. E tampouco me mete medo. Pois como bem diz o cantor Jorge Bem, quando ainda assim se chamava: “...pois eu só ponho meu chapéu aonde eu posso apanhar.” Deixar de lado o que está fora do foco e fazer o possível para avançar no projeto a que se está dedicando.


Com isso aproveitamos o tempo, e agregamos alegria e conhecimento, mesmo inseridos na conturbação desta PósModerna vida.


Paulo Cesar Fernandes

07/01/2012

20110816 Liberdade para viver

 
Liberdade para viver

 

Quem não tem medo da morte ?


Questão que pega a todos nós, cada qual por seu motivo. O próprio reino animal, sem a possibilidade do pensamento contínuo, já apresenta tal medo em todas as espécies. Presente que está no instinto de sobrevivência.


Digo isto, para que o leitor perceba o quanto este medo é natural, o quanto este faz parte das Leis Naturais. Não é natural, no entanto, quando este medo se torna de tal forma forte que passe a ser um impeditivo à vivência plena do homem. Cabendo-lhe gerenciar tal medo e mantê-lo no patamar da naturalidade, o único aceitável.


Tal temor tinha justificativa, quando nossa educação se baseava na idéia de um céu ou de um inferno. Quando as concepções religiosas buscavam estabelecer como pecado tudo aquilo que faz parte da natureza humana. O homem vivia, e nessa vivência agia naturalmente como não poderia deixar de ser. Sendo essa naturalidade atacada pelas religiões o homem se via diante de diversos dramas de consciência.


Na Idade Média a salvação do homem apenas se daria através da fé. O homem era refém da Igreja a quem servia sob a égide do pavor.


Ao homem cabiam apenas duas alternativas : o se deixava levar pelo medo do futuro, negando-se a viver; ou negava a continuidade da vida, aderindo ao ateísmo e ao materialismo, como filosofia de vida.


Quantos sofrimentos não teriam sido evitados se naquela época, as época medieval já tivessem vindo a lume os conceitos libertadores do Espiritismo?

 
À medida em que a civilização avança no entanto, se ampliam as concepções, e o espaço para a divulgação da idéia de pecado passa a ser exíguo, beirando o limite do ridículo, hilário. Algo não digno de atenção, pois tal discurso ignora os anseios mais profundos do espírito: a busca de uma vivência plena aliada à sua necessidade de transcendência.


As religiões, ao se aliarem ao poder temporal acabaram por deixar de lado sua maior tarefa como condutoras de almas. O medo não conduz, emperra caminhos.



O Espiritismo bem compreendido, e os desdobramentos éticos de tal compreensão, acaba por cumprir o papel de condutor de almas, não naquela ótica de uma verdade pronta e definitiva, porém como um conjunto de idéias que implicam numa revisão de nossa conduta, reorientando nossa prática no sentido da libertação.


A liberdade amplia nosso senso de justiça, implicando num deslocamento dos nossos focos de interesses para um melhor trato com os nossos semelhantes, com a sociedade e principalmente conosco mesmos.


As informações trazidas pelos espíritos a Kardec são um grande incentivo, porém o movimento real é de dentro para fora, é algo fortemente estruturado numa decisão interior. Decisão de se orientar segundo a construção de sua própria racionalidade. Abolindo o pensamento alheio como condutor de nossas existências.


É de Jesus que “se um cego orienta outro cego, caem os dois no abismo”.



Os pensadores são muitos, as idéias variadas, pobre daquele que elege outra pessoa para gerenciar o fluxo dos conceitos norteadores da sua existência. Será criança intelectual. Incompetente de se autogerir.


“Pensar pela própria cabeça” segundo Giorgio Gaber, grande cantor e autor italiano, essa é a fúrmula dada a todos nós, isto para que não tenhamos medo ou preguiça para ser autônomo e principalmente livre.


Todos buscam a felicidade. Mas ninguém estabelece um caminho para chegar a essa meta tão almejada.


Venho estabelecendo uma trilogia que me parece adequada a essa trajetória:


Liberdade       »»        Criatividade    »»        Felicidade


Liberdade:

A primeira etapa é a mais difícil. Todo o contexto social nos leva a tolher nossa liberdade. A família castra. Todas elas, de uma forma ou de outra acabam castrando o espírito em formação, até porque não capazes em sua grande maioria de perceber as qualidades e as características do reencarnante. Poeta? Cientista?  Marceneiro, um artista em seu mister?


Não. Médico. Advogado. Cirurgião Dentista. Veterinário. Fecham o ciclo de possibilidades ao espírito.



_ Ator? Músico? Voce está maluco. Devem ser essas suas companhias. Só me faltava ser bailarino.


_ Mas no Curso de Teatro temos aulas de Ballet para soltar o corpo...


O pai inculto sai bufando sala afora.




Criatividade:

Absolutamente toda atividade permite ao homem a possibilidade de se perguntar alguma vez na vida:


_ Será que eu preciso fazer isto sempre desta forma? Deve ter um outro jeito de ordenar esta rotina, que me poupe trabalho e me traga maior prazer. Mesmo no âmbito de uma biblioteca onde algumas rotinas já se desenvolveram.



Pensando... Pensando... Pensando... Voilá!!!



E algo é rerotinizado. Quando o grupo é coeso e minimamente inteligente, todos se alegram com a modificação criativa.


A grande questão é não ter preguiça e sempre se perguntar: “E se eu fizesse diferente? O que de novo sou capaz de pensar? Os norte-americanos se valem de uma expressão muito significativa: “And IF...?” que significa “ E se ....?”



E se eu pensar diferente? E se eu viver diferente? E se eu me despojar de todas as convenções sociais e mergulhar fundo no universo da plena liberdade?




Felicidade:


É decorrência natural dos dois itens anteriores.


Usei a profissão como exemplo mas em todos os aspectos da existência humana a liberdade pode ser nossa condutora.


Em certo sonho uma moça de lindo rosto, talhado de maturidade me conduzia por caminhos por mim desconhecidos.


Em principio pensei na possibilidade dela representar minha incapacidade de compreensão da mulher. Mas isso não se coadunava com a sensação de alegria e plenitude encontradas ao final do caminho.



Agora compreendo que aquela bela moça meiga, porém madura era a personificação da liberdade que só muito recentemente incorporei em minha existência.



Sem religião, sem gurus, sem pensadores que pensem por mim, contando com quase ninguém para compartilhar conhecimentos, mas como diz Wolfgang Ambroz no título de seu LP “Abandonado, mas livre!”.



Assim é, pois nossa liberdade incomoda as pessoas.



Paulo Cesar Fernandes


16/08/2011

 

Nota: Até esta data eu não estava convicto da inexistência de Deus.