domingo, 13 de outubro de 2013

20131013 Massacre da noite de São Bartolomeu


Quando temos “a verdade” e a ortodoxia somos capazes de atrocidades.

Não basta a tolerância, é necessário acolher os diferentes como o outro lado de nós mesmos.
 
Gilberto Gil numa das músicas do CD Quanta fala dessa Noite Tenebrosa.

Veja o fato a seguir:

**********
 
Massacre da noite de São Bartolomeu

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

 
O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu, foi um episódio sangrento na repressão aos protestantes na França pelos reis franceses, que eram católicos.

Esses assassinatos aconteceram em 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu.1

Histórico

As matanças, organizadas pela Casa real francesa, começaram em 24 de Agosto de 1572 e duraram vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas. Números precisos para as vítimas nunca foram compilados,2 e até mesmo nos escritos de historiadores modernos há uma escala considerável de diferença,3 que têm variado de 2.000 vítimas por um apologista católico, até a afirmação de 70.000, pelo contemporâneo apologista huguenote duque de Sully, que escapou por pouco da morte.4 5

Este massacre veio dois anos depois do tratado de paz de Saint-Germain, pelo qual Catarina de Médici tinha oferecido tréguas aos protestantes.[carece de fontes?]

Em 1572, quatro incidentes inter-relacionados têm lugar após o casamento real de Marguerite de Valois, irmã do rei da França, com Henrique de Navarra, (chefe da dinastia dos huguenotes) uma aliança que supostamente deveria acalmar as hostilidades entre protestantes e católicos romanos, e fortalecer as aspirações de Henrique ao trono. Em 22 de Agosto, um agente de Catarina de Médici (a mãe do rei da França de então, Carlos IX de França, o qual tinha apenas 22 anos e não detinha verdadeiramente o controle)1 , um católico chamado Maurevert, tentou assassinar o almirante Gaspar II de Coligny, líder huguenote de Paris, o que enfureceu os protestantes, apesar de ele ter ficado apenas ferido.[carece de fontes?]



Nas primeiras horas da madrugada de 24 de agosto, o dia de São Bartolomeu, dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série coordenada de ataques planejados pela família real.6


Este foi início de um massacre mais vasto, apesar do rei ter enviado mensageiros às províncias para manter os termos do tratado de 1570.7 Começando em 24 de Agosto e durando até Outubro, houve uma onda organizada de assassínios de huguenotes em doze cidades francesas, como Toulouse, Bordéus, Lyon, Bourges, Ruão, e Orleães.7

Relatos da quantidade de cadáveres arremessados nos rios afirmam uma visível contaminação, de modo que ninguém comia peixe, pelas condições insalubres do local.1

Não foi o primeiro nem o último ataque massivo aos protestantes franceses, outros ataques ocorreriam.1 Embora não o único, "foi o pior dos massacres religiosos do século".8 Por toda a Europa, "imprimiu nas mentes protestantes a indelével convicção que o catolicismo era uma religião sanguinária e traiçoeira." 9
 

Reações ao massacre



Os Politiques ficaram horrorizados, mas diversos católicos dentro e fora da França consideraram os massacres, ao menos inicialmente, o lavamento de um iminente golpe de estado huguenote. A cabeça cortada de Coligny foi aparentemente enviada ao Papa Gregório XIII, apesar de não ter ido mais longe do que Lyon, e o Papa Gregório XIII enviou ao rei a condecoração da Rosa de Ouro10 O Papa encomendou um Te Deum para ser cantado em ação de graças (uma prática que persistiu em anos seguintes) e uma medalha foi cunhada com a fraseUgonottorum strages 1572 mostrando um anjo empunhando uma cruz e uma espada perto dos protestantes mortos.11

 

Na literatura e na dramaturgia

A história foi relatada por Alexandre Dumas em sua obra A Rainha Margot, um romance de 1845, historicamente acurado, apesar de Dumas ter inserido tons de romantismo e aventuras em seu texto. O romance de Dumas foi adaptado ao cinema em 1994, em A Rainha Margot ("A Rainha Margot"), de Patrice Chéreau.

O massacre já tinha sido representado no cinema por D.W. Griffith no filme mudo Intolerance ("Intolerância"), de 1916.

Também contada pelo escritor Michel Zevaco (Autor francês, nasceu em Ajaccio, em 1860 na mesma cidade de Napoleão Bonaparte cem anos depois, conhecedor profundo da Historia Francêsa Medieval e Renascentista) no romance inicial Os Pardaillans, onde ele era mestre em ficção dentro da realidade.

Para os espíritas o massacre é relatado com destaque em duas obras: A Noite de São Bartolomeu12 e Ecos de São Bartolomeu13 . Allan Kardec traz o artigo Os Gritos da Noite de São Bartolomeu14 na Revista Espírita de setembro de 1858 sobre o tema.

Referências

1.         ↑ Ir para: a b c d Max Altman; Oliver Ramme (24 de agosto de 2010). Hoje na História: 1572 - Massacre da noite de São Bartolomeu aterroriza a França (em português). UOL. Opera Mundi. Página visitada em 24 de agosto de 2012.


3.         Ir para cima ↑ Armstrong, Alastair (2003), France 1500-1715, Heinemann, pp. 70-71 ISBN 0-435-32751-8

4.         Ir para cima ↑ Saint Bartholomew’s Day, Massacre of (2008) Encyclopaedia Britannia Deluxe Edition, Chicago;

5.         Ir para cima ↑ DW-World. Página visitada em 13 de outubro de 2008.

6.         Ir para cima ↑ Holt, Mack P. (2005). The French Wars of Religion 1562-1626, Cambridge University Press. Books

7.         ↑ Ir para: a b Holt (2005 ed.), p. 91

8.         Ir para cima ↑ H. G. Koenigsberger, George L. Mosse, G. Q. Bowler (1999), Europe in the Sixteenth Century, Second Edition, Longman ISBN 0582418631 (em inglês)

9.         Ir para cima ↑ Chadwick, H. & Evans, G. R. (1987), Atlas of the Christian Church, Macmillian, London, ISBN 0-333-44157-5 hardback, p. 113

10.      Ir para cima ↑ Fisher, H.A.L. (1969, ninth ed.), A History of Europe: Volume One, Fontana Press, London, p. 581

11.      Ir para cima ↑ Lindberg, Carter (1996), The European Reformations Blackwell, p. 295

12.      Ir para cima ↑ A Noite de São Bartolomeu, romance de J. W. Rochester/Wera Krijanowsky, editora Boa Nova, ISBN 8586470112.

13.      Ir para cima ↑ Ecos de São Bartolomeu, livro biográfico de Luiz Antônio Millecco Filho, editora Lachâtre, ISBN 8586081698.

14.      Ir para cima ↑ Allan Kardec (Setembro de 1858). Os Gritos da Noite de São Bartolomeu (em português). Revista Espírita. O mensageiro. Página visitada em 24 de agosto de 2012.

 

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Fonte: http://www.zun.com.br/noite-de-sao-bartolomeu-na-franca/



Chamado especificamente de Massacre da Noite de São Bartolomeu, foi um acontecimento ocorrido nos dias 23 e 24 de agosto de 1572, na cidade de Paris e recebeu este nome por ter sido um incidente sangrento dos católicos contra os huguenotes – grupo de defensores calvinistas da França, que aconteceu justamente no dia de São Bartolomeu. Este massacre causou centenas de mortes, sendo os cadáveres lançados nos rios, por esse motivo a população não se alimentava de nada que vinha das águas, conheça a história da noite de São Bartolomeu.

 

História


A morte do povo huguenotes, foi preparada pela Casa Real Francesa, iniciado no mês de agosto, estendendo-se até outubro, começando por Paris e seguindo para as demais cidades da França, como Toulouse, Bordéus e Lyon, exterminando cerca 100 mil protestantes.

No ano de 1572, depois do casamento de Marguerite de Valois, irmã do rei francês Carlos IX, com Henrique de Navarra, líder dos huguenotes, foi criado um acordo entre os católicos e protestantes, para que a rivalidade entre eles pudesse se acalmar e fortificar o reinado de Henrique. Porém, no dia 22 de agosto, um católico chamado Maurevert, que tinha o cargo de agente e obedecia as ordens de Catarina de Médici – mãe do rei francês, tentou matar Gaspard de Coligny – chefe dos huguenotes em Paris, não conseguiu, porém esse fato gerou muita raiva em todos os protestantes. Na madrugada do dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, o ataque começou em que muitos huguenotes foram surpreendidos e assassinados a mando da família real.

A história da noite de São Bartolomeu já foi relatada por vários escritores, como no livro: A Rainha Margot – Alexandre Dumas, também em filme nos cinemas e até em citação em canções.

DW  -  Deutsch Welle
1572: A Noite de São Bartolomeu

Noite de 23 para 24 de agosto de 1572: os sinos da catedral de Saint Germain-l’Auxerrois fizeram o prenúncio do dia de São Bartolomeu – um mártir.



Na Noite de São Bartolomeu de 1572, os católicos massacraram os huguenotes na França. Somente em Paris, três mil protestantes foram exterminados nessa noite. A violência estava espalhada por todo o país, o número de huguenotes mortos foi de dezenas de milhares.
 

Poucos dias antes, era calmo o ambiente na capital. Celebrara-se um matrimônio real, que deveria encerrar um terrível decênio de lutas religiosas entre católicos e huguenotes. Os noivos eram Henrique, rei de Navarra e chefe da dinastia dos huguenotes, e Margarida Valois, princesa da França, filha do falecido Henrique 2º e de Catarina de Médici.

Margarida era irmã do rei Carlos 9º. Alguns milhares de huguenotes de todo o país – a nata da nobreza francesa – foram convidados a participar das festas de casamento em Paris. Uma armadilha sangrenta, como se constataria mais tarde.

 
Casamento sobre o Sena

 
A guerra entre católicos e protestantes predominou na França durante anos, com assassinatos, depredações e estupros. E agora, um casamento deveria fazer com que tudo fosse esquecido?

 
O casamento não foi realizado na catedral. O noivo protestante não deveria entrar na Notre Dame, nem assistir à missa. Diante do portal ocidental da catedral, foi construído um palco sobre o rio Sena, no qual celebrou-se o casamento. Margarida não respondeu com um "sim" à pergunta, se desejava desposar Henrique, mas fez simplesmente um aceno positivo com a cabeça. Como era comum na época, o casamento tinha motivação exclusivamente política.


No século 16, o maior esteio da França não era o rei, mas sim a Igreja. E ela estava inteiramente infiltrada pela nobreza católica. Uma reforma do clero significaria, ao mesmo tempo, o tolhimento do poder dos príncipes. Assim, a nobreza – tendo à frente os Guise – buscava a preservação do status quo.
 

Casamento forçado seguido de atentado

Os Guise – a linhagem predominante na França – observavam com profunda desconfiança a cerimônia ao lado da Notre Dame. O casamento foi realizado por determinação da poderosa rainha-mãe Catarina de Médici – uma mulher fria, detentora de um marcante instinto de poder.

Poucos dias depois da cerimônia, almirante Coligny sofreu um atentado em rua aberta.

O líder huguenote teve apenas ferimentos leves. Ainda assim, os huguenotes pressentiram uma conspiração. Estava em perigo a trégua frágil, lograda através do casamento. Por trás do atentado, estavam os Guise e Catarina de Médici.

O casamento era parte de um plano preparado a longo prazo. Carlos, o rei com olhar de louco, ficou furioso ao saber do atentado a Coligny, que era seu conselheiro e confidente. Os católicos espalharam então o boato de que os huguenotes estavam planejando uma rebelião para vingar-se do atentado.
 

Começa o plano diabólico

O rei Carlos foi pressionado por sua mãe, Catarina. Carlos vacilou, ficou inseguro. Mas cedeu, finalmente, e ordenou a execução de Coligny. E exigiu, de repente, um trabalho completo: não deveria sobrar nenhum huguenote que pudesse acusá-lo posteriormente do crime.

Coligny foi assassinado com requintes de crueldade na noite de São Bartolomeu. Com ele, milhares de pessoas que professavam a mesma fé.

Henrique de Navarra sobreviveu à noite de São Bartolomeu nos aposentos do rei, que tinha dado a ordem para o massacre. Henrique teve de renegar a sua fé e foi encarcerado no Louvre. Quatro anos mais tarde, ele conseguiu fugir. Retornou ao seu reino na Espanha e, anos depois, subiu ao trono francês.

Henrique, que permaneceu católico, mas irmão espiritual dos huguenotes, concedeu-lhes a igualdade de direitos políticos através do Édito da Tolerância de Nantes. Uma compensação tardia para os huguenotes. Henrique defendia a coesão do país: "A França não se dividirá em dois países, um huguenote e outro católico. Se não forem suficientes a razão e a Justiça, o rei jogará na balança o peso da sua autoridade."

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

20131010 A trama do Professor

A trama do Professor


Este texto de Herculano Pires foi de difícil leitura.


Em diversos trechos sua postura era de alguém pensando mesmo antes da década de setenta.


De lá para cá o pensamento de parte dos espiritas teve um salto de qualidade, seja pelo seu padrão cultural, seja por atingir uma forma de pensar não sectéria e mais despojada de toda ortodoxia. Nem Kardec foi ortodoxo em suas obras, sabia ser afirmativo sem imposições, sempre resguardando a posição dos espíritos.


Aqui Herculano cai na esparrela da "Lei de Ação e Reação" uma questão sem cabimento no transcurso ético do espírito. Dentro das Ciências Exatas tal proposição é cabível. No concernente ao destino do homem é uma baboseira total.


Peço ao leitor uma análise muito crítica do texto a seguir. Caso concorde plenamente com Herculano Pires me perdoe pelo tempo que lhe tomei, caso venha a divergir peço que deixe suas considerações no espaço reservado aos COMENTÁRIOS. Adiante:


***

A Trama de Ações e Reações na Vida Humana


Problema intrigante para muita gente é das ações e reações de indivíduos e de grupos humanos em face da teoria do livre-arbítrio.


Há quem não consegue entender essa duplicidade contraditória, perguntando como podemos ser responsáveis por atos que já estavam determinados em nosso destino. Fala-se no Karma, palavra indiana de origem sânscrita, como de um fatalismo absoluto a que ninguém escapa. A palavra Karma não pertence à terminologia espírita, mas infiltrou-se no meio espírita, através das correntes espiritualistas de origem indiana por dois motivos: o seu aspecto misterioso e a vantagem de reduzir ao mínimo a expressão lei de ação e reação. Não há nada de prejudicial nessa adaptação prática de uma palavra estranha, cujo conceito se adapta perfeitamente à expressão espírita. O prejuízo aparece quando certas pessoas pretendem que a palavra mantenha entre nós o seu significado conceitual de origem, modificando o sentido do conceito
doutrinário. Segundo o Espiritismo, ação e reação dependem da consciência. A responsabilidade humana decorre das exigências conscienciais e está sempre na razão direta do grau de desenvolvimento consciencial das criaturas. Por outro lado, esse desenvolvimento depende das condições de liberdade e do grau de opção de que ascriaturas dispõem. Justamente por isso o problema, que parece simples à primeira vista, torna-se bastante complexo quando o examinamos.


Nas fases inferiores da evolução, em que o princípio inteligente passa por ações e reações destinadas a desenvolver as suas potencialidades, a ação da lei é natural e automática. Não existe ainda a consciência individual coletiva responsável; nas fases seguintes, até ao plano dos animais superiores e dos antropóides, a consciência está ainda em formação; mas ao iniciar-se a humanização, quando o espírito recebe, segundo a bela expressão de A Gênese, de Kardec – quando Deus põe o seu selo na fronte do indivíduo, com a auréola da Razão – este e o grupo começam a assumir a responsabilidade dos seus atos e pensamentos. Este princípio não se refere apenas a essas fases iniciais, mas estende-se a todo o desenvolvimento humano, como vemos em diversas passagens evangélicas, como na resposta de Jesus aos fariseus: “Até agora dissestes não saber e não tínheis pecado, mas agora dizeis saber e subsiste o vosso pecado.” E como no caso da mulher adúltera, em que ninguém atirou a primeira pedra para a sua lapidação. Dessa maneira, parece-nos fácil a compreensão do problema. Quem faz, sabendo que faz, é responsável pelo que
fez. Quem faz por instinto, automatismo, compulsão inconsciente ou condicionamento social não tem responsabilidade pelo que fez ou pelo menos tem a sua responsabilidade atenuada. Por outro lado, as compulsões determinadas pelo passado nem sempre são fatais, podendo ser atenuadas ou mesmo eliminadas pelo
comportamento favorável dos responsáveis na vida atual. Dessa maneira, não há contradição, mas seqüência e equilíbrio entre o fatalismo das conseqüências anteriores e a liberdade atual do indivíduo ou grupo. E a própria responsabilidade coletiva não é massiva, distribuindo-se o efeito na medida exata das responsabilidades individuais de cada um de seus componentes. Há ainda o problema do fatalismo voluntário, decorrente do pedido de espíritos culpados de passarem pelo que fizeram aos outros.
Nesses casos, a consciência pesada do indivíduo ou do grupo só pode aliviar-se com a auto-imolação dos culpados. Com isso desaparece a falsa teoria da Ira de Deus e
da vingança divina provinda de épocas de obscurantismo e de concepção extremamente antropomórfica de Deus. A Justiça Divina, segundo a concepção espírita, não é ditada por um tribunal remoto e de tipo humano, mas exclusivamente pela consciência do réu. É ele mesmo quem se condena, no tribunal especial instalado em sua
consciência. Por isso, enquanto essa consciência não está suficientemente desenvolvida, a punição tarda, mas quando ela atinge o grau necessário de responsabilidade a punição se manifesta de maneira rigorosa.


Como pode uma criança inocente, pergunta-se às vezes, ser condenada por Deus a morrer esmagada num acidente? Primeiro temos de lembrar que a criança não é inocente, mas está vestida com a roupagem da inocência, como observou Kardec. Depois, é preciso lembrar que o homem responsável pelo ato de brutalidade em que esmagou uma criança no passado, sob o amparo de legislação humana, sente a necessidade de sofrer uma violência correspondente, para livrar a sua consciência do peso que a esmaga e que o impede de continuar avançando em sua evolução. Os familiares da criança são participes do crime do passado e pagam a sua cota de responsabilidade com o mesmo fim de se libertarem. Aquilo, pois, que parece uma atrocidade divina, não passa de uma imolação em grupo, determinada pelas próprias consciências culpadas. Mas há também imolações voluntárias e sem culpa que as justifique, pedidas por espíritos que desejam socorrer criaturas amadas que se afundam nas ilusões da vida material, necessitando de um choque profundo que as arranque do caminho do erro, onde acumulam conseqüências dolorosas para si mesma. São atos sublimes de abnegação e de amor, que elevam o espírito abnegado e abrem novas perspectivas para os que sofreram o que, em nossa ignorância, chamamos desgraça determinada pela impiedade divina. Os responsáveis pelo acidente responderão por sua culpa no tribunal de suas próprias consciências.


Os Espíritos falam em contabilidade divina, registros e fichários especiais do mundo espiritual, para nos darem uma idéia humana da Justiça Suprema, mas essa Justiça não precisa dos nossos recursos inseguros e falhos. A mecânica de ações e reações é processada subjetivamente em cada um de nós e o fichário de cada qual está visível nos registros da memória de cada um, inscritas de maneira viva e ardente nos arquivos da consciência subliminar a que se referia Frederic Myers. Não há organização mais perfeita e infalível do que essa. A misericórdia divina manifesta-se nas intervenções consoladoras e nos socorros dispensados aos sofredores para que possam suportar os seus pesados resgates. Mas por que toda essa complicada engrenagem, se Deus é onipotente e onisciente? Não poderia Ele no seu absolutismo total, livrar as criaturas desse trânsito penoso pelos caminhos da evolução, fazendo-as logo perfeitas em ato? Essa objeção comum, provinda dos desesperados ou dos materialistas, provêm da idéia falsa do mundo como uma realidade mágica, produzida por Deus no simples ato oral do fiat. A complexíssima estrutura da realidade, em suas múltiplas dimensões cósmicas, devia ser suficiente para mostrar-nos quanto ainda estamos longe de compreender Deus. Certamente não seriamos nós, criaturas do seu amor, em fase embrionária de desenvolvimento espiritual que iríamos perceber agora o que Ele sabe desde todos os tempos. Temos de revisar os nossos ingênuos conceitos de Deus, gerados pela nossa pretensão e as nossas superstições. Se Deus pudesse fazer tudo mais fácil, com a destreza inconseqüente de um malabarista que tira coelhos da cartola, é evidente que já seriamos há muito tempo anjos, arcanjos e serafins, revoando felizes e inúteis nas regiões celestiais. Indagar como e por que motivo Deus não age como um malabarista é simplesmente revelar a extensão da nossa ignorância. Como podemos conhecer os problemas divinos, se ainda não conhecemos sequer os humanos?


Mas podemos imaginar o seguinte, a partir de certas concepções contemporâneas, como a teoria do físico inglês Dirac sabre o oceano de elétrons livres em que o Cosmos estaria mergulhado, a da luz infravermelho de que o Universo teria surgido, segundo físicos russos, a teoria do Deus-Éter, de Ernesto Bozzano, e, por fim, a que nos parece mais aceitável, a tese de Gustav Geley, ex-presidente do Instituto de Metapsíquica de Paris, sobre o dínamo-psiquismo-inconsciente que impulsiona todas as coisas do inconsciente ao consciente, sendo este o título do seu livro a respeito. Deus poderia ser interpretado, à luz dessa teoria, como a Unidade no Inefável da intuição pitagórica ou o Eterno Existente e Incriado da concepção budista. O dínamopsiquismo de Geley explicaria, no caso, o estremecimento inexplicável da Unidade que
desencadeou a Década, estruturando o Universo. O dínamo-psiquismo-inconsciente de uma realidade estática teria atingido o consciente, num tempo remoto em que a Consciência Única e Suprema surgiria na solidão do Caos, gerando por sua determinação consciente e sua vontade a estrutura do Cosmos, com todas as leis que o regem. Consciência Única e Suprema, seria a Inteligência Absoluta da concepção espírita, criadora de todas as coisas e todos os seres. Essa Idéia de Deus supriria as lacunas lógicas do processo da Criação, conservando-lhe todos os atributos. Ao mesmo tempo, a mitologia antropomórfica e absurda do Deus das igrejas desapareceria, sendo substituída por uma hipótese científica de força e matéria unificadas na mão de uma Consciência Cósmica não pessoal. Claro que esta não seria a solução do
problema que ninguém pode resolver por conta própria, mas uma tentativa de equação nas bases científicas do nosso conhecimento atual. Resta sempre uma dúvida insolúvel. Se Deus realizou-se na evolução comum de todas as coisas e seres, quem estabeleceu essa lei evolutiva e quem criou, antes de Deus o Inefável e o dínamo-psiquismo-inconsciente?


A questão é solipsista, tautológica, girando sempre em torno de um ponto único de que não podemos sair. O que prova a nossa total impossibilidade, em nosso estágio evolutivo atual, de conseguir resolvê-la. E o Espiritismo a coloca nos devidos termos, ao dizer que só chegaremos à sua solução quando avançarmos o suficiente na escala evolutiva. Temos de subir a planos ainda muito distantes de nós para chegarmos a vislumbrar a verdade a respeito. De qualquer maneira, entretanto, temos de colocá-la, para mostrar que o Espiritismo não endossa as absurdas concepções teológicas, nem os mistérios absolutos que regam a percepção dos enigmas metafísicos. Deus espera a nossa maturação espiritual para nos revelar o que agora não podemos entender. Somos filhos e herdeiros de Deus e toda a Verdade nos espera nas supremas dimensões da Realidade Universal, de que conhecemos apenas uma reduzida parcela. Por outro lado, não podemos admitir que, a pretexto de nossa impotência atual, os supostos agraciados com uma sabedoria infusa nos imponham como verdades reveladas suas conclusões dogmáticas sobre problemas inconclusos.


A posição espírita é a única aceitável atualmente: Deus existe como a Causa Inteligente do efeito inteligente que é o Todo Universal, e por este efeito podemos avaliar a grandeza da Causa. Esta é a conclusão a que podemos chegar e a que Kardec chegou muito antes de podermos dispor dos recursos atuais das Ciências.


A existência de Deus é aceita como a maior e mais poderosa realidade com que nos defrontamos e que não podemos negar sem cairmos na situação ilógica de quem pretende negar a evidência. A colocação do problema por Kardec, baseado nos diálogos com os Espíritos Superiores, prova ao mesmo tempo a grandeza conceptual do Espiritismo, a firme posição científica e filosófica do Codificador, a elevação intelecto-moral dos Espíritos que o assistiram e a capacidade espírita de enfrentar racionalmente todos os problemas do homem e do mundo. Graças a isso, o Espiritismo se apresenta em nosso tempo como aquela síntese superior do Conhecimento Humano a que Léon Denis se referiu em O Gênio Céltico e o Mundo Invisível.


A trama das ações e reações na vida humana, que determina a extrema variedade dos destinos individuais e coletivos, não pode mais, diante dos princípios comprovados da doutrina, ser considerada como ocorrência de fatores ocasionais, aleatórios, que pudessem escapar das leis naturais que regem a totalidade cósmica em todas as suas minúcias, desde as simples amebas até às galáxias no Infinito. A ordem rigorosa dos eventos em todos os planos da realidade, as supostas lacunas que a pesquisa científica preenche, mais hoje, mais amanhã, descobrindo que pertencem a conexões ainda não conhecidas, as particularidades que confirmam a existência de uma estrutura sutil regendo ações e movimentos por toda parte, evidenciam a presença de uma inteligência vigilante e atenta. A Cibernética e a Biônica demonstraram quanto temos de aprender com a Natureza no tocante aos organismos animais. Seria estranho que nessa maravilhosa estrutura macro e micro refinada, as ações e reações da vida humana fossem esquecidas à margem. Por outro lado, o livre-arbítrio do homem não é apenas resguardado, mas também protegido e incentivado pelas
responsabilidades que sobre ele se acumula sem cessar. Tudo é importante e significativo no caleidoscópio universal. Cada ação, sentimento, pensamento e anseio das criaturas humanas pesa na balança de todos os destinos. E isso se comprova diariamente na vida particular e na vida coletiva dos homens.


Não vivemos por viver, mas para existir na transcendência.

***

Embora seja sempre instigante ler o Professor, desta vez me foi muito desgastante. São muitas as minhas divergências deste texto.


Mesmo levando em consideração se tratar de um texto da década de sessenta ou setenta.


Paulo Cesar Fernandes

10 10 2013

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

20131004 Antevisão do Professor

Antevisão do Professor


Me alegra ler o "Curso Dinâmico de Espiritismo - O grande desconhecido" do Professor José Herculano Pires. Sua forma de escrever clara e direta, sem dúvida descerra véus sobre o espiritismo, realmente um desconhecido. Eu mesmo acreditava conhecer espiritismo, por ter passado pela Infância Espírita, pela Mocidade Espírita e por um Centro Espírita que primava pelo estudo.


Ledo engano. Acreditava eu vir o conhecimento por si só, de uma trajetória de contato com a teoria espírita tão somente.


Cheguei aos 60 anos e me veio a certeza de um vazio teórico, e com método venho tentando suprir minhas deficiências. Foi difícil, pois o orgulho é uma venda forte a tisnar nossa visão. Seguimos anos a fio agasalhando a crença do saber. Mas a cada contato com um livro interessante, com um novo autor, com uma outra forma de
pensar a sociedade e a própria vida percebemos quanto nos falta.


Este é um dos momentos. O texto "Função do Egoísmo no Desenvolvimento Humano" de Herculano é visionário na sua posição quanto à Ecologia e muito mais.


Transcrevo o texto na sua totalidade na perspectiva de sua utilidade a mais pessoas, da mesma forma que me foi útil.

+
"Função do Egoísmo no Desenvolvimento Humano"


Fonte: PENSE - Pensamento Social Espírita


Tudo tem a sua utilidade na Natureza. O Universo é teleológico, finalista, busca sempre e em tudo uma finalidade. Os filósofos antifinalistas apoiam suas teorias no erro humano, de todos os tempos, que interpreta a Natureza como criada especialmente para o homem. Esse erro surgiu nas selvas, permaneceu nas civilizações primitivas e projetou-se nas civilizações posteriores. Os próprios deuses e demônios de toda a Antiguidade foram postos ao serviço do homem, que embora os reverenciando, pretendiam utilizá-los como seus auxiliares.


O Universo tem, naturalmente, uma finalidade única e superior, em que todas as finalidades se conjugam num resultado único. Mas esse resultado escapa às nossas possibilidades de pesquisa, de compreensão e mesmo de imaginação. A mais inútil das coisas e os mais prejudiciais dos seres são necessários. E ser necessário é ser
indispensável, é pertencer a um elo da cadeia inimaginável que Kardec nos apresenta nesta frase tantas vezes repetida n’O Livro dos Espíritos: Tudo se encadeia no Universo.


Os problemas ecológicos da atualidade, surgidos com o desenvolvimento tecnológico, deram ênfase à importância da Ecologia, ciência das relações entre sujeito e meio e mesmo entre objeto e meio. O meio físico em que vivemos, com seus elementos naturais configurando determinada situação mesológica humana, é formado por uma infinidade de substituições necessárias à vida vegetal e animal. A ignorância do homem a respeito, tentando aniquilar elementos nocivos do meio, provoca o desencadeamento de desequilíbrios perigosos e até mesmo fatais. Minerais, vegetais e animais considerados perniciosos, quando retirados do meio, revelam a sua função necessária e têm de ser repostos ou substituídos por outros que os compensem. Esse delicado equilíbrio das coisas mínimas apresenta-se também nas coisas máximas, como no jogo de forças que sustentam o equilíbrio planetário e o próprio equilíbrio das galáxias no espaço sideral.


O mesmo acontece na nossa estrutura corporal, com seus vários aspectos físicos, psíquicos e espirituais. Por isso o Espiritismo é contrário a todas as práticas de mortificação, extinção, asfixia ou desenvolvimento de funções, instintos, percepções e poderes inferiores ou superiores na criatura humana. Esta deve ser respeitada em sua integridade, com seus defeitos, deformações, deficiências e assim por diante, cabendo-nos apenas o direito, que é também dever, de auxiliar as criaturas no seu processo natural de aperfeiçoamento e reajustamento, nos rumos naturais da transcendência.


Nem mesmo a mediunidade deve ser desenvolvida por supostas técnicas provindas de tradições místicas ou de invenção de pretensos mestres espirituais. O Espiritismo se opõe a todas essas tentativas imaginosas, que podem levar, como tem levado, muitas pessoas a desequilíbrios graves.



O egoísmo, a vaidade, o orgulho, a pretensão, a ambição representam elementos negativos da constituição do ser humano, que devem ser eliminados. Mas essa eliminação não se dá pelos métodos antigos das corporações religiosas, até hoje empregados, apesar dos terríveis malefícios causados. Kardec e os Espíritos Superiores, em suas comunicações, consideraram o egoísmo como verdadeira praga que impediu o desenvolvimento real do Cristianismo na Terra. Mas jamais aconselharam métodos artificiais para o combate ao egoísmo. As penitências, os cilícios, o isolamento, as autoflagelações de toda espécie tornaram mais negra a Idade Média e ainda hoje se escondem nas furnas da ignorância religiosa que só serviram para desequilibrar milhões de criaturas que constituem o triste e pesado legado da Antiguidade para
nosso tempo. São Tomaz de Aquino advertiu: “Mães, vossos filhos são cavalos”, e a educação das crianças transformou-se em domesticação, processo esmagador da sensibilidade infantil e das esperanças da adolescência. Gerações recalcadas saíram das estrebarias escolares em que os mestres domavam crianças e jovens a pancadas e castigos brutais, para moldá-los segundo os modelos estabelecidos à formação de multidões padronizadas. Todos nós carregamos ainda as marcas profundas e dolorosas, deformantes, do relacionamento humano na Terra.


Com a caridade os homens vão aprendendo a sair do egoísmo para o altruísmo, a não pensar apenas nos seus problemas particulares, a não dividir o seu tempo e bem-estar apenas com os familiares, mas levar um pouco de si mesmos e dos seus recursos para a família maior que sofre lá fora. É essa a finalidade do princípio cristão da caridade no Espiritismo. Por isso a caridade espírita não pode cercar-se de barreiras e dificuldades, de exigências e desconfianças. Deve ser ampla e generosa, acessível a todos, evitando constranger ou humilhar os que a recebem.



O ego é como uma flor que primeiro se fecha no botão para depois desabrochar na corola e por fim doar-se nos frutos.


Tentemos visualizar o processo de formação do ego, para compreendermos a função do egoísmo. A dialética espírita nos ensina que o espírito (não individualizado, mas como o elemento espiritual catalisador, capaz de atrair e aglutinar a matéria esparsa no espaço) liga-se à matéria para lhe dar forma, estrutura. Podemos seguir esse processo no caso humano, em que o ego aparece como um pivô da personalidade em formação, desde a infância. A criança é egocêntrica, é um pivô em torno do qual giram as atenções e as afeições da família. Ela se torna, naturalmente, no centro do mundo. Porque esse é o meio de consolidação da sua individualidade. Tudo quanto ela atrai e absorve do ambiente, do exemplo familial, das relações progressivas na escola e nos brinquedos, é automaticamente centralizado no ego, que é o seu
ponto interior de segurança ante a dispersividade do mundo. O botão fechado centraliza as suas energias, preparando o momento de abrir-se na corola colorida e perfumada. Essa a primeira função do ego, e essa função não é egoísta, mas centralizadora por necessidade de estruturação interna. Quando essa estruturação se define como tal, a criança se abre timidamente para oferecer ao mundo a sua contribuição inicial de beleza e ternura. É um novo ser que surge no mundo, vestido com a roupagem da inocência, como diz Kardec, e ao mesmo tempo trazendo a incógnita de um passado que se revelava pouco a pouco no esquema de um destino com ideias e hábitos negativos que nos foram impostos à força de milênios de brutalidade civilizadora.



Por isso o nosso tempo, em que tomamos consciência do absurdo desse massacre universal realizado em nome de Deus, mostra-se dominado por inquietações e desesperos, revolta e loucura, psicopatias e obsessões que levam a espécie humana a todos os desvarios e ao suicídio individual e coletivo. Temos de examinar essa situação à luz do Evangelho desfigurado e mal interpretado, muitas vezes contraditado frontalmente pelas teologias do absurdo. E temos de confrontar esse mundo-hospício, em que a loucura mansa dos clérigos e dos fascinados pela mentira consciente ou inconsciente é a mais perigosa de todas, gerando a hipocrisia das vozes impostadas e do comportamento social simulado. A simulação na luta pela vida, estudada por Igenieros num livro assustador, é o sintoma mais evidente das condições patológicas do homem atual, que se tornou num ego atrofiado, por isso mesmo vazio e faminto, que tudo quer exclusivamente para si mesmo. E isso a tal ponto que a palavra caridade, definida pelo Apóstolo Paulo numa síntese insuperável e adotada por Kardec como o fundamento da evolução humana, transformou-se na linguagem
atual num sinônimo de hipocrisia. No próprio meio espírita encontramos os desavisados que condenam essa palavra, sem lhe aprofundarem o sentido. E há os que
pretendem disciplinar a caridade, fiscalizar o seu aproveitamento pelos beneficiados e obrigá-los a determinadas exigências para socorrê-los. Há também os que alegam a
inutilidade dessa forma de ajuda. Esses não pensam no bem que uma palavra amiga e confortadora, uma visita de solidariedade, um socorro de emergência a quem está
desprovido de roupas para enfrentar o inverno ou de remédio para uma chaga, podem representar. A caridade espírita não é esmola, é doação de amor, solidariedade
humana que vale não só pelo amparo material, mas acima de tudo pelo conforto da relação humana. Sua prática não tem por finalidade sanar os males sociais com remendos eventuais, mas mudar as formas egoístas da relação humana na Terra, ampliando-a e aprofundando-a nas dimensões superiores do altruísmo. Nesse estranho panorama de castas privilegiadas, povo necessitado e multidões miseráveis, o Espiritismo considera a mecânica da caridade como o instrumento ideal para abrir corações, despertar consciências e alentar esperanças.




As ideologias políticas apresentam fórmulas de efeitos superficiais e na reforma muitas vezes penosa de estruturas, mas o Espiritismo restabelece a técnica simples do Cristo, que toca o íntimo das criaturas para atingir as causas profundas dos desajustes. Em cada reencarnação o ser repete ao mesmo tempo a filogênese material
e espiritual do homem, no desenvolvimento do embrião e na abertura progressiva do egoísmo no meio social. Vejamos os vetores desse processo duplo nas linhas da
transcendência:




a) Na magia do amor, reminiscência das atrações misteriosas na selva, o par humano se liga sob a impulsão dos instintos reprodutores e os genes se fundem no ventre materno produzindo o embrião, síntese das formas animais superadas pela espécie. A recapitulação genésica reintegra o espírito na linha filogenética e restabelece o pivô do ego em seu poder centralizador. Na gestação, o paralelismo psicofísico reordena as forças da evolução nos rumos da ascensão. A forma humana resulta das formas anteriores na sublimação do caos instintivo e sua hereditariedade psicobiologia. O espírito ligado ao caos exerce as funções discriminadoras na conformação do novo ser, disciplinando as energias consciências que marcam as conquistas do passado e as autopunições de erros e crimes anteriores. A Providência Divina envolve o novo ser em sua bênção com aparência da inocência, que lhe permitirá atrair a afeição dos familiares no restabelecimento de afetividades perturbadas ou aprofundamento das afeições sobreviventes. O novo cérebro está virgem como a tabula rasa dos empiristas ingleses, pronto a gravar um novo rol de lembranças na nova memória em
organização. No arquivo do inconsciente (nessa consciência subliminar de Myers) as heranças válidas permanecem ocultas, mas prontas a emergir na consciência de relação pelo mecanismo das associações de ideias e sentimentos.



b) Vencida a etapa uterina e a primeira infância, o ser se mostra pronto a enfrentar as vicissitudes de uma nova existência. Recobrou sua vida terrena nas entranhas da mãe, sob as influências psicofisiológicas do organismo gerador de seu novo corpo. Revela anomalias ou perfeição física e mental, segundo o seu passado. É de novo o centro do mundo e traz em si mesmo os fatores de seu desenvolvimento e amadurecimento. No lar esses fatores se manifestam desde logo, mas vão sofrer as influências modificadoras da família e da escola, para o seu ajuste necessário às novas condições de vida. O instinto de imitação lhe favorece a adaptação ao novo mundo. O ego centralizado volta a abrir-se nessas relações primárias, através do desenvolvimento da afetividade em termos eletivos. Suas preferências são ainda impulsivas, provocadas por fatores ambientais e circunstanciais, mas pouco a pouco se define a linha preferencial da razão em desenvolvimento, revelando as afinidades ocultas. O ser toma pé na realidade e manifesta as suas tendências vocacionais. É o momento de reintegração nos esquemas frustrados do passado ou de renovação do esquema em face das novas exigências da realidade nova.



c) A crise da adolescência vai revelar em breve a posição ôntica precisa ou indecisa do novo ser, herdeiro de si mesmo e das contribuições paternas e maternas, familiais e sociais, excitadas pelo meio cultural e reorientadas pela influência espiritual das entidades espirituais que protegem e o assistem constantemente. Está completa a tarefa da ressurreição na carne. Daí por diante, o novo destino do ser na transcendência dependerá de sua própria consciência. Ele está preparado e aparelhado para enfrentar
os problemas da juventude e suas graves opções, da madureza e seus desafios, da velhice e sua recapitulação de toda a odisseia existencial que deve tê-lo elevado acima do passado no processo irreversível da transcendência. O egoísmo do adulto será a marca de um distúrbio psíquico: o infantilismo. O altruísmo será o troféu conquistado da sua vitória na escalada evolutiva. Seu regresso à vida espiritual o colocará em face de sua verdadeira situação. Será certamente um vitorioso em muitos aspectos de sua personalidade, mas o fracasso na transcendência do egoísmo lhe mostrará que todas as conquistas secundárias não podem compensá-lo. Terá de voltar à existência terrena em reencarnações de abnegação forçada, não compulsórias, mas de sua própria escolha, para conseguir a superação difícil do apego a si mesmo.



Por sua própria natureza de elemento centralizador da estrutura ôntica, responsável pela sua unidade, o ego é a grande barreira contra a qual se quebram os impulsos da transcendência. Seu solipsismo tautológico o transforma numa viragem do espírito, imantando-o a si mesmo. A parábola do moço rico, no Evangelho, dá-nos o mais claro exemplo do apego ao mundo gerado pelo egoísmo nos Espíritos que se deixam fascinar pelas ilusões materiais . O ego gera as falsas ideias de superestimação individual,
de segregação do indivíduo e sua grei, considerando os demais como estranhos e impuros. Age como um centro hipnótico absorvente, impedindo o ser de abrir-se no altruísmo, fechando-lhe o entendimento para tudo o que não se refira aos seus interesses individuais. A vaidade, a arrogância, a prepotência, a insolência, a brutalidade se formam no cortejo de estupidez das pessoas egoístas e dos Espíritos egoístas.



Por isso, o Espiritismo proclama a caridade como a virtude libertadora, fora da qual não há salvação para o homem do mundo. A mecânica da caridade pode ser desencadeada, no homem do mundo, por situações aflitivas; de saúde ou de problemas familiais ou financeiros, levando-o a dar, não raro por vaidade, a primeira moeda a um mendigo. Essa doação insignificante abre uma pequena brecha no egoísmo. A seguir virão outras doações mais generosas, até que a fortaleza do ego se abale e o ser orgulhoso possa perceber a sua própria imagem refletida no espelho doloroso de um rosto de pedinte esfomeado.



O Espiritismo nos ensina a dar, além da moeda, o nosso amor a toda a Humanidade, sem discriminações raciais, religiosas, políticas e de espécie alguma. A estrutura social da civilização perfeita não surgirá das mãos dos opressores que tudo prometem, mas das mãos humildes da viúva que depositou a sua moeda pequenina e única no cofre em que os ricos despejaram tesouros para comprar o Céu.

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Eu lia e imaginava o Professor em suas aulas na Universidade de São Paulo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas passando conceitos de Filosofia a seus alunos e tendo em cada aluno um espírito a ser formado pelo educador consciente.


Somos todos de uma certa forma filhotes desses grandes professores do viver, mas do viver numa perspectiva de espiritualidade e progresso.


Somos corpo sim, e dele tiramos o prazer sim. Mas temos momentos de alçar voo, ganhar os ares da produtividade proposta pelo Erich Fromm ao longo de toda a sua obra.



Paulo Cesar Fernandes

04 10 2013

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

20130930 Teorias não são verdades

Teorias não são verdades


Por que motivo faço com tranquilidade tal afirmação?


Por ter aprendido com um professor, que teorias são tão somente teorias, enquanto não lhe venham elementos comprobatórios mais concretos.


Me refiro ao Professor Rivail, cuja obra venho estudando com mais empenho, secundado este estudo por um dos seus maiores defensores que o Brasil teve: o Professor José Herculano Pires.


Estou certo, muitos outros homens de valor, de minha cidade de Santos e de fora dela deram contribuições significativas na compreensão desta vasta obra. Mas, desde a juventude, a forma de expressão de Herculano me calou mais fundo que os demais. Mesmo os seguidores mais próximos de Kardec como Leon Denis e Ernesto Bozzano.


Humberto Mariotti com seu "O homem e a sociedade numa nova civilização" representou a libertação do medo de ser o comunista, socialista, marxista que sempre fui. O verdadeiro titulo dessa obra era "Parapsicologia y Materialismo Histórico", mas no período da Ditadura Militar que infelicitou o Brasil a Edicel Editora se viu obrigada a mudar o título para ter sua liberação pela censura.


Manuel S Portero e Mariotti são dois grandes de nosso pais irmão.


Proposituras e não aventuras


Por vezes ouso propor algumas ideias. Todas nascidas do pensamento lógico de alguém incapaz de ver a realidade sem a imortalidade do espírito; incapaz de ver o espiritismo de uma forma não libertadora do espirito, esse espírito foco maior de toda sua teoria.


Se o espiritismo não for competente para libertar os espíritos de todas as amarras a ele atadas historicamente, não terá cumprido sua maior tarefa. Espírito liberto inclusive para ler as obras se despojando da letra que mata, impregnando-se da seiva das ideias, pois apenas elas nos vivificam a capacidade de pensar.


Como criaturas pensantes é imperioso caminhar com liberdade total. Sem mestres, gurus ou guias, capazes de embotar nosso pensamento, substituindo-o pelo seu. Esses são falsos messias ou falsos profetas. Buscam mais o brilho pessoal ao pensamento cristalino e franco, pleno de sinceridade. Pobres dos seguidores dos profetas do personalismo e da vaidade.


Não nascemos para viver com antolhos, como vivem os cavalos. Somos mais parecidos às águias cujo olhar é capaz de divisar a lucidez da racionalidade e pautar seu voo nesse céu sempre azul.


Se Herculano Pires propagava em suas obras viver no Limiar da Era do Espírito. Essa Era do Espírito já há de estar entre nós, abrindo portas e janelas para a entrada de ventos renovadores de todas as nossas estruturas mentais. As velhas estruturas autoritárias e inamovíveis não mais servem aos tempos ágeis e dinâmicos da atualidade.


Queiramos ou não, somos seres de um outro tempo. E nossa tarefa é tomar todas as contribuições desses baluartes do passado, aproveitar o cabível em nosso tempo, e partir para novas elaborações capazes de dizer o nosso tempo e a nossa sociedade na métrica da Era do Espírito presente entre nós indubitavelmente.



Paulo Cesar Fernandes


30  09  2013

domingo, 29 de setembro de 2013

20130928 Ventos de Vigo na Galícia

Ventos de Vigo na Galícia


Link de um show, motor de inspiração: Carlos Nuñez


http://www.youtube.com/watch?v=ORkpeey_Gsw


E me vejo apartado de toda a racionalidade. Mergulho na profundidade de uma mística experiência: contato com minha materna avó. Uma palavra mágica trouxe o fio da meada: Vigo.


Cidade donde se largaram de Espanha, deixando passado e Galícia para os escaninhos da memória.


Nunca he sentido abuelita tan cerca. Seus ralos cabelos como a tocar minha face, qual tantas vezes ocorreu em vida. É algo sem explicação pois a emoção abarca a todo y nos hace volver en el tiempo.


Como hoje nunca.


Diferença profunda entre a lembrança de nossa visitante e a possível presença, com toda sua carga de emoção e saudades.
Quantas pequenas palavras na Pasteur 98. Quantos acordes de violão, na sala da frente da Pasteur 67. Momentos de serenidade.


Um show em Vigo de Carlos Nuñez, promotor de tudo isso. Uma música celta segundo os apresentadores. Um som célere e belo, bem ao gosto da abuelita, quando de braços alçados ainda bem lhe dava um jeito de bailar.


Quando vejo argentinos bailar a chacarera não é outra imagem a se estampar em minha mente; abuelita bailando na sala e dizendo que a todos les gustavan tenerla como pareja en las fiestas.


Somos temporais em nossa vida na terra, mas espíritos eternos, carregados de nossas mais queridas lembranças.


Imenso público aplaudia em Vigo. Mas não se aproximavam da emoção que me ia dentro, calor na alma viajora.


A música é sem dúvida um dos meus eixos de vida.


Voltarei a ela em nova etapa de minha existência, ampla e produtiva há de ser.


Grato a Carlos Nuñez por tudo proporcionado. Sucesso, saúde e paz.


Paulo Cesar Fernandes

28 09 2013

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

20130927 Nick

Nick


O ano de 2000 se iniciava.


Saía de uma feira-livre numa das avenidas de Santos, minha cidade, e passando em frente a uma borracharia de esquina me deparo com um protoespírito na forma de cão. Pequena bola de pelos a se movimentar e latir. Era uma ninhada de 5 filhotes. Cliente da borracharia, perguntei ao dono sobre a data de nascimento.


Segundo ele tinham chegado ao mundo numa leva de 6 filhotes, na exata virada de 1999 para 2000. Um deles já tinha recebido acolhimento numa família.


Brinquei com os 5 SRD's (Sem Raça Definida ou vira-latas) e me pareceu bom trazer para minha casa aquela pequena criatura. Uma bola de pelos menor que minha mão, pequeno a ponto de não conseguir subir um degrau de escada.


As vacinas de praxe, uma vez que nada lhe tinha sido feito. E diversão total. O xixi ainda como se fosse femea. A primeira levantada de perna para urinar, e a alegria desse fato. Algo a se repetir sem conta nestes 13 anos. A primeira vez que subiu as escadas do quintal e a farra e a alegria desse feito.


Uma descoberta: diferentemente das femeas que tinha tido, era completamente independente de seu dono, no caso, eu. Não se interessou por jogar bola. Nunca pediu para ir passear na rua como faziam as femeas. Se eu digo "Vamos na rua?" salta de alegria e com ansiedade aguarda a guia. Mas nunca pediu.


São 13 anos de convivência. Com dias de alegria e eventuais aborrecimentos com xixi fora do lugar, mas animal é sempre um aprendizado. Sempre uma alegria. O banho mal quisto, porém aceito. As demonstrações de vontade própria. O fácil rosnar ao ser contrariado. Tudo constitui motivo de risadas. Como pode ter tanta maldade numa criatura, demonstrada desde os primeiros meses.


Com a idade o sono domina grande parte de seu tempo. E para minha tristeza surgem as doenças: pequeno tumor a incomodar meu pequeno amigo. E segundo a doutora de fácil remoção.


Tal qual ocorre na doença de nossos familiares e amigos humanos, passamos em revista os momentos de nossa convivência. E um certo vazio de ausência já prenuncia, já nos prepara para a inevitável separação, a ocorrer mais cedo ou mais tarde, mas inevitável.


Toda perda deixa um vazio incapaz de ser preenchido. Quando Nick se for, o seu vazio ficará comigo, assim como estão o vazio da Laika; Naná e Niña.

Laika na almofada e com sono.
 
Abaixo eu com Laika no colo e Naná ao lado. Minha mãe pensativa.
 
 
 


Nick em close numa foto de 2002.
 

Os momentos vividos com cada um desses protoespíritos são marcas fortes nesta minha passagem pela terra. E momentos felizes, sem a menor sombra de dúvida.


Paulo Cesar Fernandes

27 09 2013


Nota: Protoespírito é a fase anterior à fase do espírito. Assim como temos a ProtoHistória, fase anterior ao surgimento da escrita; a fase protohominal anterior ao homem como o conhecemos; temos a fase protoespiritual, anterior ao pensamento contínuo, embora nas suas diversas formas de manifestações apresentem emoções claramente identificáveis. Uma demonstração da preparação da fase vindoura, onde as emoções serão força propulsora no sentido do progresso.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

20130924 Pensamento e força

Pensamento e força


Nossos atos, nossa linguagem e nossos pensamentos são os marcos fundamentais do desnudamento de nossa alma. Para que eu possa ser bom, e visto como bom, é necessário depurar os meus pensamentos; aprimorar e elevar a minha forma de expressão verbal; isto terá, sem dúvidas um desdobramento positivo em cada ato meu.


Somos o fruto de tudo aquilo que pensamos.


As mais recentes descobertas da neurologia nos afirmam a força do pensamento, inclusive na movimentação de membros mecânicos.


Desde jovem eu lia ser nossa mente um dínamo psiquismo a criar campos de força em torno de cada um de nós. Assim, pensar é criar.


Paulo Cesar Fernandes

24 09 2013